Saúde Mental

"Dói-me o corpo, a cabeça, a alma". O testemunho de quem vive com ansiedade

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Aos 19 anos, o autor (a) deste texto aceitou o desafio da SIC Notícias para contar como é viver com a ansiedade. As palavras que se seguem retratam o medo do agora e do amanhã. Uma luta diária, uma luta de quem vive com um nó na garganta constante. Mas também é uma mensagem de força e de superação.

A ansiedade faz-me sentir insuficiente.

Culpada por coisas que nem a mim competem.

Faz-me perder noites em claro a pensar que no dia seguinte algo de errado vai acontecer.

Faz-me esperar o momento do dia em que vou falhar.

Faz-me sentir uma quebra de expetativas.

A ansiedade faz-me sentir um nó na garganta a cada momento em que uma nova fase se inicia na minha vida.

Ela auto sabota-me.

Faz-me querer desistir antes mesmo de ter tentado.

Faz-me sentir como se já tivesse estragado tudo antes mesmo de ter feito algo.

Expor o meu maior inimigo é mais difícil do que eu pensava.

É partilhar sabendo que muitos não entendem.

É ser taxada(o) fraca(o), dramática(o).

lutar todos os dias.

A ansiedade dói-me o corpo, a cabeça, a alma.

Cansa-me de uma forma inimaginável.

É sentir tudo ao mesmo tempo em que não sinto nada.

É adoecer sem saber o motivo.

É ter crises de choros sem conseguir parar.

É querer tentar tudo, e desistir logo a seguir.

É estar rodeado de pessoas e sentir-se sozinho no meio do nada.

É colocar um sorriso no rosto para esconder a dor.

É não conseguir explicar o que não se consegue controlar.

esconder-se do mundo, das pessoas.

É estar a fazer o almoço e pensar que a cozinha poderia explodir comigo lá dentro.

É estar a fazer coisas simples, mas a pensar sempre no pior dos cenários.

sentir-se um peso.

sentir-se um problema.

É sentir que nos vão dececionar sempre, e aceitar.

É sentir que tudo nos é prioridade, mas que não somos de ninguém.

É tentar ajudar o máximo de pessoas possíveis, mas não aceitar ajuda.

É deixar que os nossos maiores talentos, dons, sejam ofuscados pela ansiedade.

É pensar demais, a todo o tempo.

É ter o corpo todo a tremer, não conseguir respirar, sentir o corpo a parar aos poucos, ter a vista a escurecer e pensar: a ansiedade venceu-te, mais uma vez.

É ter ansiedade por cada milésimo de segundo.

É culpar-se constantemente por não conseguir estar bem quando toda a gente te diz para sorrir.

É culpar-se por não conseguir controlar essa maré de sentimentos.

É pedir desculpas por estar a sofrer, é desculpar-se por ter ansiedade.

É ter a vida finalmente sem crises, e pensar que isso não está certo, que o momento desastroso vai acontecer.

sentir o caos todo nas minhas costas.

É desculpar-se a toda a hora

É medir as palavras e ensaiar um pequeno roteiro antes de qualquer coisa.

É sentir que não mereço preocupar o outro com a minha dor.

A quarentena veio para testar ainda mais aqueles que sofrem com ansiedade.

Veio testar a solidão.

O medo do agora, do amanhã.

Veio trazer a incerteza.

Mostrar que não temos garantia de nada.

Veio escancarar a necessidade de se falar sobre saúde mental.

Veio intensificar as crises de ansiedade.

Veio intensificar a angústia.

Veio sufocar-nos no nosso próprio lar.

Veio aprisionar-nos na nossa própria rotina.

Veio expor ainda mais as nossas fragilidades.

O vazio que nem sabíamos que cá estava preencheu-nos.

É mais um turbilhão de sentimentos.

Pensar que a vida se está a desfazer, que a cada dia ela se afasta mais e mais.

É superar crises intensas.

É perder os sentidos, simplesmente deixar de respirar e apagar.

É saber que só eu posso tirar-me dali.

É o desejo de me libertar.

É obrigar-me a ser forte.

É um processo longo, doloroso, de muitas recaídas.

Mas é saber que a cada recaída eu levanto-me mais forte.

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