Ciência Política ou Engenharia do Ambiente? Dividida entre as duas licenciaturas, Margarida Valença precisou apenas de três meses para descartar a segunda opção. Apesar do gosto pelas cadeiras de Biologia, Química ou Física, a convidada deste episódio de “O Tal Podcast” conta que o curso não lhe despertava paixão. “Saí e fui procurar emprego para a Amnistia Internacional no ‘face-to-face’, que são aquelas pessoas que estão na rua e falam com as pessoas para angariar doadores”. A experiência, conta, trouxe-lhe boas conversas, e competências que vê como valiosas para o jornalismo, atividade que se tornou caminho ainda durante os estudos em Ciência Política.
Curiosa nata, há muito que Margarida procura respostas para múltiplas inquietações.
“Andei num colégio de freiras do primeiro ao quarto ano. Foi um motor muito importante para eu começar a questionar o mundo”.
Desde logo, a jornalista nota que quando passou a estudar numa escola não-católica, ficou “parva ao perceber que, afinal, as pessoas não acreditavam todas em Deus”.
Terá encontrado aí uma ‘permissão’ para, também ela, se libertar de crenças religiosas?
“Sinto que há muitas coisas a aprender sobre religiões, e tento ser uma pessoa que procura. Gosto muito dos princípios do hinduísmo, por exemplo. É uma religião que consegue encontrar validade em todas as religiões”.
Os questionamentos acentuam-se na política, tema ao qual sempre esteve exposta em casa, e que procurou aprofundar com ligações partidárias.
“Quis juntar-me à Juventude Socialista. Queria de alguma maneira estar envolvida, não sabia muito bem como. Achei que havia ali um conjunto de valores com os quais me identificava”.
Um ano depois de avançar, Margarida recuou, por sentir que “estava a ir a imensos eventos, mas não estava a fazer nada em concreto”. A desilusão não a desmobilizou, antes redirecionou-a para o Livre. Desta vez, porém, foram as práticas jornalística e partidária que se revelaram conflituantes.
“Mesmo que não esteja na secção de política, e a ir ao parlamento, ela está em todo lado”.
A constatação não alimenta, contudo, pretensões de neutralidade. “Acho que um jornalista não é uma pessoa que deve estar desligada de opiniões, nem de fazer jornalismo com valores”.
Idealista por natureza, Margarida sublinha que quando decidiu arrepiar caminho no mundo da comunicação social foi com a perspetiva de fazer coisas alinhadas com aquilo que idealiza.
O mesmo impulso guiou a experiência partidária, da qual extrai várias lições.
Por um lado, a jornalista observa que “um partido é feito de muita toxicidade, de toda a parte de discussão, de troca, de conflito”. Por outro lado, Margarida sugere que os partidos façam “uma reflexão muito grande” sobre a forma como chegam às pessoas, enquanto ela própria matuta nas suas reflexões.
“Um exercício que ultimamente tenho feito é escrever ao computador, às vezes uma hora, para perceber aquilo que penso e sinto. Porque às vezes é uma coisa confusa, quando estamos imersos, e à nossa volta muitas pessoas têm muitas certezas”.
Nos antípodas dessa amálgama de certezas, a jornalista lembra como começou a questionar aquilo em que ela própria acreditava.
“Comecei a ler coisas de autores mais liberais e autores mais marxistas, e a tentar enquadrar-me”. Com que impacto?
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Georgina Angélica é especialista em Educação e Intervenção Social. Atua como educadora, formadora e palestrante, com mais de 20 anos de experiência em Portugal, Inglaterra e Angola.
Paula Cardoso é fundadora da rede Afrolink e autora da série de livros infantis ‘Força Africana’. É ainda apresentadora do programa de TV "Rumos" , transmitido na RTP África.
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