Alterações Climáticas

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Ventos a 150 km/h e chuvas intensas: porque os temporais estão a tornar-se mais violentos

O especialista na área das alterações climáticas Filipe Duarte Santos explica como os fenómenos extremos são cada vez mais frequentes e intensos devido ao aquecimento global, que está a alterar a circulação atmosférica no hemisfério norte.

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Três tempestades consecutivas, Ingrid, Joseph e Kirstin, atingiram Portugal numa única semana. A última provocou ventos que chegaram aos 150 quilómetros por hora e causou estragos em todo o país, além de mortes e feridos. Para Filipe Duarte Santos, investigador na área das alterações climáticas, este tipo de sequência de fenómenos extremos é um sinal claro das mudanças em curso no sistema climático.

“Temos que nos preparar para eventos extremos, para temporais, que sempre existiram, mas agora são mais frequentes. Há mais temporais destes em 10 anos do que havia no passado”. 

E não é apenas uma questão de frequência, "há uma tendência para serem mais intensos, com quantidades de precipitação maior e ventos mais fortes”.

"Nós não temos ciclones tropicais, aíos ventos são brutais. Mas ventos de 150 km por hora já são ventos muito fortes. Significa que há uma depressão muito cavada e o rio atmosférico é, evidentemente, essa depressão que vem associada".

O papel do jet stream e do vórtex polar

Grande parte da explicação está na dinâmica da atmosfera no hemisfério norte. 

“No Polo Norte temos ventos que estão rotativos, é um vórtex. E depois temos uma fronteira: o ar no Ártico é muito frio”.

Essa fronteira é conhecida como corrente de jacto, ou jet stream, e é ao longo dela que, habitualmente, se deslocam os temporais mais fortes.

“Portanto, onde estiver o jet stream, estão normalmente os temporais mais fortes. Naquele caso, os temporais estão confinados à parte mais a norte, mas, a certa altura, este vórtex fragmenta-se e estes temporais descem para o sul”.

Quando isso acontece, a corrente de jacto pode manter-se estacionária durante bastante tempo, “e traz uma série de temporais, uns a seguir aos outros”.

Ártico mais quente, tempestades mais a sul

O problema é que o Ártico está a aquecer a um ritmo muito superior ao resto do planeta. 

“A região do Ártico tem um aumento de temperatura que é maior que o aumento global, cerca de duas vezes maior”.

Essa alteração enfraquece a barreira que mantinha o ar frio confinado às zonas polares.

“Portanto, aquele ar frio que estava no passado mais confinado à zona polar agora vem para latitudes mais baixas. E temos temperaturas baixas e depois temos o jet stream nas nossas zonas, que traz estas tempestades umas a seguir às outras”. 

O resultado é que fenómenos que antes afetavam sobretudo o norte da Europa passam a atingir também o sul do continente.

Mais energia no sistema climático

A intensificação dos temporais está diretamente ligada ao aumento da temperatura da superfície do oceano: 1ºC desde 1900, "é uma quantidade de energia brutal”.

“O sistema climático tem muita energia, está zangado por ter essa energia, e dissipa essa energia através desses eventos extremos mais fortes”.

Em Portugal não se formam ciclones tropicais, mas isso não significa que os fenómenos sejam inofensivos.

“Ventos de 150 quilómetros por hora já são ventos muito fortes. Significa que há uma depressão muito cavada e um rio atmosférico associado”.

Inverno de temporais, verão de seca

Filipe Duarte Santos sublinha que a adaptação é inevitável. 

“Temos que nos adaptar a estes fenómenos no inverno e a outros no verão”, diz, lembrando que Portugal atravessou recentemente “praticamente seis anos de seca”. 

O sistema climático global redistribui a energia: enquanto umas regiões enfrentam secas prolongadas, outras são atingidas por chuvas intensas e tempestades sucessivas.

Degelo, petróleo e novas rotas no Ártico

O aquecimento global tem ainda outras consequências, menos discutidas, mas igualmente relevantes. 

“Isso é reversível se a causa do que se está a passar for eliminada”, afirma, referindo-se à necessidade de reduzir as emissões. 

No entanto, alerta que as alterações climáticas estão paradoxalmente a facilitar a exploração de combustíveis fósseis.

Na Gronelândia, por exemplo, “o gelo forma-se, passa a água no estado líquido e depois a água encontra um buraco para onde se escapa e sai ao nível do mar”. Este processo contribui para a subida do nível médio do mar, mas também expõe recursos.

“Na Gronelândia existem grandes depósitos de petróleo. A Gronelândia em si também tem minérios, terras raras”.

Além disso, o degelo abre novas rotas marítimas.: “Agora aparecem rotas que vão desde a Europa até à Ásia, até aos portos de Tóquio”, explica, referindo também uma rota mais próxima da América, embora mais difícil.

A diminuição do gelo flutuante reduz o efeito de espelho que refletia a radiação solar. “A parte que é líquida absorve mais a radiação e aquece toda esta região”, reforçando ainda mais o aquecimento.