Fake News: a ilusão da verdade

"Teorias da conspiração estão a infetar a internet"

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Luís Manso

Luís Manso

Jornalista

Em meados de abril de 2020, António Guterres lançava um alerta: "A infodemia global está a espalhar-se". Num vídeo gravado na altura, o secretário-geral das Nações Unidas realçava os "perigosos conselhos de saúde" que estavam a proliferar, numa altura em que o novo coronavírus se tinha erguido à escala global na dimensão de uma pandemia.

"Teorias de conspiração estão a infetar a internet. O ódio tornou-se viral, estigmatizando pessoas e grupos. O mundo tem de se unir também contra esta doença", realçou.

Guterres usava a palavra Infodemia, talvez estranha para alguns, num contexto em que para todos, era a pandemia da covid-19, uma certeza que começava a espreitar a segurança e a abalar a vida de cada um. De acordo com o que se encontra na página do Priberam, a definição de Infodemia é bastante clara quanto aos riscos que acarreta:

Milhões de conteúdos eliminados

A desinformação e as notícias falsas não são novidade, nem se apresentaram em estreia no palco da pandemia. Bem pelo contrário. Em maio de 2020, já a Comissão Europeia tinha assinalado uma média diária de 2.700 notícias falsas, a circular em rede, sobre a covid-19.

Dois anos antes, Bruxelas tinha avançado com um Código de Conduta Contra a Desinformação. Juntou, neste manual de boas práticas, no sentido de desinfetar as redes sociais da contaminação do vírus das teorias de conspiração, gigantes tecnológicos como o Facebook, o Twitter, a Google e a Microsoft.

Ao longo de 2020, milhões de conteúdos foram eliminados destas plataformas, perante um perigo que uma mentira poderia ter na verdade de uma vida.

"O facto de acreditarem em mentiras torna-se numa dimensão identitária. As pessoas têm hoje um bilhete de entrada nesse clube restrito por acreditarem num disparate qualquer. Seja creditarem que a terra é plana. ou acreditarem que as máscaras. não são úteis no combate ou na prevenção da covid-19. Também tem a ver um pouco com a questão do efeito Dunning-Kruger. As pessoas são demasiado incompetentes para reconhecerem a sua própria incompetência", diz à SIC David Marçal, especialista em comunicação de ciência.

O efeito Dunning-Kruger

David Dunning é um dos responsáveis pelo efeito a que se refere David Marçal. Psicólogo Social, desenvolveu em finais da década de 90 do século passado um estudo, acerca da confiança que as pessoas podem ter, o que sabem e o que não sabem, a ignorância que carregam quando pensam que sabem, mas não sabem.

"O que o efeito Dunning-Kruger mostra é que não sabemos o que não sabemos. A nossa ignorância é invisível para nós. Para quem sofre de ignorância, e somos todos nós em algum momento, e algumas pessoas mais vezes, sofrem de superioridade ilusória. Não conseguem reconhecer quando o seu conhecimento é inferior", diz, numa entrevista à SIC, o psicólogo.

"Saber distinguir um verdadeiro perito de um falso perito também é uma aptidão. E à medida que avançamos na era da Internet, onde há tanta informação, esta vai ser uma aptidão chave que as pessoas devem aprofundar. saber separar um falso perito de um verdadeiro", refere.

Os processos cognitivos que nos levam a acreditar e a disseminar fake news

Atenta a esta realidade, também por cá, a Ordem dos Psicólogos, lançou em 2020 um manual a partir da análise feita à relação entre desinformação, notícias falsas, a pandemia e os processos cognitivos.

"Nós tendemos sempre para eliminar a dissonância cognitiva. E, portanto, o que nós fazemos no caso de um enviesamento de confirmação é preencher tudo, vamos ao encontro e tentamos fazer o retrato que está de acordo com os retratos que já temos", diz à SIC o bastonário da Ordem dos Psicólogos.

"Pensamos para tentar encontrar as provas que temos razão. É algo que todos fazemos. Mas quando estamos, emocionalmente, com um problema psicológico, estamos mais vulneráveis a fazer isso", acrescenta Francisco Miranda Rodrigues.

"Não acreditem na palavra de ninguém. O que importa são as provas e os factos"

À medida que a pandemia avançou, disseminaram-se também nas redes fluxos de teorias, de mentiras, de falácias. Negacionistas e elementos de grupos anti vacinas tornaram-se ativos na tentativa de colocar em causa os factos produzidos pela ciência. Vídeos, textos e fotografias foram usados com o objetivo de alimentar essas mesmas teorias.

Supostos cientistas, médicos - alguns que perderam a licença para exercer, como é o caso do norte-americano Thomas Cowan, autor e médico antroposófico - especialistas e peritos juntaram-se em movimentos para erguer uma alegada verdade, sobre a doença, ou sobe as vacinas.

"Esses especialistas assentam na autoridade que têm: 'acreditem em mim que sou médico'. E a ciência não se baseia nisso. A sociedade científica mais antiga do mundo, a Royal Scociety, tem escrito em latim na porta o seu lema: 'Nullius in Verba', que significa 'não acreditem na palavra de ninguém. O que importa são as provas e os factos", refere David Marçal.

A suposta ligação entre as antenas da rede 5G e o início da pandemia

No caso de Thomas Cowan, bastou uma declaração no início de 2020, para alimentar na rede uma perigosa mentira. "Onde é que surgiu a primeira rede totalmente coberta de 5G? Em Wuhan. Quando pensamos acerca disto, estamos numa crise existencial". A suposta ligação entre as antenas da rede 5G e o início da pandemia levou dezenas, em todo o Mundo, a queimar e a destruir antenas.

Políticos, por exemplo no Reino Unido, vieram a público desmentir estas teorias, conotadas como lixo perigoso. "Existe um aumento de notícias falsas sobre a covid-19, que estão a circular, em particular na internet. E uma onda massiva, a ganhar peso no terreno do medo, da ansiedade e da rapidez de um novo ciclo. Estou preocupada que algumas possam mesmo ferir as pessoas", referiu em março de 2020, a presidente da Comissão Europeia.

Por cá, nessa altura, preparava-se o país para entrar no primeiro confinamento. Durante esse período, o Observatório da Comunicação analisou o fluxo de informação em rede.

"Esta é uma questão coletiva"

Estes grupos que separam a verdade da mentira, que desmontam as falácias, são parte de um todo que tenta repor, a cada instante, a verdade no contexto da atual pandemia. Há depois os governos ou organizações internacionais, atentos a tudo o que se passa.

A própria Comissão Europeia lançou um manual que tenta servir de guia, ou de farol, perante a escuridão que a mentira pode criar. Definiu as características que estas teorias têm em comum: um alegado plano secreto, um grupo de conspiradores, supostos elementos de prova que confirmam a teoria, falsas sugestões de que nada acontece por acaso e tudo está interligado, a divisão entre bons e maus e os bodes expiatórios.

David Dunning, na entrevista que deu à SIC, realça que pouco ou nada o surpreende, "no que diz respeito à imaginação humana em acreditar em coisas falsas". Defende que se deve ouvir vários especialistas e que a ciência deve assentar numa comunicação clara e eficaz, com o recurso a alguém que seja de confiança e que elimine, junto do público, quaisquer dúvidas.

Quanto à forma de se evitar o efeito Dunning-kruger, só mesmo quando alguém se torna especialista. Se assim for, "não tem um nível de desconhecimento que é invisível para si". Algo difícil de se conseguir. Deixa por isso uma sugestão:

"É muito importante consultar outras pessoas, descobrir verdadeiros especialistas e consultá-los. É através de outras pessoas que aprendemos sobre coisas que não sabíamos, que não sabíamos. Isso é muito importante. Esta é uma questão coletiva."

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