Esta conversa começa por refletir sobre um certo escrito de Oscar Wilde:
“No momento em que um artista descobre o que as pessoas querem/ e procura atender à demanda/, ele deixa de ser um artista/ e torna-se um artesão maçante ou divertido/, um negociante honesto ou desonesto./ Perde o direito de ser considerado… artista.”
Gisela João tem feito escolhas na sua vida que a têm levado a fugir dos números e das fórmulas. E também por isso se tornou numa artista independente. E lá dentro “são flores aos milhões entre ruínas” e é só… inquietação, inquietação, inquietação, como cunhou José Mário Branco.
No seu mais recente disco “Inquieta", Gisela João dá voz aos desassossegos e angústias de uma geração que tanto lutou para vivermos num país livre. Com temas de José Afonso, de Sérgio Godinho - na versão de Capicua - assim como de José Mário Branco e Lopes Graça.
Gisela recorda-nos o valor das palavras que moram nestas canções, por vezes de forma quase sussurrada, quase aos nossos ouvidos, ou a plenos pulmões com o seu belo vozeirão que atravessa continentes e corações.
Em 2013, veio para Lisboa atrás do seu sonho, começou nas casas de fados, mas o seu público e o seu talento levou-a para palcos maiores e a afirmar-se como uma das fadistas mais singulares, mais aplaudidas e mais interessantes do país.
E, mais de uma década depois, Gisela revela-se agora como nunca a tínhamos escutado antes. Ao sair do repertório do fado, para mergulhar noutras águas. Mas como sabemos, uma verdadeira fadista leva sempre o fado consigo, cante o que cantar.
E é sempre muito especial quando uma artista não só nos comove, como nos espanta e abana.
Gisela João conta como, na preparação de outro disco, ‘engravidou’ deste e sentiu que precisava gravar e cantar mais estas canções inquietas. Que continuam a ser muito atuais. Talvez porque a liberdade e a democracia são uma luta constante. E é tão valioso quando os artistas são raios e tufões na escuridão.
Nesta primeira parte, Gisela é questionada sobre a razão de ter escrito sobre si no perfil do Instagram: “Mulher que dá trabalho”.
Uma mulher livre, dona de si, que pensa pela sua cabeça, é uma mulher que dá trabalho? Dá trabalho a quem? Incomoda quem? Uma mulher que dá trabalho, paga uma fatura por isso? Todas estas questões são-lhe colocadas.
Entre tantos assuntos, Gisela revela forma sensível como sente as coisas e como é intensa. O que a leva sempre a estar com lágrimas nos olhos pela vida — sobretudo pela dos outros. E comoção não faltou nesta primeira parte.
Como sabem, o genérico é assinado por Márcia e conta com a colaboração de Tomara. Os retratos são da autoria de Nuno Fox. E a sonoplastia deste podcast é de João Ribeiro.
A segunda parte desta conversa fica disponível na manhã deste sábado.
