Opinião

A guerra de Trump que Biden tem que comprar

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Joe Biden terá que assumir uma guerra que não é apenas comercial, é cultural, é política e é também pela hegemonia americana, mesmo que suavize os termos e não use linguagem racista, dificilmente poderá baixar as armas.

Agora foi a Suécia, país a país, ou operador a operador, como acontece no caso português, vamos cedendo à chantagem da administração Trump.

Não pode haver 5G com a Huawei. Uns países vão limitando mais cedo, outros mais tarde, mas a Huawei está claramente a ter que recuar o seu território de vendas num campo em que lidera em termos de tecnologia.

Outras restrições impedem o uso de tecnologias americanas nos últimos modelos de telefone da marca. Prejudicam obviamente a Huawei, mas de certa forma todos nós, porque são alguns dos melhores smartphones do mercado, ainda por cima a preços muito concorrenciais.

Só que a pressão do governo dos Estados Unidos da América passa por proibir o uso nesses telefones de muitos serviços que damos por adquiridos, como as principais redes sociais e tudo o que sejam serviços da Google, o Maps, Waze, coisas do dia a dia.

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Muitas dessas redes já são proibidas na China a qualquer um que aceda à Internet, digamos que a proibição só é nova para quem usa estes telefones fora do país de origem.

O argumento americano para uma verdadeira guerra comercial

O argumento americano para toda esta guerra passa pela forçosa submissão das grandes empresas chinesas aos ditames governamentais, seja qual for a participação estatal na companhia.

Real ou potencial, existe assim o fantasma da espionagem, há também acusações de fraude e violação de embargos. Argumentos para justificar legalmente uma verdadeira guerra comercial, em que China e Estados Unidos pretendem a hegemonia, mas não querem ferir demasiado o adversário porque precisam dele. Daí muitos dos avanços e recuos que temos visto.

O último episódio desta guerra passa pela tentativa de proibir, contra a opinião dos tribunais americanos, a TiK Tok e a WeChat, redes sociais com origem na China.

A Tik Tok é um sucesso entre os adolescentes americanos, a WeChat é importante para todos os que por razões familiares ou de negócios, mantêm relações estreitas com chineses.

Uma ameaça económica é equivalente a uma ameaça militar

Longe de mim defender a administração Trump, mas tenho que deixar esta nota, duvido muito de que as coisas mudem se Joe Biden ganhar as eleições .

Esta guerra passa pelo conceito americano de que uma ameaça económica é equivalente a uma ameaça militar e todos os meios devem ser empregues para a eliminar.

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A ameaça económica existe, sem dúvida, e veio pôr a nu a extrema dependência que os Estados Unidos, a Europa e o resto do mundo têm em relação à China. Não fosse esta travagem e em breve teríamos tecnologia chinesa a controlar todas as nossas redes de comunicações. Já temos em Portugal controlo chinês até em áreas estratégicas, normalmente reservadas aos Estados, como o fornecimento de energia.

Muitas das empresas que estão na linha da frente desta expansão pertencem de facto ao Estado chinês. E alguém acredita que os outros gigantes, ao ritmo que tomam o mercado, o estão a fazer sem apoios que por cá são proibidos em nome da concorrência?

E se a China decidisse bloquear a exportação de telemóveis?

Sabemos bem que as empresas europeias ou americanas não têm a mesma facilidade em entrar no gigantesco e apetecível mercado chinês. Não fosse esta guerra, e empresas americanas e sul coreanas não teriam começado a diversificar a produção eliminando, a pouco e pouco, a total dependência da China.

Se a China neste momento decidisse bloquear a exportação de telemóveis, quanto tempo e dinheiro precisaríamos para voltar a ter os nossos indispensáveis aparelhos? Esta guerra arrisca, no limite, a que estejamos a criar duas grandes zonas de influência, à semelhança da guerra fria, mas em versão EUA/China.

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Dir-me-ão que os Estados Unidos sempre espiaram países, empresas, e pessoas e que agora até dominam as redes com grande capacidade de manipulação.

É verdade, e eu não confiaria no governo americano nesta questão, o assunto já deu muitos livros, não cabe todo aqui. Mas também é verdade que nos EUA existe algum escrutínio democrático, grande parte dos americanos que conheço têm vergonha de que os seus concidadãos tenham colocado Trump onde está, mas podem ter essa vergonha, expressá-la e fazer algo de efetivo contra.

As regras da rede TiK Tok na China

O mesmo não acontece na China. Para evitar polémicas acesas a rede TiK Tok tinha uma lista de orientações, revelada pelo The Guardian, que refere que são proibidas menções a mais de 20 personalidades, entre elas os falecidos líderes norte coreanos Kim Jong-il, Kim Il-sung, e o atual Kim Jong-un, Mahatma Gandhi e quase o seu oposto Vladimir Putin, o próprio Donald Trump, o seu antecessor Barack Obama, o pouco recomendável Presidente indonésio Joko Widodo, e o primeiro ministro indiano, Narendra Modi.

Imagine-se se o Facebook ou Twitter fizessem uma tal lista de proibições...

O próprio jornal refere que a empresa que controla a TikTok, a Bytedance, já retirou estas orientações, mas serve para dar uma ideia do que pode ser feito.

Não tenho que explicar aqui que se trata efetivamente de uma ditadura quando vista pelos olhos da cultura europeia.

As redes sociais a que estamos habituados, grande parte dos meios de comunicação que usamos, são bloqueados com ferramentas informáticas a todos os que vivem na China. Os americanos podem pressionar a Apple se há rumores de trabalho menos digno na fabricação dos seus telefones e conseguem ações concretas.

O simples protesto na China, contra as empresas, provavelmente nunca existiria. Acresce que a WeChat tem sido efetivamente usada para controlar minorias uigures, com detenções para reeducação de pessoas que se tornaram suspeitas pelas suas opiniões na rede.

A guerra que Joe Biden terá que assumir

Tudo isto para dizer que a Huawei, segundo maior fabricante de telemóveis do planeta, é no fundo um símbolo. Pode ser contra os nossos princípios travar uma empresa sem fundamentar muito bem, ou proibir o uso de certas redes sociais, mas Joe Biden terá que assumir uma guerra que não é apenas comercial, é cultural, é política e é também pela hegemonia americana, mesmo que suavize os termos e não use linguagem racista, dificilmente poderá baixar as armas, mas continuando ao mesmo tempo, como Trump, a fechar os olhos às violações de direitos humanos.

Acompanhe o especial Eleições nos EUA para mais informações.

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