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O regresso à Lua "vai dar-nos conhecimento para podermos ir até Marte"

O regresso à Lua "vai dar-nos conhecimento para podermos ir até Marte"
Filipa Traqueia

Mais de 50 anos depois de Armstrong ter pisado a Lua, o satélite natural volta a estar nos planos da NASA. Será um ponto intermédio na tão aguardada chegada a Marte. Carlos Garcia-Galan, responsável pelo departamento de integração dos sistemas europeus na NASA, explica que as novas missões têm como objetivo aprender a viver no espaço, para que seja possível chegar cada vez mais longe.

Vivemos, atualmente, uma nova era dos descobrimentos, em que os astronautas são os novos Cristóvão Colombo. Na sua opinião, qual será a próxima grande descoberta espacial?

Eu acho que, nos próximos anos, vamos aprender como viver para além a baixa órbita terrestre, temos vindo a aperfeiçoar isso ao longo das últimas décadas e, agora, vamos aprender a viver na Lua - na superfície e à volta. Acho que isso vai dar-nos conhecimento para, finalmente, podermos dar o próximo passo na exploração do deep space e ir até Marte.

A Lua volta a estar nos planos espaciais, mais de 50 anos depois de Neil Armstrong ter lá caminhado. Desde então, não tem havido interesse em voltar a este satélite natural. Porque demorou tanto tempo para voltarmos à Lua e porquê este novo interesse?

Quando realizamos o programa Apolo tínhamos objetivos muito específicos: colocar um homem na Lua. Nós cumprimos esse objetivo. A capacidade tecnológica que tínhamos na altura e as missões relativamente curtas que fizemos, em zonas muito específicas da Lua, foi para conhecer os básicos do satélite. Estes foram os mais primórdios do programa espacial, nós mal tínhamos capacidade para ir ao espaço neste período - o que também reforça a magnitude do feito de ir à Lua. Mas ainda temos de dominar a capacidade de estar no espaço. Por isso, o foco mudou para que aprendêssemos a ir ao espaço de forma sustentável. Nós fizemos isso com o space shuttle e com Estação Espacial Internacional (EEI), estes foram os dois programas em que a NASA se focou ao longo das últimas décadas. Agora que dominámos a forma de viver lá e temos vindo a ter presença humana constante na EEI desde o início dos anos 2000, temos de avançar e aprender a viver para lá da baixa órbita e no deep space. Este é o nosso interesse. Temos de o fazer para que possamos ir a Marte. A Lua será um terreno teste, iremos testar tecnologia, infraestruturas, logística, conhecimento operacional e vamos perceber o que nos falta, construí-lo. Depois seguimos para o próximo destino.

Qual é a sua visão sobre o futuro da humanidade? Como vamos viver neste sistema solar que vai passar a ter mais planetas onde podemos ir?

Nós ainda estamos a aprender, ainda nem conseguimos chegar a Marte. Acho que temos de dar um passo de cada vez. Eu não vejo como uma obrigação, porque não temos de deixar a Terra - ainda. Faltam milhares de anos, provavelmente, para isso acontecer. Eu acho que temos de desenvolver a capacidade, que vai trazer nova tecnologia e que nos vai ajudar de muitas formas na Terra, nada relacionado com a exploração espacial. O que aprendemos no programa Apolo reflete-se no momento em que estamos agora: a tecnologia por satélite, comunicação, GPS, melhorias na área da saúde, tudo isso aconteceu porque forçámos a tecnologia para chegar a um destino. Nós podemos fazer o mesmo com a ida a Marte e ter todos estes benefícios. Nós temos de ir a Marte porque temos de aprender que conseguimos ir, como ir e, de facto, ir. E depois, quem sabe o que virá a seguir?

Normalmente só conseguimos ver o momento dos lançamentos dos foguetões, mas esse é apenas uma ínfima parte do vosso trabalho. Como é o processo de preparação de uma missão espacial e quantas pessoas trabalham nestes projetos?

Existem milhares de pessoas a trabalhar num projeto, especialmente quando estamos a desenvolver a tecnologia e os sistemas pela primeira vez. Nessa fase, temos de criar nova tecnologia, temos de a testar, temos de a integrar. Isso demora muito tempo, porque o espaço é um lugar imperdoável. Nós não conseguimos usar no espaço os computadores que usamos na Terra, por causa da radiação e dos ambientes vibratórios. Tudo o que fazemos lá é mais difícil, tem de ser testado em vários limites, tem de ter a redundância necessária para não fazer a missão falhar devido à falha de um componente. Por exemplo, na nave espacial Orion - que é o projeto em que eu trabalho - temos parceria com a Agência Espacial Europeia, por isso além das muitas empresas norte-americanas, juntam-se ainda 10 países da União Europeia, cada um com as suas empresas e que produzem diferentes componentes. São milhares de pessoas por todo o mundo, na verdade.

Como é que é ver a missão em que trabalhou durante tanto tempo aterrar num planeta ou num satélite a tantos quilómetros de distância?

Quando estamos a trabalhar nessas missões, estamos tão focados na operação em si que é difícil afastar-nos para refletir sobre as enormes conquistas e o quanto tempo tivemos de trabalhar para as conseguir. Nós acabámos de montar o sistema de lançamento de rockets à nave espacial Orion e está pronta para ser testada. Eu estou tão entusiasmado, porque estamos tão perto de o fazer. Quando, de facto, acontecer, vamos estar tão focados na missão que nem temos tempo para refletir. Mas depois disso, eu prevejo que irá ser um sentimento de conquista.

SIC Notícias

Várias empresas têm vindo a investir fortemente no turismo espacial. O que pensa desta nova possibilidade?

Eu adorava ir ao espaço como turista. Sei que muita gente está focada no evento em si e no facto de alguma celebridade ir ao espaço, que talvez questionam o porquê de colocarem tanto dinheiro para o que será apenas uma viagem agradável de uma celebridade. Mas eu não o vejo assim. Isto é um enorme avanço tecnológico. A razão porque conseguimos fazer turismo espacial é porque eles constroem rockets que são reutilizáveis, o que torna muito mais barata a viagem em órbita. É esse o factor que possibilita uma celebridade ir ao espaço. E tem um enorme benefício para toda a gente na Terra: podemos colocar mais satélites em órbita – porque é mais barato –, levar a internet a países mais pobres, ter mais instrumentos que monitorizam as alterações climáticas. Eu não vejo a viagem da celebridade como o principal evento, eu vejo-a como sendo uma enorme conquista tecnológica que permite levar pessoas que não são astronautas profissionais ao espaço. Sou completamente a favor. Os turistas a irem ao espaço é apenas a ponta do iceberg. Tudo o que permitiu levar turistas ao espaço é, para mim, um enorme benefício para todos nós.

É a primeira vez que vem a Lisboa? Vai ter oportunidade de visitar algum monumento?

Não é a minha primeira vez, mas ainda não estiva tempo suficiente cá. Já cá vim algumas vezes, a diferentes locais e adoro esta cidade. É bastante vibrante, tem muitos pontos de interesse para visitar e a geografia – com as colinas e o rio – é muito bonita. Definitivamente, eu quero passar mais tempo na cidade.

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