Nem todas as cidades se podem orgulhar de ter um prato icónico que metaforiza a identidade das suas gentes, os tripeiros. Conforme Joel Cleto, no artigo “Lendas do Porto: A Origem dos Tripeiros”, a história das “Tripas à moda do Porto” remonta a 1415, aquando da expedição comandada pelo rei D. João I, rumo à conquista de Ceuta. “O Porto, além de todo o trabalho na construção dos navios, forneceu tudo o que tinha para os mantimentos da frota, nomeadamente carne.” Sobraram as miudezas e, graças ao espírito inventivo e de sacrifício, os habitantes locais criaram as “Tripas à moda do Porto”. “É a versão mais consistente”, defende Manuel Moura, proprietário do restaurante Líder, onde se serve todos os dias este prato.
Outra versão obriga a recuar até ao século I a. C. Diz Cleto que os responsáveis pela criação do prato poderão ter sido os suevos, povo bárbaro germânico que se terá estabelecido na região e cujas tripas (nomeadamente do estômago das vacas) fariam parte da dieta alimentar. Com a queda do Império Romano, “os suevos atravessaram a Europa [...] e acabaram por se fixar no Noroeste da Península, onde estabeleceram um reino, sendo o Porto uma das suas principais cidades.”
Com uma narrativa mais ou menos romântica sobre a origem, as “Tripas à moda do Porto” são o maior emblema gastronómico da cidade. Em 2001, anos após a “doença das vacas loucas”, foi registada oficialmente a Confraria Gastronómica das Tripas à Moda do Porto, da qual Manuel Moura é fundador e atual presidente. O objetivo era “promover e dar a provar um prato que estava a desaparecer”. No fundo, possibilitar “a divulgação da cozinha tripeira e defender a autenticidade”. A missão foi cumprida e hoje os restaurantes orgulham-se de o servir a preceito.
O tempo é um dos elementos fundamentais para o êxito da receita. “Os produtos chegam três dias antes. As tripas ficam em água e limão de um dia para o outro, a mão de vaca tem que ser queimada com o maçarico, para retirar os pelos, e os folhos, por exemplo, demoram, no mínimo, três horas a cozer.” Essencial é degustá-las sempre quentes, porque, como escreveu Álvaro de Campos, “a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria”.
Onde se comem as melhores “Tripas à moda do Porto”?
Líder
As “Tripas à moda do Porto” (€27,5) são confecionadas há décadas como manda a tradição. Além dos portuenses, também os turistas, “especialmente os brasileiros e os espanhóis”, se deliciam com este prato popular e emblemático, servido todos os dias neste icónico restaurante. No inverno, uma vez por semana, há “Bacalhau à Gomes de Sá”, outro prato com história própria na cidade Invicta. Na lista de especialidades entram ainda o “Arroz de robalo com coentros”, o “Joelho de porca no forno com maçã assada” e a “Perdiz estufada com castanhas”, em época própria, tal como a lampreia.
Alameda Eça de Queirós, 120, Porto. Tel. 225020089
Adega Rio Douro
Há quem a conheça por Adega Rio Douro e quem lhe chame Casa ou Tasca da Piedade, já que é Piedade Rodrigues quem, com a filha Alice, comanda o negócio há várias décadas. Instalada perto da marginal, é uma das tascas mais típicas da cidade, com uma esplanada de onde se consegue ver o rio, a ponte e a comunidade piscatória da Afurada. Dentro de portas a decoração é típica e alusiva ao universo fadista — nas paredes de pedra há uma pintura de Amália Rodrigues coberta com um xaile e, até à pandemia, a adega enchia-se de cantores e curiosos durante as tardes de terça--feira, quando se cantava e ouvia fado vadio. Há várias mesas e um balcão onde estão expostos os petiscos, feitos diariamente. O cheiro da brisa ribeirinha confunde-se com o aroma dos “Rojões no prato”, do “Pratinho de lulas”, das “Papas de sarrabulho” e dos “Rissóis”. No pão, vale a pena provar a “Sandes de bucho”, a “Sandes de fígado” e a “Sandes de isca de bacalhau”, uma das mais afamadas da Invicta. Ao almoço há sempre pratos económicos e quinta-feira é, por excelência, dia de “Tripas à moda do Porto” (€5).
Rua do Ouro, 223, Porto. Tel. 226170206
Solar Moinho de Vento
As “Tripas à portuense” (€14,5), servidas à quinta-feira, dia de tripas por excelência, são um dos pratos típicos que figuram no menu deste restaurante, a “cantina dos portuenses” desde 1905. Todos os dias há uma especialidade a destacar, como “Rancho”, à segunda, “Favada à moda da avó Ermelinda”, à terça, “Arroz de bacalhau com amêijoas”, à sexta, ou “Sames de bacalhau”, ao sábado. O conforto estende-se também ao “Arroz de costelinhas com grelos e moura”, uma das especialidades da casa.
Rua de Sá Noronha, 81, Porto. Tel. 222051158
A Cozinha do Manel
Local de encontro para personalidades de todos os quadrantes, da política ao futebol, este restaurante na zona Oriental da cidade é um porto seguro para comer pratos regionais. As “Tripas” (€20) elaboradas a preceito, servem-se às quartas-feiras, sábados e domingos, mas também se aconselha a provar a “Vitela assada em forno a lenha”, os “Filetes de polvo com arroz do mesmo” e o “Cabritinho assado no forno”, disponível apenas por encomenda. Em 2023, o restaurante foi distinguido com o prémio Cozinha Tradicional Portuguesa – Maria de Lourdes Modesto.
Rua do Heroísmo, 215, Porto. Tel. 919787598
Casa Expresso
A localização, no centro da cidade, e a publicidade têm feito desta casa um local de visita obrigatória para locais e turistas que visitam a Baixa. “As tascas estão na moda”, afirma Arlindo Sousa, sócio-gerente desde 1990, mas a trabalhar na casa desde 1978. “À noite é só juventude.” Acredita que vão pelos preços e pela comida, já que “o atendimento é péssimo”, brinca. Parte do sucesso deve-se à generosa “Sandes de rojão”, a estrela deste espaço. A carne é confecionada sem segredos, mas com bons produtos e tempo — um dia a marinar e duas horas a apurar os temperos —, o que a torna tenra, saborosa e irresistível. “Bolinhos de bacalhau”, “Papas de sarrabulho”, “Sandes de salpicão” e prato de “Moelas” são outros dos petiscos que aqui se podem encontrar. Para comer de garfo e faca há sugestões diárias a €9, como a “Feijoada à transmontana”, às segundas-feiras, as “Tripas à moda do Porto”, às quartas, e o “Bacalhau à Braga”, às sextas. De portas abertas desde 1946, este espaço gastronómico passou para as mãos da família atualmente proprietária em 1969.
Praça de Carlos Alberto, 73, Porto. Tel. 966057185
O Rápido
Pratos caseiros, doses generosas e um atendimento simpático e despachado, à moda do Porto. O espaço, ao lado da Estação de São Bento, é um cartão de visita da cidade, especialmente às terças e quintas-feiras e sábado quando as “Tripas à moda do Porto” (€14) chegam à mesa a fumegar e a casa, pequena, rebenta pelas costuras. Os “Filetes de polvo com arroz do mesmo” nunca saem do menu, bem como os “Matateus”, para comer à sobremesa, um docinho com massa folhada, creme de ovo e chila.
Rua da Madeira, 194, Porto. Tel. 222054847
Adega São Pedro
Os “Ovos rotos” valeram à Adega São Pedro a distinção como Melhor Tasca de Portugal na primeira edição do concurso Tascando, em 2024. Servidos numa dose farta, como tudo o que se confeciona nesta casa, levam batatas cortadas na hora, fritas no ponto, ovos bem batidos e um presunto de qualidade. É essa, aliás, uma das premissas na fórmula de sucesso da casa, a par da tradição e do preço acessível. Diariamente, na grelha, preparam-se “Bacalhau na brasa”, “Costelinha de porco”, “Posta à S. Pedro”. Quem escolhe os lugares da esplanada consegue acompanhar o processo e sentir o aroma das especialidades ainda antes de chegarem à mesa. À sexta servem-se “Tripas à moda do Porto” (€9) e ao domingo “Cabrito assado”, para regalo de muitas famílias. Com mais de 50 anos, este restaurante está nas mãos de João Dias desde 2019, quando trocou o sossego da reforma pela correria da restauração. Além das refeições, aqui também se preparam sandes e pratinhos de petiscos, de que são exemplo as “Moelas” ou os “Bolinhos de bacalhau”. Dentro de portas, as mesas de madeira e o balcão confirmam a identidade tasqueira.
Rua Esteiro de Campanhã, 10, Porto. Tel. 225305009
Um salto a Matosinhos
O Gaveto
Conhecido pelos pratos de peixe e marisco, como as “Amêijoas à Bulhão Pato”, os “Filetes de pescada com salada-russa” e o “Arroz de mariscos”, o restaurante O Gaveto, em Matosinhos, é também uma referência na preparação de “Tripas à moda do Porto” (€27,5). A fama já vem do tempo em que Manuel Pinheiro, mentor do restaurante e também membro fundador da Confraria das Tripas à Moda do Porto, começou a cozinhá-las no Restaurante Ribeiro, na Baixa da cidade. À mesa d’O Gaveto, referência da restauração local, servem-se todos os sábados. Harmonize a refeição com uma das inúmeras referências da profícua garrafeira.
Rua Roberto Ivens, 826, Matosinhos. Tel. 229378796
Casa Festas
A perfeição está perto de existir num local que reúne, debaixo do mesmo teto, petiscos apetitosos e bom frango no churrasco. Assim acontece nesta casa, emblemático espaço que acumula a vocação petisqueira e a de churrasqueira, em Matosinhos. Luís Santos e Carla Ferreira são os responsáveis pelo restaurante, que “existe há mais de 50 anos”, relatam, esclarecendo o nome do local: “O senhor Fernando Ferreira Festas ainda é o senhorio do edifício.” Em 2008 o espaço foi transformado e a ementa diversificou-se, mantendo a qualidade de sempre, aliada ao ambiente descontraído e informal. “Aqui param caçadores e pescadores e outros mentirosos”, lê-se num dos azulejos típicos de tasca. Para picar preparam-se “Pataniscas de bacalhau”, “Bifanas”, “Rojões” e “Bucho” e pires de “Moelas”, além de outros petiscos típicos, sempre a sair durante o dia. Se preferir refeições de mais sustento, todos os dias há pratos portugueses, anunciados nas redes sociais, para ir abrindo o apetite. Além do famoso “Frango no churrasco”, fazem “Tripas à moda do Porto” (€18) e “Cabritinho assado no forno com arroz de miúdos”. Ao balcão ou na sala acolhedora, para petiscar ou encher o bandulho, este restaurante é uma casa de bem comer das que importa preservar.
Rua Mouzinho de Albuquerque, 263, Matosinhos. Tel. 229382331
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