Saúde e Bem-estar

DPOC: se é fumador esta informação pode ser-lhe útil

Exclusivo Online

Inês M. Borges

As doenças de sempre sob um novo olhar.

Começou a fumar aos 17 anos, fumava três maços de tabaco por dia e, quando esteve em Angola, na tropa, chegou a fumar quatro. Aos 59 anos deixou de fumar, mas, oito meses depois de ter colocado um ponto final no vício, descobriu que tinha DPOC.

“Não fazia a menor ideia do que era. Nunca tinha ouvido falar disto sequer”, revela João - nome fictício-, de 76 anos.

O que é a DPOC?

A doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC) é uma entidade prevalente na população portuguesa (800.000 com idade superior a 40 anos) e a nível global, passível de prevenção e tratamento. No entanto, ainda é uma doença subdiagnosticada e subtratada, porque os sintomas acabam por ser genéricos ou sobreponíveis a outras doenças.

Quando questionada sobre os sinais desta doença, Vanessa Machado, médica de Medicina Interna do Trofa Saúde Hospital Braga Centro, diz que podem ser “inespecíficos”.

“Os doentes começam com falta de ar, mas acabam por se adaptar àquela falta de ar e vão fazendo as suas tarefas, mesmo com alguma limitação”, explica a médica.

Vanessa Machado

Vanessa Machado

Há muitos sintomas desvalorizados pelos doentes, que acabam por se habituar a viver com determinada condição. A expetoração, a tosse e o cansaço fácil – sintomas caraterísticos da DPOC – podem passar despercebidos.

“As pessoas vão deixando andar, principalmente se não forem fumadores”, refere a médica, que alerta também para a falta de conhecimento da doença, até mesmo por parte de alguns profissionais de saúde.

Por exemplo, o cansaço fácil é um sintoma que as pessoas associam sempre ao excesso de trabalho, a uma depressão ou a outro tipo de problemas.

Como diagnosticar

No caso de João, foi a falta de ar que o levou até à urgência do hospital. Os médicos diagnosticaram-lhe uma pneumonia na época, mas sem dizerem mais nada. Só depois, numa consulta com um Pneumologista é que descobriu, ao fazer uma espirometria, que tinha DPOC. É através deste exame que a doença é diagnosticada.

A espirometria são provas da função respiratória, simples e não invasivas, em que o paciente tem que expirar o máximo de ar possível, com a maior força possível para um dispositivo. A prova não só fornece informações sobre a gravidade da doença, como permite acompanhar a evolução e avaliar as respostas aos tratamentos.

A realização de exames de imagiologia também é habitual nestes doentes, sendo que a tomografia computadorizada do tórax permite uma avaliação mais precisa das estruturas pulmonares.

A DPOC e os fumadores

O fator de risco mais importante para o desenvolvimento de DPOC continua a ser a exposição ao fumo do tabaco, sendo que 40-50% dos fumadores desenvolvem a doença, informa Vanessa Machado.

No entanto, alerta que esta “não é uma patologia exclusiva dos fumadores”. Aliás, existem pessoas – os chamados fumadores passivos – que frequentam os mesmos ambientes dos fumadores ativos, e que acabam por também estar muito expostos ao fumo do tabaco.

Para além disso, a exposição ambiental e ocupacional a agentes externos, como por exemplo, outros fumos, poeiras orgânicas e inorgânicas e agentes químicos; poluentes interiores, como a biomassa e carvão; e fatores individuais, como aumento da prevalência com a idade, genética e anormalidades no desenvolvimento pulmonar têm também sido reportados como fatores de risco para esta patologia.

“Há ainda pessoas que podem ter algum componente genético, sendo que é uma menor percentagem. Pode ser também uma doença hereditária, que é rara, mas que pode passar muito despercebida”, explica a médica.

A doença é mais frequente a partir de uma certa idade. “A partir dos 40 anos é preciso começar a ter algum cuidado, estar mais atento, a probabilidade de ter DPOC aumenta com a idade e, claro, temos que estar muito atentos aos fumadores, que são o grupo de maior risco”, conclui.

Como é que a doença afeta a parte pulmonar?

A DPOC pode causar uma perturbação ou anomalia nos brônquios, ou nos próprios alvéolos – “aqueles saquinhos de ar onde se fazem as trocas gasosas”. Pode ainda destruir o tecido pulmonar ou afetar a vascularização do órgão.

“Cada doente pode ter várias lesões. Dentro da DPOC, alguns doentes podem ser encaixados na bronquite crónica, outros no enfisema pulmonar e há doentes com asma que também podem ter uma sobreposição com a DPOC. É preciso tentar encaixar o doente nestas patologias, e nem sempre conseguimos encaixar numa só”, esclarece Vanessa Machado.

Que impacto pode ter esta doença?

A sua cronicidade e evolução condicionam elevadas taxas de morbilidade e mortalidade, com relevante e crescente impacto socio-económico. Este inclui, aumento do número de hospitalização frequentes, elevação do grau de incapacidade para o trabalho e dependência de terceiros, necessidade crescente de atestados médicos para os doentes e familiares-cuidadores, reformas precoces, isolamento social, ansiedade e depressão, entre outras consequências.

“Os doentes ativos, que ainda estão no mundo do trabalho, acabam por meter muitas baixas, acabam por faltar muito ao trabalho, e isso condiciona a parte social.”, revela a médica, acrescentando que também se podem tornar muito dependentes da família para ir ao hospital e para fazer os tratamentos.

Por isso, “se os doentes não forem tratados e controlados acabam por limitar não só a própria vida”.

O facto de esta doença ser crónica, ou seja, para toda a vida, pode ser um fator complicado de gerir a nível psicológico e, por isso, podem surgir problemas com a depressão.

O tratamento

O primeiro passo é deixar de fumar, assim como a exposição a eventuais agentes ambientais que possam estar na origem da doença. A maior parte dos doentes faz a terapêutica inaladora com broncodilatadores, fármacos que dilatam os brônquios.

Contudo, em casos mais graves, os doentes poderão beneficiar da toma de corticóides via oral ou injetáveis, oxigenoterapia suplementar e/ou fisioterapia (cinesiterapia) respiratória, muitos dos casos em ambiente hospitalar.

De realçar que o tratamento farmacológico, tanto na forma de inaladores como na forma de comprimidos, deve ser orientado de forma individualizada para cada doente.

Também é recomendado fazer a vacinação anti-gripe anual e anti-pneumocócica, que previnem a ocorrência de infeções neste grupo de doentes.

Segundo a médica, “se o doente estiver controlado faz a maior parte dos tratamentos a partir de casa. Os doentes que têm crises agudas, a que chamamos de exacerbações, podem precisar de ir ao hospital”.

Só este ano, João, já teve duas crises que o obrigaram a ser internado.

As infeções respiratórias

A DPOC deixa os doentes mais suscetíveis a infeções respiratórias, que podem ser bastante graves, ou até fatais.

“O problema, é que por si só, as infeções já são graves, e o doente de DPOC, que tem alterações estruturais, acaba por ter mais dificuldade em responder aos antibióticos”, aponta Vanessa Machado.

As novas linhas de tratamento relativas à DPOC serão abordadas na 1.ª edição das Jornadas de Medicina Interna dos Hospitais Trofa Saúde do Minho, que se realizaram este sábado no Hospital Trofa Saúde Braga Centro. No evento serão apresentadas as guidelines de várias doenças a médicos e alunos de medicina.