Para descrever a tomada do poder na Guiné-Bissau por militares na quarta-feira, há quem fale em golpe de Estado, há quem fale em golpe de teatro. Certo é que o regime de exceção em que os guineenses vivem há três dias se iniciou na véspera da prometida divulgação dos resultados das eleições gerais do último domingo.
Essa divulgação não chegou a acontecer. Aliás, os militares anunciaram, logo na quarta-feira, a imediata suspensão do processo eleitoral em curso, bem como a destituição do Presidente Umaro Sissoco Embaló, o encerramento de todas as instituições da República, a suspensão da atividade de todos os meios de comunicação social, um recolher obrigatório noturno, o encerramento do espaço aéreo e a detenção de opositores.
Nas últimas horas, soube-se que Embaló se encontra “são e salvo” no Senegal, onde chegou a bordo de um avião fretado por este vizinho do norte da Guiné-Bissau.
Em contraste, Domingos Simões Pereira, líder do PAIGC, e outros opositores de Embaló continuarão detidos na sequência de uma ação musculada de saque e rapto protagonizada por membros de forças paramilitares na sede de campanha de Fernando Dias da Costa. Este que é o principal candidato presidencial da oposição reclama vitória nas eleições de domingo e diz ter escapado às detenções.
Fernando Jorge Pereira, correspondente do Expresso na Guiné-Bissau, não hesita em classificar o que se passou como “uma mascarada de golpe de Estado, um autogolpe, sem dúvida”. Isto porque os homens que tomaram o poder pertencem ao “grupo de Embaló”, são militares que o Presidente “nomeou, promoveu, pôs em primeiro plano”. O objetivo é “manter o poder por outras vias, através dos seus homens”, acrescenta o jornalista. “Esse é o tal plano B: foi a estes homens que o Umaro decidiu entregar o poder para se afastar provisoriamente e preservar o seu poder.”
Teresa Almeida Cravo, professora de Relações Internacionais na Universidade de Coimbra e investigadora do Centro de Estudos Sociais, lembra que “esta instabilidade não é um fenómeno episódico isolado, é efetivamente estrutural” na Guiné-Bissau. E refere “um padrão de atuação da diplomacia portuguesa que é de não interferir de todo”. Ora, defende a académica, esta não interferência tem “um custo”.
“Podemos dizer que há uma necessidade de cautela do ponto de vista diplomático e de sensibilidade política em relação a Portugal face a situações que ocorrem nas ex-colónias”, concede. Mas, sublinha, “o que parece evidente é que Portugal não atua aqui do ponto de vista de mediação a favor dos guineenses, atua em função de uma relação política com a elite que está no poder em determinada altura no sentido de não criar demasiadas ondas. Isto não é só uma posição de passividade porque esta cumplicidade acaba por ser muito ativa”.
A conversa é conduzida pelo jornalista Hélder Gomes, cabendo a edição técnica a João Luís Amorim.
O Mundo a Seus Pés é o podcast semanal da secção internacional do Expresso. A condução do debate é rotativa entre os jornalistas Ana França, Catarina Maldonado Vasconcelos, Hélder Gomes, Mara Tribuna e Pedro Cordeiro.
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