Saúde Mental

Qual a máscara que protege a nossa Saúde Mental?

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Carla Fernandes

Carla Fernandes

Psicóloga Clínica

Parece irónico ter sido a COVID a colocar o assunto da saúde mental na ordem do dia. A COVID pôs a humanidade a pensar na sua finitude e a saúde mental, sempre considerada como a parente pobre das doenças, assume o papel de protagonista nesta história viral.

Como alguém diria, quem não descompensou irá descompensar. De forma mais ligeira, até intensidades que levam à descompensação, há que perguntar, quem desde Março de 2020 passou imune, a pesadelos, insónias, sonhos vividos, ansiedade/ ataques de pânico, depressão, tristeza, melancolia, solidão, descrença perante o futuro, até a surtos psicóticos e retorno a dependências deixadas antes da COVID?

O amanhã é incerto

A COVID trouxe, para além do vírus, a constatação que afinal não se controla a vida, que o amanhã é incerto, que os planos futuros delineados poderão não se realizar. Outro pensamento recorrente que surgiu, primeiro de forma subtil, mas que foi ganhando força conforme os números diários nos iam sendo apresentados, é que vamos morrer … somos finitos.

A morte, é o tema sobre o qual não se pensa, não se fala, contudo quando há elaboração e são colocadas questões como: vou morrer e como vivi a minha vida? Como vou ser lembrado? Qual o legado que deixo? E diria a pedra toque: sou feliz no meu presente? A maioria das pessoas não quer, nem tão pouco pensa em morrer, assim sendo, tomam-se medidas, todas, se possível, para evitar ser infetado.

Para além do nome COVID, nos primeiros tempos dominados pelo medo do desconhecido, pela falta de credibilidade no que era dito, e o pensamento de como seria difícil passar impune ao vírus, fomo-nos preparando psicologicamente, recorremos às defesas conhecidas, aos padrões individuais para lidar com situações graves e de catástrofe.

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De um dia para o outro, fomos adotando comportamentos face à realidade vivida, uns mais ajustados que outros e diríamos que há quem tenha muito medo de morrer… Outros comportamentos, indiciam que a patologia estava lá e que a COVID simplesmente a agudizou.

No comboio, a pessoa senta-se, desinfeta as mãos, retira da mala a bolsa das luvas, desinfeta as mãos novamente, desinfeta a bolsa das luvas, coloca tudo organizado no compartimento anti COVID, todos estes comportamentos repetidos diariamente, várias vezes ao dia, fazem pensar no que os difere dos critérios de diagnóstico de TOC? Diria que nada… como chegará esta pessoa emocionalmente ao final do dia? Talvez não infetada mas exausta.

Percebemos que jamais iriamos ser os mesmos

Em Portugal, já é histórico que as políticas da saúde sejam pensadas em prol do tratamento, em vez da prevenção. Em relação à Saúde Mental, em tempos da COVID não foi exceção. Quando na primeira noite do estado de emergência, os sonhos vividos dominaram o meu sono, calculei que a saúde mental dos Portugueses, merecia toda a nossa atenção. Permitimos que cada um lidasse sozinho consigo mesmo, ficamos sós, com a incerteza do que nos esperava, sem rede, simplesmente confinados e privados ao maior privilégio do ser humano, a liberdade.

Alguns acompanhados, outros sozinhos, uns em ambientes saudáveis, muitos em disfuncionais, todos sem sabermos como seria o amanhã. Para o ser humano que faz tudo para se organizar, controlar e se agarrar ao conhecido, o marasmo provocado pela dúvida, abriu caminho para o vazio interno. Recorremos às boias de salvação, ao Google, aos padrões conhecidos que até à data resultaram, no entanto e de forma muito precoce percebemos que jamais iriamos ser os mesmos.

Típico de português, dado ao melodrama, a procura de respostas independentemente das fontes, toldou-nos o discernimento, como há muito não visto, atrevia-me a dizer que os portugueses substituíram a razão pela emoção.

Não seria um problema, se as emoções fossem ajustadas ao vivido, se não extrapolassem o razoável, assumissem um papel estruturante e adaptativo mas as emoções parecem ter assumido o rubro e canalizadas de forma patológica para o próprio e para os outros. Portanto, trocar o sono da noite para o dia, tornou-se normal, trabalhar horas sem fim, também e estar-se disponível sempre e a qualquer hora passou a ser o apanágio de alguns, afinal, quem não o fizesse, não era bem visto. Tudo isto, confinado a quatro paredes, constituiu o cenário perfeito para o surgimento de perturbações mentais.

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As maçanetas ficaram gastas e corroídas e a nossa saúde mental também

Quantos de nós passámos a medir a febre várias vezes ao dia, quantos de nós nos sentimos quentes, quantas vezes lavamos as mãos, quantas maçanetas das portas estragadas com tanta desinfeção, e seguimo-las muito bem, eram as recomendações. O que não nos foi dito, é como é que devíamos cuidar da nossa saúde mental. Quem cuidou de nos dizer como deixarmos de nos sentir sós, que os abraços já não eram uma realidade, que o estar com quem gostamos iria acontecer um dia, não se sabendo bem quando. As maçanetas ficaram gastas e corroídas e a nossa saúde mental também.

Todas as moedas têm duas faces, quantos conseguiram ver a face positiva da COVID? Mas afinal o que se pode tirar de positivo de estar em casa 24h/dia, privados de contacto social, fora do local de trabalho, sem acesso às distrações habituais… a parte positiva da COVID, deu-nos tempo e deu-nos a melhor companhia…NÓS!!!

A COVID foi uma “fixe”

Com o argumento que a vida passa depressa, sempre a correr, preocupação com tudo e todos, a desculpa de nunca se ter tempo para NÓS, a COVID foi uma “fixe” e deu-nos esse tempo. E agora, o que fazer com ele? Vou mesmo ter de pensar em mim… parece inevitável, o mundo parou e não vou a lado nenhum, ou vou, ao meu mundo interno, aquele que nunca tive tempo de visitar.

Nos tempos da COVID, a preocupação são sobretudo os casos em que não há consciência critica, casos de automedicação, questão esta, transversal e presente em diferentes faixas etárias.

O silêncio que se foi instalando, as estratégias de sobrevivência que fomos criando, sem saber se o resultado será o melhor, mas o pensamento único, temos de sobreviver, o vírus não vai levar a melhor… e a pouco e pouco sem darmos por isso, começamos a viver a nova rotina “sobreviver à COVID”.

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Após o pânico perante a incerteza, o saber se estou ou não contaminado, como será a minha vida daqui para a frente, a falta de perspetiva de futuro, as privações que se avizinhavam pela frente, apresentaram-se como um cenário desanimador, de descrença, e se o vírus não mata, outras coisas poderão matar-me… a solidão, a depressão, a falta de contacto social, o olhar para dentro de mim, ver o que lá estava há tanto tempo sem ser visto… tudo parecia demasiado desencorajador… e quando pensávamos que até ao verão tudo ficaria resolvido, chegamos à conclusão que afinal não e que o fim não está desenhado, a sintomatologia agudizou e até os mais estruturados, manifestam o seu desagrado, “estou farto disto”; “não quero trabalhar em casa”; “sou mãe, não sou professora” e de novo é colocada a questão, quem cuida destes?

Cada um por si, e o vírus por todos… o mundo, o ambiente, as pessoas, o indivíduo tinham de parar, era iminente esta paragem, mas quando o tapete é tirado sem pré-aviso, os medos, receios, ansiedades são levados para níveis para os quais não se está preparado. Parece que os jovens, encontraram nas redes sociais, a sua rede, o presente virtual que consideram a sua realidade, as suas amizades, mesmo que estejam cheias de filtros, mas e os adultos? Será que conseguem fazê-lo? E as crianças em que o seu processo de desenvolvimento psicossocial se depara com modelos de relação não testados.

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A COVID está instalada nas nossas vidas, nas nossas mentes

Não previmos cuidar-nos e não pensamos sobre o futuro da saúde mental, o foco está no que se pode fazer para erradicar a COVID, quando o seu fim não está à vista… que tal pensarmos em como viver o melhor possível, de forma ajustada, estruturada e funcional com a COVID?

A COVID está instalada nas nossas vidas, nas nossas mentes, já faz parte dos nossos sonhos e não dos nossos pesadelos, a máscara é o acessório que não pode ser esquecido, permite-nos a entrada, faz-nos ser aceites, protege-nos e defende-nos, a nós e dos outros… mas esta máscara esconde o que tínhamos até à data de mais genuíno, a nossa face, o nosso rosto, como unidade do nosso ser.

A nossa expressão facial que mostra aos outros como nos sentimos, tristes, alegres, neste momento, apenas os olhos são as nossas bussolas que tantas vezes andam perdidas nos medos, duvidas e incertezas do dia a dia. Os olhares de desconfiança que trocamos no metro, não nos infetam, mas afetam-nos, levam-nos à construção de uma sociedade egoísta, individualista em que iremos observar o outro, com um olhar filtrado e sem rosto.

Sairá desta pandemia a nossa saúde mental melhorada? Apostaria fortemente que sim! A partir do momento em que é vivida é sem dúvida mais legítima. A vacina para a saúde mental não existirá, é da nossa responsabilidade o autocuidado, não devemos entregar a nossa saúde mental às políticas que possam ser implementadas.

Daqui a uns anos, olharemos para trás e pensaremos no que a COVID fez por nós, deu-nos tempo, deu-nos a oportunidade de olharmos para NÓS e para o que queremos fazer da nossa vida, enquanto por cá andarmos. Quanto tempo? Ninguém sabe! A COVID apenas nos trouxe o pensamento para o presente! SOMOS FINITOS!

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