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Quatro organizações pedem investigação da ONU à morte de jornalista saudita

Virginia Mayo

Quatro organizações não governamentais pediram esta quinta-feira, em Nova Iorque, uma investigação das Nações Unidas à possível execução extrajudicial do jornalista Jamal Khashoggi, desaparecido depois de ter entrado no consulado saudita em Istambul, Turquia.

As organizações Human Rights Watch, Amnistia Internacional, Repórteres sem Fronteiras e Comité de Proteção de Jornalistas defenderam esta quinta-feira que a Turquia peça "com urgência" ao secretário-geral nas Nações Unidas (ONU), António Guterres, uma investigação ao desaparecimento do jornalista que, segundo fontes turcas, terá sido executado dentro do consulado da Arábia Saudita em Istambul.

A investigação, sustentam as organizações, deverá determinar o papel da Arábia Saudita no "desaparecimento forçado e possível morte" do jornalista saudita, correspondente do jornal Washington Post e crítico do regime de Riade, que estava exilado nos Estados Unidos desde 2017.Deverá ainda procurar identificar qualquer responsável por mandar, planear e executar as operações relacionadas com o caso.

"A Turquia deve pedir à ONU que inicie uma investigação intemporal, credível e transparente", disse Robert Mahoney, vice-diretor do Comité para a Proteção de Jornalistas. O responsável falava em Nova Iorque num evento conjunto com representantes das outras três organizações de direitos humanos.

"O envolvimento das Nações Unidas é a melhor garantia contra a tentativa de branquear o papel da Arábia Saudita ou de varrer o caso para debaixo do tapete por parte de outros governos como forma de preservarem os lucrativos laços económicos com Riade", acrescentou.

Jamal Khashoggi entrou no consulado da Arábia Saudita em Istambul, na Turquia, a 2 de outubro, e não foi visto desde então. Fontes turcas, citadas pela imprensa local, asseguram que o jornalista foi morto dentro do consulado e o seu corpo desmembrado e retirado do local em malas.

A Arábia Saudita nega qualquer envolvimento no desaparecimento do jornalista, adiantando que ele deixou a missão diplomática pelo próprio pé. No entanto, não apresentou qualquer prova que sustente esta teoria.

As autoridades turcas fizeram buscas no consulado e na residência do cônsul."Isto demonstra ainda com mais clareza quão imperativa é uma investigação imparcial e independente para estabelecer a verdade e assegurar justiça para Jamal Khashoggi", disse Christophe Deloire, secretário-geral dos Repórteres Sem Fronteiras.

"Se as Nações Unidas estão verdadeiramente mobilizadas para combater a impunidade nos crimes contra jornalistas, então, pelo menos, têm de se envolver num dos mais chocantes e extremos casos em anos recentes e avançar com a investigação", acrescentou.

As organizações defendem que a equipa de investigação deve ter "total acesso e liberdade" para viajar e entrevistar potenciais testemunhas e suspeitos.

Os responsáveis das organizações apontam que o desaparecimento de Khashoggi aconteceu depois de mais de um ano de prisões de jornalistas que investigavam e noticiaram casos de corrupção, violação dos direitos das mulheres, e outros temas considerados sensíveis.

Para Sherine Tadros, responsável do escritório da Amnistia Internacional em Nova Iorque, se o governo da Arábia Saudita não está envolvido no desaparecimento do jornalista "só tem a ganhar com uma investigação imparcial da ONU, que determine o que aconteceu".

"Sem a investigação, haverá sempre uma nuvem de suspeição sobre a Arábia Saudita, independente do que diga para explicar o desaparecimento de Khashoggi", reforçou.

Lusa