Opinião

O País tem medo que Pinto da Costa lhe mande bater?

O que se passou em Braga espelha os dois maiores problemas do futebol português.

O que se passou em Braga, no jogo com o FC Porto para a Taça de Portugal, espelha os dois maiores problemas do futebol português: a cama de pregos onde se deita o sector da arbitragem e a cultura de medo que tomou conta não apenas das instituições que deviam regular o normal funcionamento da bola indígena mas também do país.

Em relação a tudo o que se está a passar no futebol em Portugal, que não é novo, diga-se de passagem, porque a discussão em torno das arbitragens e o ruído provocado por elas duram há décadas, é preciso introduzir o novo contexto da pandemia, a partir da qual as receitas decresceram e as sociedades anónimas ficaram mais dependentes do dinheiro que resulta da entrada e desempenho na Champions e também dos direitos televisivos.

É fácil de compreender que, fechada a torneira da Champions, a água dos depósitos escasseia e pode ser insuficiente para dar de beber e regar tantos jardins.

Acresce que, esta época, apareceu o Sporting a reivindicar e a querer beber da mesma água e, portanto, num contexto de maior competitividade (quatro equipas para dois lugares) e de maior aperto financeiro, no caso do FC Porto com o reembolso do empréstimo obrigacionista a ter de se cumprir no próximo mês de Junho, depois do adiamento de um ano.

Há todo um ambiente de pressão em redor dos protagonistas do futebol e, como sempre acontece nestas alturas, é preciso desviar atenções e arranjar (novos e velhos) bodes expiatórios. É um clássico, para o qual só existe uma vítima: todo o edifício do Futebol.

Sem invalidar o aparecimento de alguns erros que podem ter penalizado o campeão nacional, sempre em número menor do que aquele que é proclamado e disseminado por tudo o que é rede social, é preciso dizer que NADA justifica o que aconteceu em Braga, em termos do comportamento dos agentes desportivos.

O FC Porto, no Jamor, viu a arbitragem não agir disciplinarmente contra Calila (e até contra Sithole, por reincidência em jogo faltoso) e, em Braga, no jogo para o campeonato, Corona terá sido vítima de um erro na amostragem do primeiro ‘amarelo’ e, na partida para a Taça, Luis Diaz foi injustamente tirado do jogo na sequência da infelicidade que se abateu sobre David Carmo, mas perante quatro situações do foro disciplinar, não unânimes, a resultar em apreciações de natureza subjectiva, parece que se instalou a ‘terceira guerra mundial’, com árbitros a serem ameaçados e os seus números de contacto a serem expostos na praça pública e diversas comunicações oficiais a serem reproduzidas em todo o lado, nomeadamente a intervenção de Pinto da Costa, que constitui um momento que merece a reflexão profunda de todo o país, mesmo entre aqueles que reconhecem o trabalho realizado pelo líder portista no engrandecimento do emblema do Dragão.

Não há nenhuma decisão menos boa de arbitragem que justifique avisos, ameaças e, no fundo, a disseminação do ódio e da intolerância.

A arbitragem é muitas vezes incompetente e precisa de melhorar a sua capacidade de resposta? Sim. Mas isso não legitima que os protagonistas, sejam eles treinadores ou directores, saiam das suas áreas técnicas e invadam o relvado, que os jogadores não se saibam comportar e dêem cabeçadas em colegas de profissão e que se use todo o tipo de linguagem para ofender os adversários.

Estão a ultrapassar todas as marcas.

E o País não pode continuar a assistir a isto, como se fosse apenas uma decorrência da paixão clubística ou do interesse cego na defesa de um emblema, que ainda por cima paga e financia todas as mordomias.

Este clima de ameaça e de ódio tem a ver com a sociedade. Tem a ver com todos nós, com os nossos direitos e deveres, com a nossa saúde e segurança, para além daquilo que a maldita pandemia já nos impõe. Tem a ver ainda com o normal funcionamento das instituições, das polícias e da justiça; do parlamento e da comunicação social.

Não podemos estar debaixo da ameaça de que, se não vai a bem, vai a mal.

As instituições de utilidade pública, por maioria de razão, sejam elas do Norte ou do Sul, têm responsabilidades acrescidas. É neste particular que o Estado tem de agir e não para rectificar a contabilidade dos penáltis!…

… Ou o País cala-se porque tem medo que Pinto da Costa lhe mande bater?!…