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Catarina Oliveira: “Desde que me sentei numa cadeira de rodas tive de endurecer e falar uns decibéis mais altos para ser levada a sério”

Nas redes sociais é conhecida por ‘Espécie Rara Sobre Rodas’ e, com humor e olhar crítico, chega ao ‘mainstream’ a falar desconstruir preconceitos e a revelar os obstáculos que tantas pessoas enfrentam por se deslocarem numa cadeira de rodas. A sua vida mudou aos 26 anos quando sofreu uma infecção na medula e deixou de andar. Atualmente é consultora, oradora e criadora de conteúdos, além de nutricionista e mãe de Kai, um bebé de 5 meses. Ouçam-na nesta conversa em podcast com Bernardo Mendonça

Catarina Oliveira é um caso sério de carisma, de talento para comunicar e capacidade de abordar com inteligência, humor e leveza as tantas formas de capacitismo na sociedade e os desafios diários que as pessoas com deficiência enfrentam no dia a dia.

Ela é “uma espécie rara sobre rodas” na sua página do Instagram, um notável projeto digital seguido por meio mundo. Os seus vídeos são muito apelativos, eficazes, e interessantes e tanto dispõem bem, como nos ensinam de múltiplas maneiras a sermos todos e todas mais inclusivos e atentos à diferença. A sua máxima de vida é “Diversidade é um facto. Inclusão é uma prática.”

TOMAS ALMEIDA

E há cerca de dez anos tem-se dedicado a falar de acessibilidade, capacitismo, vida real e tudo aquilo que, durante demasiado tempo, tem sido empurrado para as margens, para a sombra, para a invisibilidade

A sua história pessoal foi marcada por um episódio que ocorreu aos 26 anos quando numa viagem que fez ao Rio de Janeiro, para refletir sobre o futuro, sofreu uma inflamação na medula, medicamente chamada de “mielite transversa” e, de um momento para o outro, deixou de conseguir andar, o que a levou ser internada e depois a regressar a Portugal numa cadeira de rodas.

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Catarina passou depois por quase seis meses de internamento e reabilitação, até voltar à vida ativa, agora sobre rodas.

E apesar da mudança radical, de ter deixado subitamente de andar, e de sentir o corpo abaixo da sua lesão, Catarina afirma nesta conversa em podcast que não passou por nenhum luto ou revolta e que se adaptou bem à nova fase, ao novo corpo.

E revela que o que lhe custou mais nesse processo foi confrontar-se com as várias formas de preconceito e barreiras arquitetónicas na sociedade. Uma realidade que nunca antes lhe passara pela cabeça. Afinal de contas, a maioria de nós, é capacitista sem o saber…

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Catarina chega mesmo a partilhar que a sua deficiência, em vez de ter marcado um ponto final na sua vida, acabou por ser apenas uma mudança de capítulo.

Decide formar-se em Nutrição, uma área que ainda exerce, mas depressa se apercebe que o impacto que queria ter no mundo era outro…

E a par do projeto digital, especializou-se numa Pós Graduação de Estudos da Deficiência e Direitos Humanos, no ISCTE.

Atualmente Catarina Oliveira é consultora, oradora, criadora, e responsável pela Academia Access Lab - uma start-up de impacto social dedicada à inclusão da pessoa com deficiência na cultura, no desporto, no entretenimento e no mercado de trabalho.

Além disso, é também Embaixadora da Associação Salvador.

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Ou seja, Catarina passou a dedicar a sua vida profissional a desconstruir preconceitos, furar bolhas e pôr (também) a deficiência no “mainstream”, porque as pessoas com algum tipo de deficiência não deveriam ser consideradas a exceção (ou as especiais), nem tão pouco uma nota de rodapé da sociedade.

Até porque, de acordo com os últimos dados do Census mais de um milhão de pessoas em Portugal tem deficiência. O que representa mais de 10% da população. Embora Catarina aposte que esta seja uma realidade subrepresentada e o número seja bem maior.

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Catarina deixa claro que acredita profundamente que pessoas com deficiência não querem ser “consertadas”. E afirma que, acima de tudo, “querem ter vidas dignas, banais, autónomas, capazes. Como qualquer outra pessoa. Mas com as adaptações que lhes são devidas.”

E sobre isso diz mais: “Erro não é existir numa cadeira de rodas. Erro é um poste no meio do passeio. Erro é uma rampa que parece uma parede. Erro são atitudes que infantilizam, diminuem e tiram autonomia. Pessoas com deficiência são pessoas. E a sociedade tem de começar a falar connosco e não apenas sobre nós.” Palavras de Catarina Oliveira.

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Mas a vida não é só trabalho. E há muitos outros lados e assuntos importantes para si.

Talvez aquele a que Catarina mais se dedica atualmente é à maternidade. Já que é mãe do Kai, um bebé de cinco meses, e está agora a descobrir esta aventura e este novo papel com amor, humor, noites curtas e muita aprendizagem. E tem revelado em vários vídeos como são os seus dias, entre uma agenda cheia de compromissos profissionais e as exigentes demandas da maternidade, sempre sobre rodas. Uma mãe sobre rodas.

Mas, no último vídeo que publicou, Catarina Oliveira deu conta de um dos avessos desta sua vida intensa, ao relatar que depois de uma noite mal dormida, em que o Kai não deu descanso, se sentiu mal durante a manhã e teve dificuldade em desmarcar a sua agenda de trabalho. E tentou até à última cumprir tudo.

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Depois refletiu sobre a importância de ouvir o corpo e da cobrança excessiva que exige de si para não falhar nada. Um mal dos tempos e desta sociedade acelerada? Um tema debatido nesta primeira parte.

E que mais? Catarina diz sobre si que é uma “tímida extrovertida”. Que é super exigente consigo e tem dificuldade em aceitar elogios.

E, mais importante do que tudo, acredita que “todos podemos ser agentes de mudança, seja na área que for, e devemos todos reclamar, sensibilizar, educar ou, simplesmente, não assobiar para o lado” sobre estas questões.

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Catarina faz a sua parte e todos os dias, à sua maneira, tenta que a sua voz abra portas, endireite rampas e faça com que a deficiência deixe de ser o elefante na sala. E passe a ser encarado com mais naturalidade.

Até que ponto o bordão “todos diferentes, todos iguais” se sente na lei e se aplica na vida quotidiana?

Somos uma sociedade cada vez mais inclusiva ou é ainda bastante capacitista e discriminatória, com muitos estereótipos e clichés sobre a deficiência?


Como reflete Catarina estes tempos de maior extremismo, polarização e menor empatia com os outros e com a diferença, que por certas forças extremistas é tratada como insulto e arma de arremesso?

Vivemos um retrocesso na sociedade e nas políticas de inclusão? Que medidas a seu ver seriam urgentes de tomar politicamente para uma sociedade mais justa, e acessível para todos e todas?

Todas estas questões lhe são colocadas. Quem é Catarina Oliveira na fila do pão, com Kai, no colo? O episódio arranca com esta pergunta.

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Como sabem, o genérico é assinado por Márcia e conta com a colaboração de Tomara. Os retratos são da autoria de Tomás Almeida. E a sonoplastia deste podcast é de João Ribeiro.

A segunda parte desta conversa fica disponível na manhã deste sábado.

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