O Tal Podcast

“Entrei no ‘Evita’ depois de ter feito uma audição com as botas desfeitas. Acreditem em vocês, um bom diretor vai ver além da vossa imagem”

Íris de Brito já trabalhou com artistas como Jay-Z, Enrique Iglesias ou Kylie Minogue e participou nos musicais ‘Chicago’ e ‘Evita’, audição na qual concorreu contra a um dos bailarinos principais de Michael Jackson. Com três décadas de profissão, a coreógrafa, neste episódio d'O Tal Podcast, reforça a importância da dança não só nos palcos como no dia a dia. “O movimento ajuda em tudo”, aliás, há um provérbio, recorda, que reforça essa associação entre movimento e adoecimento. Segundo o ditado, “quando alguém chega a um xamã e diz ‘estou doente’, ele pergunta: quando é que você parou de dançar, de cantar, de contar ou de ler histórias?”. Saiba mais sobre a sua história com o novo episódio do podcast

Nuno Fox

Diante da pergunta “Que idade tinhas quando a dança entrou na tua vida?”, Iris de Brito revê a resposta de sempre.

Habituada a apontar como referência a iniciação no balé, vivida quando tinha cerca de 8 anos, hoje a coreógrafa partilha outro entendimento.

“A dança e o movimento entraram em mim quando comecei a andar”, realça no início deste episódio d’ O Tal Podcast, já livre das velhas programações.

“Esta sociedade do Norte Global incorporou a ideia de que tudo da mente tem uma hierarquia maior, e que o conhecimento do corpo não tem tanta importância. Mas tem”, sublinha, lembrando a necessidade de soltar as próprias amarras: “Cresci a pensar que o que tenho na cabeça e a universidade é que é importante”.

Nuno Fox

A crença, observa Iris, tem sido desconstruída, permitindo reconhecer que “o movimento é uma das tecnologias ancestrais – africanas e não africanas – que mais ajuda a tudo”.

Não surpreende por isso que o pessoal da dança “diga sempre na brincadeira: se os governantes dançassem mais estaríamos um bocadinho melhor”.

Aliás, nota a também professora, há um provérbio, “talvez nativo-americano”, que reforça essa associação entre movimento e adoecimento. Segundo o ditado, “quando alguém chega a um xamã e diz ‘estou doente’, ele pergunta: quando é que você parou de dançar, de cantar, de contar ou de ler histórias?”.

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Iris nunca marcou passo, e a determinada altura Portugal tornou-se pequeno.

“Trabalhei no teatro de revista, fiz o Crime da Pensão Estrelinha na televisão com o Herman José, e foi muito engraçado, mas senti que não conseguiria ir mais longe. Por isso quis sair para Nova Iorque”.

Mais do que um plano, Iris alimentava o sonho de integrar a companhia Alvin Ailey, mas não tinha meios nem conhecia ninguém na ‘Grande Maçã’. Por isso Londres, onde tinha ‘rede’, impôs-se como destino.

“Aí tive a oportunidade de fazer formação com um mestre incrível, William Luther, um dos primeiros bailarinos da companhia de Alvin Ailey”, diz a coreógrafa, assinalando como o ciclo acabou por se completar.

Foi também na capital britânica que fez um curso em Teatro Musical e o mestrado em Pedagogia das Danças Afrolatinas, além de ter trabalhado com artistas como Jay-Z, Enrique Iglesias ou Kylie Minogue.

Pelo caminho, enfrentou vários castings, incluindo para o filme Evita e o musical Chicago, experiências que revisita neste episódio.

“Fiz a audição para o Evita com um dos bailarinos principais do Michael Jackson, o Vincent Paterson. Fiquei, saltei, estava toda contente, e ele deu-me os parabéns e um toque: da próxima vez, muda de botas. Elas estavam a cair aos pedaços”.

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O episódio é recordado não apenas por ter sido selecionado, mas também pela lição, que Iris faz questão de partilhar: “Acreditem em vocês porque um bom coreógrafo, um bom diretor, consegue ver mesmo através da vossa imagem”.

Com três décadas de profissão, a coreógrafa partilha igualmente um alerta: “Infelizmente, não existe nos países PALOP uma proteção da herança imaterial, que inclua o movimento, a dança. Estamos completamente desprotegidos. Então, nos festivais querem mudar a Kizomba e dizer que é evolução”.

Longe disso, Iris de Brito vê nessas jogadas mercantilização e desvirtuação, reflexões para acompanhar na conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.

Nuno Fox

O Tal Podcast é um podcast semanal dedicado às relações interpessoais e aos afectos humanos. Através de conversas profundas com convidados notáveis, o podcast revela uma narrativa original e abre as portas a uma comunidade internacional de reflexão e de interesse.

Pioneiro na cultura negra e afro-descendente em Portugal, é um espaço onde cabem todas as vidas, emocionalmente ligadas por experiências de provação e histórias de humanização.

Em longas conversas sem guião, Georgina Angélica e Paula Cardoso apresentam convidados especiais, em novos episódios, todas as quintas-feiras nos sites do Expresso, SIC e SIC Notícias ou qualquer plataforma de podcasts.

Georgina Angélica é especialista em Educação e Intervenção Social. Atua como educadora, formadora e palestrante, com mais de 20 anos de experiência em Portugal, Inglaterra e Angola.

Paula Cardoso é fundadora da rede Afrolink e autora da série de livros infantis ‘Força Africana’. É ainda apresentadora do programa de TV "Rumos" , transmitido na RTP África.

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