A vacinação em Portugal e no Mundo

Covid-19. AstraZeneca guardou 29 milhões de doses de vacinas num armazém em Itália

Dado Ruvic

Empresa garante que nenhuma exportação foi planeada para outros países.

A AstraZeneca guardou cerca de 29 milhões de doses de vacinas contra a covid-19 num armazém em Agnani, Itália, que teriam como destino o Reino Unido.

A notícia foi avançada pelo jornal italiano La Stampa. As vacinas foram descobertas no passado sábado, durante uma inspeção às instalações ordenada pela Comissão Europeia.

Segundo o La Stampa, que cita fontes da União Europeia (UE), as doses serão originárias da fábrica Halix da AstraZeneca, na Holanda, que ainda aguarda aprovação da UE para produzir a vacina.

A mesma publicação refere que estas doses eram originalmente destinadas ao Reino Unido, mas terão ficado bloqueadas em Itália quando o bloco europeu introduziu um mecanismo para restringir as exportações de vacinas.

O número de doses guardadas equivale a mais do que a União Europeia (UE) já recebeu, numa altura em que a AstraZeneca continua a encontrar dificuldades para cumprir o acordo estabelecido.

A farmacêutica tinha prometido mais de 90 milhões de doses no primeiro trimestre, um número que já foi revisto duas vezes, sendo agora de 30 milhões de doses até ao final de março. Até ao momento, chegaram apenas 17 milhões de doses à União Europeia.

Dado Ruvic

A AstraZeneca garantiu entretanto que nenhuma exportação foi planeada para outros países além dos que pertencem à lista Covax (países mais desfavorecidos), que tem destinadas 13 milhões de doses. As restantes vão ser exportados para a Europa após os controlos de qualidade.

"É incorreto descrever isto como um stock. O processo de fabricação de vacinas é muito complexo e moroso. Em particular, as doses da vacina devem aguardar a aprovação do controlo de qualidade após a conclusão do enchimento dos frascos", explica a AstraZeneca em comunicado.

Thilo Schmuelgen

Esta terça-feira, o vice-presidente da Comissão Europeia admitiu que não está a ser fácil conversar com a Astrazeneca e reiterou que a UE não aceita as falhas na entregas de doses.

Maros Sefcovic reiterou que não sobra outra alternativa além da via legal e garantiu que vão ser elaboradas novas alterações ao mecanismo de transparência da exportação de vacinas da Europa.

Com efeito, Bruxelas vai aumentar o controlo nas exportações da vacina contra a covid-19, com a introdução de novos critérios, como a proporcionalidade e reciprocidade na hora de autorizar o envio de vacinas para fora do bloco europeu.

Esta manhã, Maros Sefcovic esclareceu que este novo mecanismo não é direcionado para um país específico, mas defendeu que é preciso garantir vacinas para toda a população.

"Não é possível no sistema do medicamento ter vacinas escondidas num local qualquer"

Helder Mota Filipe, perito da Agência Europeia do Medicamento, considera que se deve perceber bem o que está a acontecer, porque "não é possível no sistema do medicamento ter vacinas escondidas num local qualquer".

"Todo o sistema é do conhecimento das autoridades nacionais e de cada um dos Estados-membros (...). Esta história está, não digo mal contada, mas contada com alguns pormenores que não batem certo."

O também professor da Faculdade de Farmácia de Lisboa diz que é "impossível haver vacinas escondidas", porque caso contrário poderia tratar-se de um "circuito paralelo, ilegal".

O perito da Agência Europeia do Medicamento entende que é "preciso aclarar (...) qual é o destino dessas doses que estão em Itália".