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Futuro do trabalho: "Se forçarem os trabalhadores a voltar para o escritório, vão perder os mais talentosos"

Futuro do trabalho: "Se forçarem os trabalhadores a voltar para o escritório, vão perder os mais talentosos"
Filipa Traqueia

A pandemia de covid-19 mudou o panorama do mundo de trabalho, tanto no dia a dia, como na formação académica que é necessária para executar as tarefas. No Coursera - uma plataforma norte-americana de cursos online, sediada na Califórnia - o trabalho remoto tornou-se numa agradável surpresa para o CEO. Jeff Maggioncalda considera que o novo paradigma veio para ficar e que as empresas têm de definir normas sobre a disponibilidade horária dos seus funcionários.

O trabalho remoto chegou para ficar? Porquê?

Eu acredito mesmo que o trabalho remoto chegou para ficar. Não acredito que todos os trabalhos, em todos os países, em todas as empresas vão ser remotos, mas penso que alguns tipos de trabalho vão ser. No geral, serão os empregos mais baseados no conhecimento e nas capacidades digitais. Mas, não só será possível fazer estes trabalhos remotamente e ganhar bem, mas também podem aprender as aptidões online. Pela primeira vez, qualquer pessoa tem a oportunidade de aprender as aptidões para fazer um bom trabalho, um trabalho bem pago. Mesmo que a universidade não seja na sua comunidade, poderá aprender as aptidões e encontrar o trabalho online.

Acredita que este será o novo "normal"?

Acho que depende. Quando pensamos na educação superior tradicional, pensamos em várias coisas: [as universidades] vendem uma experiência de aprendizagem, as coisas que realmente aprendemos; vendem uma experiência residencial, que é ir a festas, beber cerveja e divertir-se; e vendem um diploma universitário, a credencial que se poderá mostrar. Eu penso que haverá pessoas que têm possibilidades para ter a experiência residencial - que é bastante divertida, aprende-se muito e pode-se sair de casa dos pais. Eu não acredito que isso vá desaparecer, mas o que eu vejo as universidades a fazerem é integrar cursos do Coursera na experiência presencial. Mesmo quando [os alunos] estão na faculdade, poderão aprender online. Nós temos 35 cursos que podem fazer online sem sequer ir à faculdade.

A transição para o online não foi progressiva – nem fácil – para muitas empresas. Na sua opinião, a economia teria capacidade de fazer a mudança para o trabalho remoto se não houvesse a imposição da pandemia?

Primeiro, do lado das universidades, a UNESCO estima que 1,6 mil milhões de estudantes viram a sua faculdade fechada e muitas, muitas empresas fecharam. A consultora McKinsey fez um estudo onde perguntou aos CEO em que grau a pandemia mudou o ritmo da transformação para trabalhos automatizados e 67% disse que vai acelerar a transformação por causa da pandemia. As economias estão a mudar, os negócios estão a mudar e a adaptar-se a empregos mais digitais.

Sem a pandemia, poderia acontecer ao fim de um longo período, mas penso que os professores não iriam todos estar a ensinar online se a covid-19 não fechasse as faculdades. Honestamente, mesmo no Coursera, nós não tínhamos uma política para trabalho remoto até à pandemia nos forçar a ter. O que aprendemos é que somos muito produtivos e podemos contratar pessoas talentosas em todo o mundo se trabalharmos à distância. Então, decidimos que vamos continuar a contratar pessoas em regime remoto, mesmo quando o escritório abrir.

A equipa do Coursera estava habituada a trabalhar de forma presencial, mas para alunos à distância. Como é que a pandemia afetou o vosso dia a dia?

Primeiro fechou os nossos escritórios, todos tivemos de trabalhar online. Eu nunca tinha sido CEO de uma empresa que fosse totalmente online. Fiquei surpreendido pelo quão eficientes eramos, eramos muito produtivos. Segundo trouxe muitos negócios para o Coursera: nós tínhamos 47 milhões de utilizadores no início de 2020, durante o ano juntaram-se mais 30 milhões - nós praticamente duplicamos [os utilizadores] num ano. E depois, como todos as universidades fecharam, passaram a usar o Coursera como universidades. Em sete meses, nós passámos de 30 universidades a usar a plataforma para 4.000. O que realmente mudou não foi a forma de trabalhar, mas o ritmo de crescimento do nosso negócio.

Nós começámos a ver que existem muitas pessoas talentosas que nós podemos contratar e que não vivem perto do nosso escritório. Nós queremos ter acesso a esse talento e, se forçarmos as pessoas a virem para o escritório, não vamos poder garanti-lo.

E acredita que essa procura poderá ser estendida por todo o mundo?

Na maioria dos países, sim. Na Índia tínhamos 15 funcionários em três cidades, em 2019. Temos 150 funcionários em 23 cidades, atualmente. Nós estamos a contratar pessoas na América Latina e acredito que o Coursera não será a única empresa a fazê-lo. Eu acredito que o que vai acontecer é que as empresas vão-se aperceber que se forçarem os trabalhadores a voltar para o escritório, vão perder os mais talentosos para outras empresas - como a Coursera - que lhes permite trabalhar remotamente.

SIC Notícias

Disse que ficou surpreendido com a eficiência dos seus funcionários durante a pandemia. Acha que os trabalho remoto continua a ser ligado à ideia de “preguiça” ou falha nos horários de trabalho?

Penso que requer um diferente tipo de liderança e mentalidade de gestão. Nós, no Coursera, usamos os OKR – objetivos e resultados chave [sigla inglesa]. Muitos gestores e muitos negócios focam-se nas atividades e em quantas horas estão a dedicar, enquanto nós nos focamos nos resultados. Quer trabalhem muitas ou poucas horas, quer trabalhem a altas horas da noite ou de manhã… Não queremos saber! Nós queremos saber quão produtivos são os nossos funcionários a atingir resultados e somos muito claros sobre o que as pessoas precisam de produzir.

Existe um outro problema identificado no trabalho remoto que é a dificuldade em desligar. Como é que os funcionários podem encontrar um equilíbrio entre o trabalho e o lazer no mesmo lugar?

Esta é uma das questões mais difíceis. A colaboração é difícil, mas a ideia de ter limites entre o espaço para a vida pessoal e para a vida profissional é complicado. Por um lado, as pessoas gostam de trabalhar a partir de casa porque lhes permite uma maior flexibilidade. Mas parte dessa flexibilidade parece desfocada e assemelha-se a estar sempre a trabalhar e sempre de serviço - 24 horas por dia, sete dias por semana, têm de lá estar. Eu acho que as empresa – e nós ainda estamos a trabalhar nisto no Coursera, por acaso – têm de criar normas sobre o que a disponibilidade esperada, em que se espera que uma determinada pessoa, num determinado fuso horário, num determinado cargo esteja disponível. Isto significa é que não é expectável que esteja disponível noutras horas. Porque as pessoas precisam de ter limites entre o trabalho e as suas famílias

Sobre a sua vinda a Lisboa: é a primeira vez que visita a nossa capital? Tem tempo para fazer uma visita à cidade?

É a minha terceira vez em Lisboa. Eu adoro Lisboa, é linda! Na primeira vez eu estive cá por causa da Web Summit em 2018, na segunda vim com a minha mulher. E joguei no casino, fomos à praia, a um museu, visitámos o castelo… Foi simplesmente lindo. E a comida aqui é incrível. Nesta viagem não tenho muito tempo para apreciar Lisboa, como fiz com a minha mulher, mas vou cá voltar.

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