"No futebol atual, alguns jogadores mais atrevidos são impedidos de criar pelo treinador”
Em declarações ao podcast Ontem Já Era Tarde, de Luís Aguilar, o ex-internacional, reconhecido pela técnica refinada e capacidade de desequilibrar no um-contra-um, descreve um cenário que, na sua opinião, reduz a liberdade de quem gosta de criar dentro de campo.
“Com o passar dos anos, muitos treinadores, que hoje são cada vez melhores do ponto de vista tático, começaram a pedir trocas de bola rápidas, com um toque, dois toques ou três toques. Isto tem a suas vantagens porque torna o jogo mais rápido, mas retira espaço a jogadores que procuram explorar situações individuais”
Segundo o antigo jogador, essa forma de treinar, sempre com passes, afeta a confiança e leva à perda de criatividade dos mais habilidoso.
O antigo internacional recorda o seu próprio percurso: “Senti essa mudança na minha carreira. Era melhor jogador com 22, 23 ou 24 anos do que com 29 ou 30 porque passei muito tempo a treinar e a jogar a um ou dois toques. Depois, quando precisas de arrancar, fintar vários jogadores, estás sem confiança porque não fazes isso há muito tempo”.
Esse lado mais criativo, afirma, “também se treina”.
“O 6-3 é o jogo da minha vida. As pessoas ainda perguntam umas às outras onde estavam naquele dia. É quase como o 25 de Abril”
João Vieira Pinto recorda a época 93/94 e o jogo que marcou a fase final da luta pelo título entre Benfica e Sporting. As duas equipas estavam separadas por um ponto, com vantagem para o Benfica. O encontro em Alvalade ficaria na história.
O antigo internacional descreve o arranque da partida: “Eles vinham na fase ascendente e o início do jogo foi muito difícil para nós. Até ao meu golo. E estivemos a perder por duas vezes”.
O Benfica venceu por 6-3, com três golos de João Vieira Pinto na primeira parte e duas assistências na segunda. O resultado deixou a equipa mais perto do campeonato que viria a conquistar.
O antigo avançado, conhecido como “Menino de Ouro”, não tem dúvidas sobre o significado daquele momento:
“Claro que o 6-3 é o jogo da minha vida. As pessoas ainda perguntam umas às outras onde estavam naquele dia. É quase como fazem no 25 de Abril [risos]”
Depois do jogo, João Vieira Pinto saiu de Alvalade e conduziu até ao Algarve. “Tinha lá a minha família e amigos. Fui sozinho, no meu Rover, numa altura em que ainda não havia muita autoestrada. Foi uma viagem longa e ia a pensar naquilo tudo. No que tinha acabado de acontecer no jogo.”
Quando chegou ao Algarve encontrou um grupo de familiares e amigos numa discoteca. “Foi giro. Depois dos 6-3 eu podia ir a qualquer lado. Só não sabia é que estava lá aquela festa toda, com tanta gente, à minha espera.”
O jogador recorda aquele dia como um dos mais marcantes da carreira.
“Rodrigo Mora e João Félix são aqueles que vejo com um estilo mais parecido ao meu”
João Vieira Pinto identifica dois jogadores do futebol atual com uma forma de jogar que apresenta pontos em comum com o seu futebol.
“Houve uma altura em que achei que o João Félix ia ser esse jogador e tem algumas semelhanças. O outro é o Rodrigo Mora, o miúdo do FC Porto. Não sei como joga de cabeça, mas a forma como encara o jogo, como se entrega, a procura de espaços, fazer o último passe, aparecer na área quando ninguém está à espera, acho que sim, que é parecido. Talvez precise de um bocadinho mais de nervo”
Sobre o melhor companheiro de ataque que encontrou, João Vieira Pinto é direto: “Luís Figo”.
Os dois formaram a linha da frente da Seleção em várias fases e escalões. Ainda muito jovens, também ao lado de Rui Costa, sagraram-se campeões do Mundo de sub-20, em 1991, na prova disputada em Lisboa.
Para João Pinto, foi o segundo Mundial da categoria depois de ganhar em Riade, dois anos antes. Ambas as conquistas foram sob o comando de Carlos Queirós: “Um dos treinadores mais marcantes que tive. Foi ele que acabou com a cultura de derrota das seleções portuguesas.”
Quanto ao adversário mais difícil, o antigo internacional aponta o nome que mais o marcou dentro de campo.
“Zidane nas meias-finais do Euro 2000. Abriu o livro naquele dia e criou-nos muitos problemas. Raramente me aconteceu admirar um jogador enquanto jogava contra ele, mas foi um desses dias. Ele estava imparável”
Em relação ao melhor jogador de todos os tempos, coloca dois nomes lado a lado: “Maradona, mas também tenho pôr o Cristiano Ronaldo ao mesmo nível por tudo aquilo que tem feito.”
Quando tem de recordar o melhor golo marcado pela Seleção, a escolha recai sobre o Europeu de 2000 numa grande reviravolta em que Portugal venceu por 3-2 depois de estar a perder por duas bolas a zero: “O de cabeça, do 2-2, contra a Inglaterra.”
"Estava com o maxilar partido, sem conseguir falar, e Vale e Azevedo a querer vender-me ao Corunha sem eu saber nada”
João Vieira Pinto recorda uma das fases mais marcantes da relação com João Vale e Azevedo, presidente do Benfica na altura. Segundo o antigo internacional, assim que o dirigente entrou em funções o impacto foi imediatamente negativo.
“Logo no primeiro dia disse que eu tinha de me ir embora porque ganhava muito. Começou logo assim. Por causa do meu salário, que era muito alto, mas depois foi buscar dois ou três ingleses que ganhavam tanto ou mais do que eu”
O episódio que mais o impressionou ocorreu quando Vale e Azevedo fechou um acordo com o Deportivo da Corunha sem o jogador ter conhecimento. João Vieira Pinto estava a recuperar de um maxilar partido, resultado de um lance com Paulinho Santos num jogo frente ao FC Porto.
“Ia para o tratamento, mas ele disse-me para passar no seu escritório. E eu sem conseguir falar”
Ao chegar junto de Vale e Azevedo, recebeu a notícia: “Disse-me que eu ia para o Corunha, que já tinha acertado tudo e que os responsáveis do clube estavam ali na sala ao lado. Para eu ir lá tratar das minhas condições com eles.”
João Vieira Pinto afirma que desconhecia por completo a situação.
“Fui ter com as pessoas, apenas por respeito, agradeci a presença delas, mas disse que não ia. E que nem sabia de nada daquilo”
O avançado recorda que houve forte pressão para a sua saída. Antes do Euro 2000, João Vale e Azevedo decidiu afastá-lo do clube.
O jogador foi despedido, após oito épocas na Luz, sem que o Benfica recebesse qualquer valor pela transferência devido à decisão do então presidente. Após o Europeu, assinou pelo Sporting, onde viria a ser campeão.
Sobre as diferenças entre os dois clubes nesse período, João Vieira Pinto resume a questão:
“A principal diferença do Sporting daquela época para o Benfica? É que o Sporting não tinha Vale e Azevedo. Ele foi estúpido. Podia ter aproveitado o Euro, negociava-me e o Benfica ganhava algum dinheiro comigo”