Ontem Já Era Tarde

Artur Soares Dias: "Otávio, Pote, Bruno Fernandes e Otamendi foram os mais chatos que apanhei. Sempre a ‘melgar’ o árbitro"

Filho de um árbitro, Artur Soares Dias cresceu a acompanhar o pai nos estádios, habituou-se cedo ao ambiente do futebol e conheceu, desde jovem, tanto o lado fascinante como as dificuldades da profissão. Nada disso o demoveu — nem sequer os avisos do próprio pai, que procurou dissuadi-lo de seguir o mesmo caminho. Hoje é considerado um dos árbitros mais conceituados do país e uma das referências internacionais da sua geração mas não esconde o quão "difícil é apitar em Portugal".

Loading...

“Não é difícil arbitrar Champions. Jogadores querem jogar. Difícil é apitar em Portugal"

Ainda na adolescência, Artur Soares Dias inscreveu-se no curso de arbitragem e iniciou um percurso que o levou a subir, etapa a etapa, todos os escalões.

Hoje, é considerado um dos árbitros mais conceituados do país e uma das referências internacionais da sua geração.

Ao longo da carreira, dirigiu inúmeros grandes jogos em Portugal, incluindo clássicos e dérbis, e somou momentos marcantes no plano internacional. Entre eles, destacam-se a presença no Euro 2024, a final da Conference League desse mesmo ano entre Olympiacos e Fiorentina, e a primeira mão das meias-finais da Liga dos Campeões 2022/23, que colocou opôs Real Madrid a Manchester City.

Com experiência acumulada nas competições portuguesas e nos grandes palcos europeus, Soares Dias é categórico ao comparar realidades:

“Não é difícil arbitrar Champions. Jogadores querem jogar" e recorda mesmo um encontro da Liga dos Campeões em que assinalou “oito ou nove faltas”, descrevendo-o como um jogo em que “quase não deram conta” da sua presença.

A diferença, diz, está na atitude: “Difícil é apitar em Portugal. Os jogadores dificultam mais o trabalho do árbitro.”

Sobre a intensidade do jogo português, Soares Dias reforça que o problema não reside apenas na arbitragem: “É um ciclo. Os jogadores fazem-se mais à falta e os árbitros apitam mais.”

“Árbitros deviam ter um treinador ao intervalo, tal como acontece com os jogadores”

A longa carreira na arbitragem levou Artur Soares Dias a viver de perto as várias exigências e pressões da profissão. Essa experiência acumulada fê-lo refletir sobre mudanças que, na sua perspetiva, poderiam melhorar significativamente o desempenho dos árbitros.

Entre elas, destaca duas que considera essenciais: o apoio psicológico, numa atividade permanentemente exposta a críticas, e o acompanhamento técnico durante o próprio jogo, tal como acontece com os jogadores.

Recorda que, em determinados momentos da carreira, chegou a contratar alguém para analisar e cortar lances da primeira parte, de modo a poder revê-los ao intervalo.

“Se estou num trabalho, é normal que queira saber como está a ser o meu desempenho”, afirma.

Mas a sua visão vai mais longe: “Os árbitros deviam poder ter um treinador ao intervalo, tal como acontece com os jogadores.”

Antecipando críticas, reconhece que haverá quem veja nesta ideia uma possível influência indevida no critério para a segunda parte. Para si, esse argumento não faz sentido:

“Se mudar para melhor, qual é o mal? Também há muitos jogadores que não têm uma boa primeira parte, ouvem a palestra e a seguir sobem de produção.”

Soares Dias acrescenta ainda que, tanto quanto sabe, esta possibilidade nunca foi discutida a nível internacional. Por isso mesmo, considera que fazem falta decisores que tenham passado por estas situações dentro de campo, capazes de compreender as necessidades reais da arbitragem moderna.

“Otávio, Pote, Bruno Fernandes e Otamendi foram os mais chatos que apanhei”

Apanhei muitos jogadores chatos”, confessa Artur Soares Dias. Falando em exemplos nacionais e referindo-se a atletas dos três principais clubes, “para que ninguém leve para a clubite”, enumera alguns casos.

“O Otávio do FC Porto, por exemplo. Mais tarde, no último jogo da minha carreira, apanhei-o na Arábia Saúdita. Ele viu-me no túnel e começou a rir-se. Disse-lhe logo: ‘Hoje não me vais chatear’. E ele respondeu: ‘Não, hoje é teu o último jogo, não te vou chatear.’”

Além de Otávio, Soares Dias aponta outros nomes: “O Pote, o Bruno Fernandes e o Otamendi também andam sempre de volta do árbitro, a reclamar, a tentar pressionar, a ‘melgar’.”

Apesar dessas características, o árbitro sublinha que todos têm algo em comum: “São jogadores de elevada qualidade.”

No plano internacional, alguns nomes também se destacam: “O Sterling foi dos mais difíceis de arbitrar pela velocidade e o Neymar por ter sempre a bola colada ao pé e por simular bastante.”

Esse comportamento leva-o a uma sugestão:

“Jogador que simule, e que se prove que simulou, devia apanhar um jogo de suspensão. Com certeza que a seguir ia ter isso em conta e simular menos vezes.”