Saúde Mental

Viver na sombra da Perturbação Obsessiva Compulsiva e da Depressão

Eva Monte descreve o que tem sido viver, desde muito jovem, na sombra da Perturbação Obsessiva Compulsiva e da Depressão, esta última devido à exaustão a que a POC a conduzia. Este é o testemunho da autora do livro "Na Loucura da Dúvida".

Nasci em 1974, cresci, constitui família e vivi sempre no distrito do Porto.

Desde que me lembro de ser, vivo com ansiedade. Só a partir dos meus 13 anos, tenho memórias mais concretas de sintomas relacionados com a Perturbação Obsessiva Compulsiva.

A POC foi crescendo comigo e foi-me roubando a vida que se desenrolava ensombrada pelas Obsessões e as Compulsões. Conduziu-me a vários episódios depressivos, o último há 8 anos, grave e renitente ao tratamento. Nestes últimos anos vivi embrenhada no desespero e na desesperança que a depressão tão bem sabe plantar, com uma ideação suicida marcada contra a qual tive de aprender a lutar.

Por aceitar a ajuda de quem me estendeu a mão encontro-me em processo de cura. E assim, mais capaz de lutar contra a POC.

Durante a doença desabafar com o computador tornou-se numa terapia

Escrever o meu sofrimento, as minhas angústias e as minhas dúvidas e falar com essa companhia tão isenta, paciente e sempre disponível, quebrava a solidão em que eu vivia. Mais tarde, começo a reunir algumas ideias em textos, onde pretendia explicar, e, assim, entender, o que se passava comigo.

Por vezes, sonhava em partilhar com alguém o que escrevia, mas a vergonha do meu desajuste, que emergia através daqueles textos, era tanta que fui guardando tudo para mim.

Em julho de 2018, quebrei o isolamento em que eu vivia, dentro das minhas escritas, e dei um texto a ler ao meu médico que me disse que tinha de dar o meu testemunho a outros doentes. Desafiou-me a escrever um livro e sugeriu, também, que recorresse aos emails que eu lhe tinha enviado. Assim fiz! Ao longo de mais de um ano, empenhei-me na coletânea de textos que tinha escrito.

“Na Loucura da Dúvida. Ver Através da Perturbação Obsessiva Compulsiva”

O livro, “Na Loucura da Dúvida. Ver Através da Perturbação Obsessiva Compulsiva” nasceu da vontade de, através dele, ser capaz de apoiar outros doentes, que se encontram igualmente perdidos nessas terríveis doenças, a compreender os seus processos, as suas rasteiras e formas de luta e a não se sentirem tão sós a percorrer um caminho tão doloroso.

O sonho de através das minhas palavras ser um testemunho e uma afirmação de esperança. Recuperar, e voltar a viver, é possível!!

Neste livro, tento descrever o que tem sido viver na “Loucura da Dúvida”. Descrevo o que foi viver, desde muito jovem, na sombra da Perturbação Obsessiva Compulsiva e da Depressão, esta última devido à exaustão a que a POC me conduzia.

De forma mais pormenorizada descrevo o último episódio depressivo que se começou a manifestar em 2011 e que me conduziu a um estado grave, incapacitante e renitente ao tratamento, em 2012.

No subtítulo a palavra “através” assume, assim, um duplo sentido. Para além, de apelar ao sentido de descrever a perturbação “ao longo” da minha vida, recorre ao facto de ter, a POC, como um vidro “através” do qual fui experienciando a minha vida; um filtro, colocado ao meu olhar, que condicionou toda a minha existência.

Neste livro constam textos da minha autoria (descrições, pensamentos, reflexões, sofrimentos), em que tento transmitir a perceção que tive, como doente, do que foi viver na POC e na Depressão, com uma ideação suicida marcada. Arrisco explicar o sofrimento que ambas as doenças implicaram neste longo percurso, desde os meus tempos de adolescência.

No livro coloquei, também, vários emails que enviei ao meu médico e que são o testemunho vivo do que ia sofrendo e sentindo a cada momento e que o meu médico diz serem uma descrição fiel do que é o pensamento obsessivo e do sofrimento que estas doenças implicam.

Num anexo, acrescentei dois textos em que apresento os critérios de diagnósticos de POC e de Perturbação Depressiva Major, presentes no DSM V (Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais, 5ª Edição, da American Psychiatric Association (APA), 2013).

Sendo assim, mais que uma história, que também o é, neste livro, tento explicar, na perspetiva de quem olha a doença de dentro, o que são a POC e a Depressão, o sofrimento que lhes está inerente, o isolamento, os sintomas, o porquê das compulsões e como é o sentir a doença, como doente.

Tento, também, dar testemunho do tratamento, nomeadamente, a DBS (Deep Brain Stimulation – Estimulação Cerebral Profunda), neurocirurgia a que fui submetida e a caminhada pela terapia cognitiva comportamental, que desempenharam um papel fundamental na minha recuperação.

Em novembro de 2019, arrisquei-me a enviar o rascunho que tinha elaborado à editora Cordel d’ Prata que, prontamente, abraçou o meu projeto e o transformou nesta realidade. À editora Cordel d’Prata agradeço o empenho e o apoio de excelência que sempre me prestou e que veio a permitir a realização deste sonho.

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A POC e a Depressão não são uma mania, uma imaginação ou uma fraqueza

Na verdade, a POC e a Depressão não são uma mania, uma imaginação ou uma fraqueza. Acredito que somos muitos mais do que se estima, vivemos escondidos dentro do nosso mundo de medos, dúvidas, rituais e sofrimento que tentamos ocultar, por vezes, até de nós mesmos! A POC é uma doença que implica um elevado sofrimento.

E foi para alertar para o sofrimento causado pela POC e para a esperança de tratamento, mesmo em casos graves, como ao que eu acabei por chegar, que decidi escrever o livro. Espero que através dele, doentes e seus familiares, possam entender e, assim, expressar um sofrimento que para mim foi, tantas vezes, difícil de expressar e compreender e espero que entendam que a POC e a Depressão podem, verdadeiramente, matar!

A partilha dá-nos ferramentas e alertas. Dar a conhecer e reconhecer a doença em nós, em familiares e amigos é essencial para conseguirmos combater a POC. Pois só a compreensão, o apoio constante e paciente e a luta por um tratamento, que sabido prolongado, pode levar à cura.

É fundamental que, na sociedade, se quebre o estigma da doença mental

Desistir não é opção!!! Apesar de, muitas vezes, este ser um caminho escuro, sem vislumbre de esperança … ela existe! Procurar auxílio médico capacitado é o primeiro passo para o alívio deste “inferno”!

É fundamental que, na sociedade, se quebre o estigma da doença mental e que, quer no outro quer em nós, comecemos a aceitar, sem recriminações ou receios, o sofrimento psicológico… Porque, só assim, poderemos alcançar uma população mais saudável em toda a sua vertente biopsicossocial.

Se pensa padecer de POC, ou conhece alguém que a tenha, não resista em procurar ajuda!! Terá em retorno respostas, tratamento e alívio.

Faça-o por si! Faça-o por quem ama!

Agora melhorada continuo a escrever e, assim, a declarar guerra à doença e à solidão a que me tenta remeter.

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Conhecer, entender, aceitar... o primeiro passo para a cura

"Tenho umas manias... verifico várias vezes, mas a dúvida não me larga!"

"Tenho medos irracionais sobre contaminar-me com germes, sujidade, detergentes! Cada vez tenho mais cuidado... lavo-me e lavo objetos repetida e cuidadosamente. Evito tocar, evito sair, evito cumprimentar, mas, mesmo assim, o medo e a dúvida não me largam. Cada vez evito mais, cada vez lavo mais… isolo-me e desespero."

"Se não estiver tudo numa determinada ordem ou se não cumprir determinado ritual algo de mal vai acontecer, principalmente a pessoas de quem eu gosto. A culpa vai ser minha!"

"Os pensamentos não me largam apesar de me esforçar para os afastar. Parece que a minha vida passa em segundo plano. Vivo encarcerado nos meus pensamentos!"

"Tenho uma vida "normal", mas sempre ensombrado por estas dúvidas. Estou cada vez mais cansado."

Do pensamento obsessivo às compulsões!

Do nascimento de uma Perturbação Obsessiva Compulsiva à exaustão... e à Depressão!

Conhecer, entender, aceitar... o primeiro passo para a cura!!!!

A POC é uma perturbação grave

Le D’ Legrand du Saulle, Psiquiatra francês, em 1875, fez uma descrição pormenorizada da Perturbação Obsessiva Compulsiva (POC) no seu livro intitulado: “La Folie du Doute (avec Délire du Toucher)” - A Loucura da Dúvida (com o delírio do Toque).

Assim, na altura, apelidou, ao que hoje temos como Perturbação Obsessiva Compulsiva, “A Loucura da Dúvida”, apelando à Dúvida Patológica como a base desta doença.

A Perturbação Obsessivo Compulsiva é uma perturbação grave que, como o próprio nome indica, se carateriza por dois fenómenos: obsessões e compulsões.

As obsessões e as compulsões

O medo da contaminação, de prejudicar os outros acidental ou intencionalmente, nomeadamente, através de pensamentos, de cometer um erro grave, como deixar um fogão ligado, uma porta aberta ou atirar algo importante para o lixo, são exemplos de obsessões comuns.

As obsessões são pensamentos intrusivos, que se impõem no pensamento e são percecionados como estranhos ao eu, gerando uma enormíssima ansiedade. Em consequência das obsessões o doente sente-se compelido a fazer algo para reduzir a ansiedade, a compulsão.

As compulsões, ou rituais compulsivos, são comportamentos repetitivos, rígidos, executados em resposta às obsessões. Cumprem a função de controlo da ansiedade embora, de forma inadequada e, ao longo do tempo, perpetuem-na.

As compulsões mais frequentes são: de limpeza (com o intuito de reduzir o medo de contaminação por germes, sujidade, produtos químicos), repetição (de nomes, de frases, de comportamentos), verificação (para reduzir o medo de engano ou de fazer mal a alguém por se ter esquecido, por exemplo, de desligar o gás do fogão), ordem e organização (para reduzir o desconforto algumas pessoas alinham livros por uma determinada ordem com distancias rígidas, por exemplo). A evicção a que muitos doentes se sentem obrigados é, também, uma compulsão. São, também, frequentes as compulsões mentais, como por exemplo verificação mental, rezar silenciosamente ou repetir frases ou fazer contagens mentais, uma vez mais, para reduzir a ansiedade.

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O desgaste emocional e funcional

O desgaste emocional e funcional a que a POC conduz é um fator predisponente para o desenvolvimento de outras comorbidades como Perturbações Depressivas, por exemplo, a Perturbação Depressiva Major e, consequente, aumento do risco de suicídio.

Muitos doentes vivem uma vida inteira encerrados no seu sofrimento, impedidos de procurar ajuda pela vergonha, pensando serem os únicos a terem o que sentem ser uma “fraqueza sua”.

Na verdade, todas as pessoas, em algum momento, sentem necessidade de, por exemplo, verificar se as portas ficaram bem fechadas ou são assaltadas por pensamentos fora do seu controlo. Traços obsessivos são muito comuns na sociedade sem que isso signifique que padecem de doença.

“É o facto de existir uma linha tão ténue a separar a sanidade da doença que conduz à incompreensão”.

Na POC o doente vê-se impossibilitado de rebater a dúvida o que o leva a repetir atos compulsivos como resposta a pensamentos obsessivos que não consegue dissipar e refutar devidamente, podendo estes últimos existir isolados.

A dúvida patológica é a base desta doença. A cada nova resposta, a cada nova certeza surge sempre um “se”, um “mas”, que prolonga a obsessão. Toda esta dinâmica começa a limitar e a influenciar negativamente a funcionalidade e a serenidade do doente, nascendo uma Perturbação Obsessiva Compulsiva.

A prevalência mundial estimada da POC ronda os 2%. Sim! Uma em cada 50 pessoas tem Perturbação Obsessiva Compulsiva.

A POC é avassaladora e pode ser verdadeiramente incapacitante

Sensibilizar para o conhecimento e aceitação da Doença Mental urge numa sociedade que se quer esclarecida, aberta ao outro e ao tratamento, pois só uma sociedade esclarecida é capaz de rodear o doente com carinho, compreensão e incentivo, conduzindo-o precocemente à intervenção terapêutica e, assim, à cura.

Neste último século, assistimos a uma evolução incrível nas ofertas de tratamento na área da Psiquiatria, e a POC e a Depressão não são uma exceção.

Os médicos têm, atualmente, ao seu dispor uma panóplia considerável de possibilidades terapêuticas farmacológicas e de conjugação de grupos de fármacos com bons resultados e continua inquestionável o papel da Terapia Cognitiva Comportamental como ferramenta essencial no tratamento da POC.

Há poucos anos, foi aprovada para o tratamento da POC, a DBS (Deep Brain Stimulation- Estimulação Cerebral Profunda), um tratamento neurocirúrgico, especialmente direcionada a casos graves e resistentes aos restantes esquemas terapêuticos. Já anteriormente utilizada em doentes com Doença de Parkinson, tem sido promissora no tratamento da POC.

A POC, quanto mais cedo for diagnosticada e tratada, menor é a probabilidade para que evolua para a cronicidade, sendo que, também, maiores são as hipóteses de sucesso terapêutico.

Consequentemente, doentes tratados com menor tempo de evolução da doença são menos propensos a evoluir para estados de POC grave, estados depressivos graves, incapacidade e suicídio e, principalmente, minimiza-se o sofrimento do doente.

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