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Nitrato de amónio chegou a Beirute num navio russo abandonado

MV Rhosus

TONY VRAILAS / MARINETRAFFIC.COM

Capitão conta que escreveu várias cartas de alerta a Putin.

O nitrato de amónio na origem das explosões que destruíram Beirute na terça-feira foi levado para a cidade libanesa por um navio russo – o MV Rhosus - que o armador abandonou e que se encontrava no porto desde 2013.

A história foi divulgada esta quinta-feira por um jornal russo, que entrevistou o capitão da embarcação, que passou um ano no navio com outros três tripulantes. Boris Prokoshev diz que escreveu várias cartas a Vladimir Putin, alertando-o para a perigosidade da situação.

Como tudo começou

Em 2013, a embarcação russa partiu da Geórgia com destino a Moçambique, mas a meio da viagem o armador russo informou que tinha ficado sem dinheiro e que era preciso parar no Líbano para receber mais um carregamento.

Depois de receber um milhão de euros pela carga, o armador desapareceu e como não havia verba para pagar as taxas cobradas pelo porto, o MV Rhossus ficou retido em Beirute. A tripulação abandonou o barco, tendo restado apenas o capitão, dois mecânicos e um piloto, que lá permaneceram 11 meses.

Os alertas a Putin

O capitão do navio conta que durante esse período escreveu várias cartas ao Presidente russo e ao cônsul russo em Beirute, a alertar para a perigosidade da situação, mas que nunca obteve respostas.

Os quatro homens que se mantinham na embarcação acabaram por vender o combustível do navio e contrataram um advogado. Por decisão judicial foram autorizados a abandonar o navio, que acabaria por se afundar anos depois, por falta de manutenção, já a carga tinha sido retirada para um armazém.

MV Rhosus

MV Rhosus

TONY VRAILAS / MARINETRAFFIC.COM

O capitão afirma que recorreu aos tribunais para processar o armador, mas o processo nunca avançou porque Igor Gretchouchkine tinha morada desconhecida. Sabe-se agora que vive em Chipre e que já foi interrogado.

Interrogado em Chipre acerca do nitrato de amónio

"As autoridades libanesas pediram-nos para localizar este indivíduo e fazer-lhe perguntas", afirmou um porta-voz da polícia cipriota.

A mesma fonte diz ainda que "as respostas foram enviadas para o Líbano", acrescentando que Igor Gretchouchkine não havia sido preso, mas apenas questionado acerca da carga do navio a pedido do escritório da Interpol no Líbano.

O perigo do nitrato de amónio

A explosão em Beirute, no Líbano, foi provocada por 2.750 toneladas de nitrato de amónio, um produto utilizado na agricultura também em Portugal.

Em Portugal, há limite para o transporte e armazenamento de nitrato de amónio.

Quem lida com ele garante que não é perigoso, desde que sejam cumpridas as normas de segurança.

O Líbano é conhecido como um grande consumidor de fertilizante químico: com 330 quilogramas por hectare, o país utiliza duas vezes mais que a média mundial, assinalava em fevereiro a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

  • O nitrato de amónio também é utilizado no fabrico de explosivos.

"Misturado com TNT (trinitrotolueno) ou com PETN (tetranitrato de pentaeritritol), é usado na construção, nas minas e pedreiras", precisa a Sociedade Química de França.

  • É igualmente usado como propulsor na indústria aeroespacial, nos sacos para conservar congelados e na apicultura o seu fumo pode anestesiar as abelhas para se poder mover uma colmeia.

Os danos que provoca: onda supersónica

Andrea Sella, químico na universidade londrina UCL, citado pelo Science Media Centre, comentou que "as explosões são tipicamente detonações que causam enormes danos devido à onda de choque supersónica, que é claramente visível nos vídeos" de Beirute.

Trata-se de uma "falha de regulamentação catastrófica, porque as regras sobre o armazenamento de nitrato de amónio são muito claras", disse.

Responsáveis pelo porto de Beirute em prisão domiciliária

Os responsáveis pelo porto de Beirute estão em prisão domiciliária, mas a sociedade libanesa acusa a elite política pelo caos e pela corrupção em que o país está mergulhado há décadas.

A enorme explosão de terça-feira, que abalou a capital, fez pelo menos 145 mortos e mais de cinco mil feridos.