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Onde se escondeu o tempo de brincar?

Tem crianças ao seu redor? Já parou para pensar quanto tempo por dia brinca com elas? O brincar é muito mais importante do que se possa pensar. Além de proporcionar felicidade às crianças, tem um impacto muito positivo no seu desenvolvimento a todos os níveis.

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Brincar estimula todas as áreas do desenvolvimento das crianças, proporciona momentos de felicidade e tem uma repercussão no bem-estar físico e social. Com tantos benefícios, seria de esperar que o verbo "brincar" estivesse presente em grande parte do dia das crianças, mas isso (ainda) não acontece em Portugal.

O último estudo feito sobre esta matéria mostra que mais de metade das crianças em Portugal - 52% - brinca menos de uma hora por dia com a família e apenas 9% das crianças têm entre duas e três horas de brincadeira diária em contexto familiar. Para os especialistas, é pouco.

O tema esteve em debate na conferência "Como Brincam as Crianças em Portugal", que teve lugar no Edifício Impresa.

Brincar é importante porque...

Para Fernanda Salvaterra, membro da direção do Instituto de Apoio à Criança (IAC), brincar não é uma opção, "é um imperativo legal e é uma necessidade de desenvolvimento para a criança".

Durante a intervenção na conferência, Fernanda Salvaterra sublinhou a importância que a brincadeira tem no processo de desenvolvimento "a todos os níveis, cognitivo, emocional, físico e social".

"Daí a necessidade de sensibilizar quer os pais, quer os técnicos, educadores, professores, para valorizarem e facilitarem o brincar. No fundo, sensibilizar a sociedade em geral no sentido de criar cidades e espaços que sejam mais amigos das crianças."

Inês Morais de Alarcão, uma das convidadas da conferência, é influencer e mãe de três crianças. Vê no brincar uma peça chave para o desenvolvimento de capacidades motoras e psicológicas que são "fundamentais para o futuro".

Enquanto mãe, revela que o truque está em "passar a brincadeira para a rotina".

"Podemos tornar uma viagem de carro num momento de cantoria e de karaoke ou numa aprendizagem de inglês com palavras que estamos a ver durante a viagem", exemplifica.

Outro dos convidados que falou na conferência foi Hugo Rodrigues. O pediatra considera que o ato de brincar, além de ser a atividade mais importante da infância, "é a única que conseguimos proporcionar às crianças e que vai estimular todas as áreas do desenvolvimento", sem exceção.

Em declarações à SIC, diz que o brincar tem de ser encarado como uma prioridade na gestão do dia a dia e o "tempo de brincar tem de fazer parte da rotina da família".

"Nós percebemos que é uma necessidade das crianças e temos de fazer com que os pais percebam que também tem de ser uma necessidade deles. Quando conseguimos que todos percebam e sintam isso genuinamente, acho que o tempo de brincar vai entrar naturalmente na rotina das famílias e é, sem dúvida, imprescindível para o seu desenvolvimento"

Que obstáculos existem?

O pediatra conta que, durante as consultas, um dos motivos apontados pelos pais para não conseguirem brincar com os filhos é a falta de tempo. Para o especialista, este é um problema que se resolve a partir do momento em que se começa a fazer uma gestão das prioridades.

"Um obstáculo evidente tem a ver com os ecrãs dos pais. Em Portugal, dos 16 aos 64 anos nós gastamos mais ou menos 7h30 horas por dia em frente a ecrãs, 2h30 por dia nas redes sociais e, portanto, 2h30 por dia nas redes sociais é um desperdício de tempo brutal."

Com este exemplo, Hugo Rodrigues quis mostrar que, se passarmos menos tempo nas redes sociais, conseguimos ter mais tempo para brincar com as nossas crianças.

"Se nós adultos nos disciplinarmos na utilização dos ecrãs e pensarmos na organização do nosso dia a dia com três prioridades que são dormir, refeições em família com tempo e brincar, vamos ter famílias em que estão todos predispostos a usufruir uns dos outros", conclui.

Para Inês Morais de Alarcão, além da falta de tempo, outro obstáculo que encontra está relacionado com a falta de preparação dos espaços para receberem crianças. Por exemplo, se uma família quiser ir almoçar fora, tem de pensar se o restaurante tem cadeiras adequadas para bebés e crianças e se "não se importa de ter lixo no chão durante a refeição".

"Acho que o brincar está condicionado pela própria sociedade e cabe-nos a nós pais contornar esses obstáculos que são impostos", afirmou.

A 6.ª conferência "Como Brincam as Crianças em Portugal", que decorreu no Edifício Impresa, pode ser vista ou revista abaixo.

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