Os reféns vivos já foram entregues à Cruz Vermelha, os bombardeamentos que vimos durante dois anos já são a realidade das pessoas em Gaza e há mais ajuda a entrar. E aqui terminam as boas notícias porque tudo o resto sobre o acordo de paz assinado por Israel e plo Hamas com mediação dos Estados Unidos e de vários países árabes é ainda uma incógnita. E é nessas sombras que se esconde o perigo de uma nova guerra.
Para já, ninguém quer pensar nisso. O horror vivido pelos palestinianos ao longo de dois anos, tanto em Gaza como na Cisjordânia, e pelas famílias israelitas que viram os seus parentes raptados e levados para Gaza por terroristas é um trauma coletivo que vai demorar muitas décadas a ser sanado - se algum dia for. Mas não é desses objetivos que se fala agora. É preciso começar por garantir o básico: que a guerra não volta. E nem esse ponto está assim tão sólido, na opinião de Daniel Pinéu, que neste episódio de o Mundo a Seus Pés explora mais a fundo os 20 pontos do acordo de paz, e aqueles que, entre esses 20, podem vir a revelar-se mais difíceis de implantar.
Como primeiro entrave à paz, o professor, investigador na área das Relações Internacionais nota que as tropas israelitas ainda estão presentes em 55 % da faixa de Gaza e vão permanecer, por tempo indefinido, em cerca de 40% do território. “A linguagem vaga do acordo significa que Israel retém a capacidade de veto em relação a todo o processo”, explica Pinéu. “Tal como o cessar-fogo no sul do Líbano, com monitorização da comunidade internacional da Nações Unidas desenvolvidas, já foi quebrado 1500 vezes”, acrescenta. Com as tropas no terreno, “sempre que houver algo que Israel determina unilateralmente que pode ser uma ameaça a essas tropas ou à segurança de Israel, entendida de forma lata, Israel pode atacar alegando ter essas preocupações de segurança”.
Um outro problema que está a começar a tomar conta da Faixa de Gaza é a violência interpalestiniana, porque, como explica Daniel Pinéu e tem sido documentado em vários meios de comunicação, Israel financia uma milícia com ligações jihadistas que opera dentro de Gaza, alegadamente para proteção dos seus soldados, mas que tem sido considerada culpada pela depredação de ajuda humanitária e até suspeita de assassínio de jornalistas.
Exploramos ainda neste episódio a influência dos políticos de extrema-direita no Governo de Netanyahu, que continuam a defender a ocupação permanente de Gaza e a continuação da guerra, o modelo de desenvolvimento idealizado para Gaza e o putativo governo tecnocrata que pode vir a ser renegado pela população por falta de legitimidade. Há ainda o estado “catastrófico”, do ponto de vista humanitário, dos serviços e das infraestruturas civis, em que está Gaza, o que torna qualquer plano para uma governação estável “quase inviável”. Daí que Daniel Pinéu não tema assumir-se como “bastante pessimista em relação às fases seguintes do plano”. Não porque elas não sejam possíveis, mas pelos “vários fatores desestabilizantes” que podem dificultar o caminho dessas fases futuras.
