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Crianças muito protegidas no mundo real e expostas no virtual: especialistas alertam para riscos

O primeiro contacto que as crianças têm com a tecnologia acontece cada vez mais cedo. É por isso importante que os pais implementem regras desde o início e que estejam cientes dos riscos da exposição online quando decidem colocar um smartphone nas mãos dos filhos, alertam os especialistas.

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A tecnologia faz parte das nossas vidas e, hoje em dia, já são poucas as pessoas que não têm um smartphone. Por ser uma ferramenta com uma presença tão vincada, é presumível que a relação com as crianças surja cada vez mais cedo, por muito que os pais e educadores tentem evitar.

Há até quem diga que as crianças de agora já nascem digitais e a saber fazer scroll.

'Bicho papão' para uns e boia de salvamento para outros, a verdade é que o uso da tecnologia por crianças, principalmente dispositivos com ecrãs, não é consensual na comunidade de pais e encarregados de educação.

Especialistas defendem que a tecnologia pode, sim, fazer parte das brincadeiras, mas não deve ser a única atividade lúdica ao longo do dia.

"Sou completamente a favor de a tecnologia ser um extra na interação lúdica, mas não como exclusividade. E o que nós estamos a ver hoje em dia é que temos muitas crianças e muitos jovens em que a expressão lúdica que têm é a tecnologia. E isso é que pode ser problemático porque há um mundo enorme de outras possibilidades", afirmou Ana Lourenço, coordenadora do Setor HuB – Humanização e Direito a Brincar do IAC, em declarações à SIC.

Durante a conferência "Como Brincam as Crianças em Portugal", que teve lugar no Edifício Impresa, Cristina Ponte, coordenadora da Plataforma CriA.On alertou para o facto de as crianças, apesar de "nascerem num ambiente digital", não terem competências críticas para usar este tipo de aparelhos.

TOMAS ALMEIDA

A mesma preocupação é partilhada por Carla Costa, inspetora-chefe da Unidade Nacional de Combate ao Cibercrime e Criminalidade Tecnológica da Polícia Judiciária, que revela que, de acordo com o que tem assistido ao longo dos anos, os pais "não têm a preocupação de instalar controlos parentais nem de lhes dizer como é que o devem utilizar" quando põem um smartphone nas mãos dos filhos.

Carla Costa acredita que a tecnologia não é boa, nem má. Depende sim da forma como é utilizada.

Explica ainda que o problema começa "quando damos um equipamento destes sem qualquer explicação, sem percebermos muitas vezes, como pais, que aquele mero instrumento a expõe a perigos online".

A inspetora-chefe da Unidade Nacional de Combate ao Cibercrime e Criminalidade Tecnológica da PJ diz que devem ser estabelecidas regras como:

  • não levar o smartphone para o quarto à noite;
  • definir tempos para a utilização do smartphone;
  • promover momentos em família de modo a que as crianças se sintam confortáveis em falar com os pais em qualquer situação.

"Hiperprotegemos as crianças no mundo real e deixamos as portas completamente escancaradas no mundo virtual"

Um dos temas abordados na conferência diz respeito a um hábito que tem vindo a ser perdido ao longo dos anos: as crianças irem a pé para a escola. Os pais, por preocupação e por considerarem que os filhos ainda não têm maturidade suficiente, não deixam que percorram duas ou três ruas sozinhos até à escola. Por outro lado, deixam que os filhos sejam proprietários de um smartphone para poderem estar sempre em contacto.

No entanto, esse dispositivo eletrónico pode levar as crianças a qualquer parte do mundo, onde existem perigos.

TOMAS ALMEIDA
"Se querem realmente ter essa possibilidade de contactar a criança, há telemóveis com teclas que permitem fazer chamadas e enviar mensagens. O smartphone é diferente. Nós hiperprotegemos as crianças no mundo real e deixamos as portas completamente escancaradas no mundo virtual e muitas vezes não temos essa noção. Pensamos: 'ele está no quarto, está fechado, está sossegado. Mas não, está exposto a muitos perigos'."

Carla Costa revela que as crianças ficam expostas a conteúdos inapropriados, como é o caso da pornografia.

"Está provado que em média eles têm acesso a conteúdos de pornografia por volta dos 11, 12 anos na própria escola, conteúdos que levam à radicalização das crianças e dos jovens e aliciamento online."
Nazar Abbas Photography

Muitas destas situações acontecem dentro de casa. Para a inspetora-chefe da Unidade Nacional de Combate ao Cibercrime e Criminalidade Tecnológica da PJ, a casa não pode ser só paredes, "tem de ser um abrigo" e "têm de ser estimuladas as relações familiares".

"Temos de os dotar desta capacidade de perceber que existem alguns riscos e capacitá-los para se defenderem", aponta.

A tecnologia integrada nos métodos de ensino

A tecnologia não é só usada para momentos de lazer. Numa altura em que há escolas a proibir os smartphones, há outras que integram a tecnologia nos métodos de ensino. O Colégio Monte Flor (ensino básico) é um desses casos.

Rui Lima, professor e diretor pedagógico, explica que, quando apareceu o portátil Magalhães, no âmbito do programa "e.escolinha" do Governo, foi quando o colégio começou a "utilizar o computador de forma mais intensa".

TOMAS ALMEIDA
"Estes 15 anos de utilização das tecnologias fez com que nós conseguíssemos ter um modelo que permita que os alunos vejam a tecnologia como um lápis, ou seja, o computador é uma ferramenta de trabalho."

O professor explica que, em algumas áreas, como a matemática, por exemplo, é mais fácil explicar a matéria e torná-la divertida com a ajuda de um tablet.

"Quando eu tenho um tablet ou um computador eu posso colocar os alunos a explorarem em 3D os sólidos geométricos e até os desdobrar e eles verem como é que se compõe um sólido geométrico."