“Há um projeto secular do anticiganismo, bem impresso na história em Portugal. Tanto que os nossos filhos, quando estão na escola, têm que se editar. Têm que entrar deixando a sua identidade para trás, porque não há nada nos livros escolares que diga: vocês existem”.
O diagnóstico, aponta Maria, agrava-se num emaranhado de preconceitos que forçam destinos de luta e resiliência.
“É muito cansativo educar os nossos filhos para uma militância permanente. Educá-los sobre um estado constante de vigilância é de uma violência enorme”.
Antes do nascimento de Mariana, há 20 anos, Maria já educava António, Salvador e Vicente, experiência que a obrigou a calibrar perspetivas, e a reconhecer na escola um lugar de confrontos.
A experiência é partilhada pela filha única, perentória na autodescrição: “Atualmente, a minha simples apresentação torna-se um ato de resistência: sou Mariana, cigana, afrodescendente e estudante do Ensino Superior em Portugal”.
Desde cedo confrontada com o peso das características que marcam a sua identidade, a mais nova dos Gil recorda quão “perverso” pode ser o sistema de ensino.
“No nono ano, antes do Covid-19, tinha um colega racista, que fazia afirmações extremamente perigosas. Tive a infelicidade de, no calor de uma discussão, em que ele se dirigia a mim com extrema violência, o chamar de nazi”, conta, sem perder de vista o desfecho. “No final do período, tive um valor retirado da nota e o aluno racista não teve nenhuma repreensão. Nem tentaram perceber a motivação daquela minha palavra”.
Antes desse embate, a hoje estudante de Ciências da Comunicação recorda o primeiro confronto com os enviesamentos curriculares.
“Fui a primeira pessoa a aprender a ler na minha turma, e a primeira vez que abri um dicionário, das primeiras palavras que fui procurar foi cigano. O que lá encontrei não foi nada bom”.
A consciência da discriminação e da exclusão não demoraram a forjar um forte compromisso ativista, extensivo ao universo da moda, que navega criticamente.
“Porquê é que numa menina branca um coque bastante liso e umas argolas douradas é clean e chic, mas numa menina cigana, negra, indiana já é um estilo marginal? Comecei-me a questionar”, adianta Mariana, criadora da “Statement Magazine”, projeto académico que define como “disruptivo”.
O engenho criativo e a assinatura política, reconhecida pelos pares, evidencia-se em casa desde a infância.
“A Mariana tem uma capacidade imensa, de me obrigar a reorganizar enquanto pensamento. Ela consegue fazer essa reorganização não para mim, não por mim, mas comigo. Isso tem sido incrível, porque tem-me trazido outros pontos de consciência”.
Ao reconhecimento materno, a estudante universitária responde com reconhecimento filial. “Eu e a minha mãe estivemos ligadas durante nove meses por um cordão umbilical, e depois a ligação manteve-se via Bluetooth. Somos dois dispositivos que não funcionam um sem o outro”.
Os firmes laços familiares expressam-se também numa campanha fraterna no mínimo original: “Os meus irmãos têm um autocolante no telemóvel a dizer: Marianinha for President [Marianinha para Presidente]”.
Ouço aqui a primeira parte deste episódio, que continua na próxima semana.
O Tal Podcast é um podcast semanal dedicado às relações interpessoais e aos afectos humanos. Através de conversas profundas com convidados notáveis, o podcast revela uma narrativa original e abre as portas a uma comunidade internacional de reflexão e de interesse.
Pioneiro na cultura negra e afro-descendente em Portugal, é um espaço onde cabem todas as vidas, emocionalmente ligadas por experiências de provação e histórias de humanização.
Em longas conversas sem guião, Georgina Angélica e Paula Cardoso apresentam convidados especiais, em novos episódios, todas as quintas-feiras nos sites do Expresso, SIC e SIC Notícias ou qualquer plataforma de podcasts.
Georgina Angélica é especialista em Educação e Intervenção Social. Atua como educadora, formadora e palestrante, com mais de 20 anos de experiência em Portugal, Inglaterra e Angola.
Paula Cardoso é fundadora da rede Afrolink e autora da série de livros infantis ‘Força Africana’. É ainda apresentadora do programa de TV "Rumos" , transmitido na RTP África.
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