Repórteres do Mundo

Sem comida, sem abrigo, sem esperança: 900 mil pessoas cercadas há mais de um ano no Sudão

Há 14 meses que os 900 mil habitantes de Al-Fashir, capital do Darfur do Norte, vivem sob um cerco imposto pelas Forças de Apoio Rápido (RSF). O grupo paramilitar bloqueia a entrada de alimentos e combustível e a cidade vive uma crise sem precedentes.

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Al-Fashir transformou-se numa zona militarizada, onde o exército sudanês e a Força Conjunta de Proteção do Darfur tentam impedir que a RSF conquiste a única capital estadual da região que ainda não controla. As ruas estão desertas, os mercados destruídos e os residentes escondem-se em casa para escapar aos bombardeamentos.

"A situação é monstruosa."

Com voz debilitada e tiros audíveis ao fundo, um jornalista descreve as dificuldades de quem ainda vive em Al-Fashir, civis mortos e uma população sem acesso a alimentação.

"Os combates constantes fazem com que as pessoas não possam sair para procurar comida e também não têm dinheiro para comprar o pouco que há. Centenas de milhares de pessoas estão ameaçadas pela fome generalizada."

A situação agravou-se depois da destruição do campo de deslocados de Zamzam, a 12 quilómetros de Al-Fashir, em abril. A RSF saqueou o campo, matou pelo menos 100 pessoas, incluindo crianças e trabalhadores das Nações Unidas. A maioria dos 500 mil residentes fugiu para os arredores de Al-Fashir. Vivem agora em tendas, sem qualquer assistência. Mathilde Simon, coordenadora dos Médicos Sem Fronteiras, alerta para a falta de ajuda na região.

"Entre junho e outubro de 2024, vários camiões foram impedidos de chegar ao destino. Cinco trabalhadores humanitários foram mortos numa tentativa de entrega em junho. Desde então, não houve sucesso nas negociações para entrada de alimentos."

Com os mercados destruídos e os acessos bloqueados, famílias inteiras recorrem a rações para animais para sobreviver. Vídeos divulgados por voluntários mostram crianças subnutridas sentadas em esteiras de palha, enquanto cozinhas comunitárias distribuem pequenas porções de papa de sorgo, a única refeição disponível para centenas de milhares de idosos, mulheres e crianças.

"A situação piorou drasticamente e as taxas de malnutrição são absolutamente catastróficas."

Mohamed al Doma viveu mais de um ano na cidade sitiada, tinha a missão de apoiar os que tinham menos do que ele. Mas a situação agravou-se e, para salvar a própria família, viu-se obrigado a fugir.

"Falta sustento, nutrição, e faltam abrigos. As condições fundamentais para a vida humana não são as mesmas. Não há nada disponível nos mercados, nem comida, nem trabalho. Não há agricultura de subsistência. Não há ajuda em Al-Fashir."