Opinião

A desobediência do circo

Rui Santos

Rui Santos

Comentador SIC Notícias

Rui Santos escreve sobre o documento patrocinado pela Liga Portugal sobre ‘Retoma Progressiva à Competição’. O comentador da SIC acha-o ‘ridículo’ e uma peça de ‘ficção científica’, chamando a atenção para o anúncio feito pelo Nacional em regressar aos treinos já na segunda-feira e pede a intervenção do Estado

Estamos em estado de emergência e o circo foi incluído na lista de atividades suspensas.

O circo está parado, mas não várias formas de circo paralelo.

Uma das maiores é aquilo que estamos a ver acontecer no futebol.

Nenhuma dúvida que esta paragem forçada causa danos imensos e nalguns casos irreparáveis.

Nenhuma dúvida que, sem se sair da grande-área do bom senso, todos queremos voltar a apreciar os talentos dos artistas. No futebol e no âmbito de outros espetáculos ou atividades culturais.

Ninguém ganha com a estagnação da(s) economia(s). Todos temos muita vontade de voltar às nossas vidas. Mas…

Acabo de ler um documento patrocinado pela Liga Portugal subordinado ao título RETOMA PROGRESSIVA À COMPETIÇÃO - Plano de Acção, Abril 2020.

Não queria acreditar no que estava a ler.

É um documento (“indicativo e orientador”) com 19 páginas e “foi elaborado pelos médicos das Sociedades Desportivas participantes na Liga NOS e na LigaPro” e, apesar de nele constar a advertência de que “esta retoma progressiva à competição apenas poderá ser iniciada quando for legalmente autorizado pelas entidades oficiais competentes”, não consigo perceber se vivemos todos no mesmo Mundo ou se há, na verdade, um ‘mundo do futebol’ diferente daquele que milhões de terráqueos habitam.

A certa altura senti-me como um telespetador de um filme de ficção científica.

O documento prevê 3 fases de adaptação no quadro da retoma da competição:

FASE 1 - Regresso progressivo aos treinos; treinos individualizados no campo durante duas semanas, com avaliações antes das sessões (com máscaras e salas próprias), na presença de treinador e elemento do departamento médico (com máscaras e respeitando distâncias de 2 metros). Não há cruzamento com outros jogadores ou staff. E é admissível a presença de 2 jogadores, cada qual no seu meio-campo.

FASE 2 - Treinos de grupo com contacto (3.a e 4.ªa semanas), mas respeitando ‘normas básicas’.

FASE 3 - Campeonato inicialmente à porta fechada, na qual os jogos ‘fora’ obedecem a viagens no próprio dia da competição, com autocarros higienizados e os jogadores distribuídos segundo as normas de segurança (1 atleta para cada 2 lugares e com máscara). Nos balneários, 1 jogador

por cada 25m2 e, nos ginásios, já agora, recomendação de distância mínima de 5 metros entre atletas.

Não imaginam ate onde vai o detalhe das recomendações (questões de alimentação, limpeza e higiene, viagens, estágios com a menor duração possível, equipamentos e rouparia, balneários, ginásios, massagens, banhos, reuniões, relva, etc.

Saúdo o esforço da equipa de médicos em não querer deixar nada ao acaso e não estão em causa, obviamente, as questões clínicas que devem ser analisadas especificamente nesse âmbito. Tudo parece previsto; nada é deixado ao acaso.

Este documento mostra-se insensível, contudo, a realidade que estamos a viver e não podemos ignorar que já há presidentes, como Rui Alves, do Nacional (com interesse na subida de divisão), a anunciar o regresso aos treinos já na próxima segunda-feira. Quer dizer: o Presidente da República e o Governo a darem nota de que os portugueses devem continuar confinados e o Nacional a anunciar que vai voltar aos treinos?!…

O presidente do Governo Regional e o Governo da República não dizem nada? Estaremos perante um crime de desobediência ou, como defende Rui Alves, o decreto-lei 2-B/2020 permite este contrassenso e todas as recomendações avançadas, diariamente, pela DGS e pela ministra da Saúde?

A menos que se chegue à conclusão de que não nos vamos livrar desta pandemia e que estaremos condenados a viver neste regime para todo o sempre, isto é, a contabilizar mortes todos os dias, a desinfetar as mãos todos os dias, a manter a distância de 2 metros todos os dias, a não trocar beijos e abraços e a adaptar as economias a esta espécie de ‘holocausto sensorial’;

a menos que nos obriguem a sair de casa de máscara (tipo antigás), a ir aos estádios e olhar com desdém para o desfalecimento do parceiro do lado (a tombar a 2 metros de distância, no mínimo) e proclamem a morte como um facto que não se deve retardar e, ao invés, acelerar, então tudo isto é ridículo, tudo isto é um circo (paralelo), tudo isto é uma palhaçada, com todo o respeito pelos palhaços, agora confinados e sem vontade de nos fazer rir, aprisionados nas suas (e nas nossas) angústias.

Uns a fazer sacrifícios e… outros na palhaçada?! Alguém põe ordem nisto?

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  • 1:31
  • Não estou de acordo

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    Não estou de acordo com métodos medievais para enfrentar uma pandemia. Se os vírus evoluíram, a organização da sociedade também deveria ter evoluído o suficiente para os combater de outra forma. O recolher obrigatório é próprio dos tempos obscuros e das sociedades não democráticas. Proibir as pessoas de circular na rua asfixia a economia e não elimina a pandemia.

    José Gomes Ferreira