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Operação policial no Rio de Janeiro “não vai impactar na contenção do crime organizado, mesmo assim as pessoas sentem-se mais seguras”

Uma megaoperação policial “sem precedentes” nas favelas do Rio de Janeiro chocou pela violência e pela letalidade. Oiça aqui o último episódio do podcast O Mundo A Seus Pés com a consultora política brasileira Gil Castillo

Morreram mais de 120 pessoas na megaoperação policial que aconteceu na útima terça-feira, 28 de outubro, nas favelas da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro, contra a organização criminosa Comando Vermelho. Foi a operação mais letal de sempre no Brasil.

Os dados da polícia apontam para 121 mortos, enquanto os da Defensoria Pública do Rio de Janeiro elevam o número para 132. Todas as vítimas mortais são do grupo delinquente, à exceção de quatro agentes da autoridade que morreram nos confrontos.

O Presidente do Brasil, Lula da Silva, ficou “estarrecido” com o número de mortos e surpreendido que esta operação tenha sido feita sem o conhecimento do Governo federal — ou seja, o Governo federal não foi informado nem teve qualquer tipo de participação. “Isto não é normal”, afirma Gil Castillo, consultora política e convidada do episódio.

“É um caso praticamente sem precedentes. Houve outra grande operação policial há 15 anos, se não me engano, nas favelas do Rio de Janeiro e aí houve sim uma cooperação entre o Governo federal e o municipal. O que aconteceu desta vez é que a guerra de narrativas que existe no Brasil, essa polarização entre direita e esquerda, ela se agravou. Então, o próprio governador [do Rio de Janeiro], Cláudio Castro, diz que acionou o Governo federal por três vezes para que tivesse o apoio do Exército, da Marinha. E o Governo federal disse que não recebeu esses pedidos.”

Apesar de esta ação policial ter sido extremamente violenta e letal — houve mais mortes do que membros detidos do Comando Vermelho, e dois polícias e dois militares também foram mortos —, o secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, Victor Santos, defendeu a operação, que teve “danos colaterais muito pequenos”. As vítimas mortais, disse, eram apenas “os quatro inocentes” que foram baleados, ou seja, os quatro agentes.

Onde o Estado não atua, a criminalidade vai ocupar esses espaços, e hoje representa grande perigo para a população da cidade, principalmente dos maiores centros urbanos, justamente pela própria configuração do Rio de Janeiro, onde tem uma faixa de litoral, onde tem bairros de classe média alta e muito turismo e onde, a poucos metros, tem as favelas. Impacta toda a sociedade”, diz Gil Castillo.

A consultora política cita ainda uma pesquisa de opinião para entender a perceção das pessoas sobre recente a ação policial, que conclui que “64% dos moradores do Rio de Janeiro apoiaram a iniciativa da operação feita pelo governador. Inclusive o governador que não estava enfrentando um bom momento de popularidade, ele teve aumento de 10 pontos percentuais na sua aprovação”.

“Então”, conclui, “isso mostra uma operação que não dá para dizer que foi exitosa [bem-sucedida] porque houve mortes, mas não vai impactar na contenção do crime organizado, até porque o principal alvo, que seria o comandante do Comando Vermelho ali na região, não foi pego. E mesmo assim, as pessoas se sentem mais seguras quando o Estado age dessa maneira truculenta [violenta]. As pessoas estão no limite da normalidade por ter que conviver com crime organizado tão próximo”.

Este episódio foi conduzido pela jornalista Mara Tribuna e contou com a edição técnica de João Martins. O Mundo a Seus Pés é o podcast semanal da editoria Internacional do Expresso. A condução do debate é rotativa entre os jornalistas Ana França, Hélder Gomes, Mara Tribuna, Pedro Cordeiro e Catarina Maldonado Vasconcelos. Subscreva e ouça mais episódios.

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