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Manifestantes espalham tinta vermelha nas ruas de Myanmar para lembrar sangue de civis

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Cerca de 570 civis foram mortos pela violência da repressão do movimento de desobediência civil.

Os manifestantes birmaneses que contestam o golpe de Estado de 01 de fevereiro deitaram esta terça-feira tinta vermelha nas ruas num ato que visa representar o sangue derramado pela violência das forças leais à junta militar.

Cerca de 570 civis - incluindo 50 crianças e adolescentes - foram mortos em pouco mais de dois meses pela violência da repressão do movimento de desobediência civil, de acordo com a Associação de Assistência a Presos Políticos.

O número de vítimas pode, no entanto, ser muito mais elevado, já que foram detidas mais de 2.700 pessoas, muitas das quais são consideradas desaparecidas.

Apesar disto, a mobilização pró-democracia não está a enfraquecer, continuando a ser organizadas manifestações diárias e estando milhares de trabalhadores em greve e setores inteiros da economia paralisados.

Para escaparem de represálias e continuarem a ser ouvidos, os manifestantes têm encontrado novas soluções todos os dias, tendo sido pedido à população que hoje derramasse tinta vermelha no chão para evocar o sangue dos "mártires que caíram pelas balas" do exército e da polícia.

Em Hpa-An, capital do estado de Karen (sul), os opositores do golpe de Estado espalharam a tinta numa estrada, antes de homenagear as vítimas, mostrando três dedos em sinal de resistência.

"Não matem civis por salários tão miseráveis como o preço da comida para cães", escreveu um manifestante em letras vermelhas numa paragem de autocarro de Rangum.

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Outros molharam pedaços de tecido na tinta e atiraram-nos par as ruas da capital económica do país.

Um cibernauta publicou uma imagem em que se vê uma mesa coberta de vermelho, instando a ONU a "ir em auxílio" ao país.

A repressão das autoridades também se mantém, tendo hoje sido detido o comediante mais conhecido do país.

Conhecido também pelo seu trabalho social, nomeadamente através de ajuda às vítimas do ciclone Nargis em 2008, o comediante Zarganar foi levado de sua casa, em Rangum, por polícias e militares que chegaram em dois veículos do exército, contou o comediante Ngepyawkyaw na sua página de Facebook.

Zarganar, de 60 anos, é um satirista de língua afiada que tem entrado e saído frequentemente da prisão desde que participou num protesto popular em 1988 contra a anterior ditadura militar.

Na semana passada, a junta militar emitiu mandados de prisão para pelo menos 60 pessoas das áreas de literatura, cinema, artes teatrais, música e jornalismo, sob a acusação de divulgarem informações que prejudicam a estabilidade do país e o Estado de Direito. Não ficou claro se Zarganar, cujo nome verdadeiro é Maung Thura, foi acusado.

Muitos manifestantes e ativistas comuns também são presos todos os dias, de acordo com inúmeros relatos nas redes sociais.

Em Mandalay, a segunda maior cidade do país, as forças de segurança usaram granadas de atordoamento e dispararam armas para interromper uma manifestação de profissionais da área médica.

Um participante, que pediu para permanecer anónimo para sua própria segurança, disse à Associated Press que médicos, enfermeiras e estudantes de medicina foram atacados quando se reuniam, cerca das 05:00 locais, tendo as forças de segurança usado carros para atropelar manifestantes em motos.

O site de notícias online The Irrawaddy relatou que quatro médicos foram presos.

Os ativistas começaram a organizar um boicote à celebração oficial do Ano Novo do país (o Thingyan), que se comemora na próxima semana e é habitualmente um momento de reuniões familiares e festejos.

Panfletos espalhados pelas cidades e mensagens divulgadas nas redes sociais pedem às pessoas para não realizarem nenhuma celebração, alegando que isso seria desrespeitoso para com os "mártires caídos".

Entretanto, os líderes do Brunei e da Malásia anunciaram na segunda-feira que os líderes da Associação das Nações do Sudeste Asiático vão reunir-se para discutir a situação em Myanmar, sem, no entanto, avançar uma data.

O Presidente da Indonésia, Joko Widido, já tinha proposto, no mês passado, a realização de uma cimeira sobre a situação no país, mas não avançou com nenhuma confirmação da presença pessoal ou por vídeo de líderes da ASEAN ou mesmo de Myanmar.