Marina Mota estreou-se nas tábuas em 1982, no saudoso Teatro ABC, na peça “Chá e Porradas”, um título que já prometia muita animação e, anos depois, já era cabeça de cartaz na peça “A Prova dos Novos”, em 1988, o ano em que aconteceu o incêndio do Chiado, mesmo ali ao lado.
Nos últimos anos certos fogos políticos e sociais têm chamuscado a democracia e revelado que há uma fraca memória sobre o país a preto e branco da ditadura. Dariam eles boas rábulas de Revista? Esta pergunta é-lhe colocada nesta conversa.
Foi durante o antigo regime que o teatro de revista viveu o seu esplendor, com grandes nomes e grandes elencos, a concentrar num só espetáculo o drama, a comédia, a sátira, a crítica social e política, a dança, o canto, o fado, a luz, o ritmo e o espírito popular de um país.
Mas também é verdade que muitos nomes da Revista surgiram já em liberdade, depois do 25 de Abril, nos anos 80, como é o próprio caso de Marina Mota, Maria João Abreu, José Raposo, Carlos Cunha e Fernando Mendes.
Onde cabe a revista nestes tempos? É um género que ficou datado ou sofreu as consequências de certos preconceitos de gosto? Marina responde.
Durante muitos anos Marina Mota fez disparar as audiências televisivas com programas de comédia em nome próprio: É o caso de “Marina, Marina”, “Ora Bolas, Marina”, “Marina Dona Revista”, “Um Sarilho chamado Marina”, ou o “Bora lá Marina”.
E, nas últimas décadas, tem sido mais vista em novelas e séries. Chegou mesmo a gravar uma novela na Globo, “Aquele Beijo”, em 2012, a convite do ator e diretor Miguel Falabella.
Em 2024 foi distinguida com um Globo de Ouro, na categoria de melhor atriz de teatro, pelo seu desempenho no espetáculo “Bravo 2023!”, uma produção do Teatro Praga.
E voltou a colocá-la no centro de uma certa categoria, e a receber os aplausos não só do público, como da própria crítica, que talvez a tenha desconsiderado de forma injusta durante muitos anos. Será assim? A pergunta é-lhe colocada.
Certo é que Marina Mota é uma resistente e com talento para fazer tudo o que quiser na sua arte.
Importa dizer que Marina começou muito cedo a pisar as tábuas dos palcos e a ser distinguida com vários prémios, enquanto estrela da canção infantil. Estreou-se logo aos 8 anos e aos 10 gravou o primeiro disco de fado intitulado “Meu Nome” e, logo aí, passou a ser conhecida do grande público com a alcunha da “miúda de Alcântara”, o bairro onde nasceu e cresceu.
Bairro esse que lhe ensinou a importância da comunidade, da interajuda e da partilha, mesmo quando se tem muito pouco.
Basta referir que a sua infância foi vivida em casa de uma amiga da família, a Tété, onde morava com os pais e a irmã. Eram seis ao todo, numa casa com um quarto.
Marina recorda neste episódio, esses primeiros anos e regressa um pouco a essa época e a essa Lisboa genuína e bairrista que já não existe na cidade. Com que olhar encara esta nova Lisboa dos tuktuks, dos airbnbs e dos unicórnios? Marina não deixa de responder.
Ficamos também a saber que Marina, antes de ser atriz, sonhou ser hospedeira e pensava tirar um curso de Línguas. Mas o seu vozeirão levou-a para outros voos. Chegou mesmo a participar no Festival RTP da Canção e gravou vários discos, o último foi gravado em 2005 e tem por título “Estados d’Alma”.
Como muitos saberão Marina é conhecida pela sua generosidade, mas também pelo seu rigor, profissionalismo e exigência. E por ser uma máquina de trabalho e a decorar texto, por isso não leva textos para estúdio, nem para cena, e antes de entrar em palco se benze. Não vá o diabo tecê-las. No trabalho detesta colegas mal preparados ou armados em ‘diva’.
Com um percurso tão longo, feito de picos e vales, de glórias, desertos e mágoas, será que ainda sente faíscas e frissons na representação? O que a leva a continuar e o que lhe falta fazer na sua arte e na vida? É ouvirem.
Mulher de personalidade forte, genuína e de convicções, Marina já afirmou que “morrerá mantendo a coluna vertebral” e que não vai vergar-se aos donos das estações, diretores de programas ou às redes sociais."
Num país pequeno como Portugal, e ainda com vícios machistas, Marina tem pago uma fatura por isso? Marina também não deixa de responder a esta questão.
E que mais? Marina Mota anda atualmente pelo país com o seu novo espetáculo de Revista “Radojka”, onde com a colega Rosa Villa, interpreta uma cuidadora de uma senhora sérvia com muita idade que reside em Portugal, longe da família. Um tema duro aqui tratado com humor, porque às vezes é mesmo o humor o melhor remédio, para lidar com a realidade.
Nesta nova temporada, o genérico é agora assinado pela Garota Não. Os retratos são da autoria de Matilde Fieschi. E a sonoplastia deste podcast é de Francisco Marujo.
A segunda parte desta conversa fica disponível na manhã deste sábado.
