Meteorologia

EXPLICADOR

O que é a “ciclogénese explosiva” que atingiu Portugal, como se forma e o que esperar nos próximos dias?

A depressão Kristin atingiu Portugal com ventos que chegaram a quase 150 km/h, provocando mortes, feridos e deixando milhares de pessoas sem eletricidade. O IPMA classificou o fenómeno como “ciclogénese explosiva”, um tipo de tempestade que se tem tornado cada vez mais frequente e tende a ser cada vez mais intensa.

Devido à passagem da depressão Kristin, a roda gigante caiu no Parque das Gaivotas, na Figueira da Foz, 28 de janeiro de 2026.
Devido à passagem da depressão Kristin, a roda gigante caiu no Parque das Gaivotas, na Figueira da Foz, 28 de janeiro de 2026.
PAULO NOVAIS / LUSA

A depressão Kristin deixou um rasto de destruição em todo o país, após uma madrugada marcada por chuva intensa e vento que atingiu os 150 km/h. Há mortes e feridos a lamentar e a queda de árvores e de estruturas provocou fortes constrangimentos na circulação e deixou milhares de habitações sem eletricidade, num inverno que está a ser marcado pela sucessão de várias tempestades em Portugal.

O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) classificou a depressão Kristin como um caso de “ciclogénese explosiva”. Mas em que consiste exatamente este fenómeno? Para esclarecer, segue-se um breve explicador.

O que é a “ciclogénese explosiva”?

Este termo refere-se a um processo em que uma depressão intensifica-se de forma muito rápida devido a uma queda abrupta da pressão atmosférica no seu centro num período de 24 horas. Este fenómeno está associado ao desenvolvimento de ventos muito fortes e chuva intensa, e traduz-se em tempestades de grande energia e impacto.

Pode ser referido como “bomba meteorológica” ou “ciclone-bomba”. Não se trata de um fenómeno novo em Portugal nem no resto do mundo, sendo recorrente, sobretudo durante os meses de outono e inverno. São semelhantes a furacões, mas ocorrem principalmente nas épocas mais frias e com maior frequência sobre os oceanos.

Como se forma este fenómeno?

De acordo com a página da EBSCO, as tempestades formam-se quando massas de ar quente e frio se encontram. A presença de correntes de jacto ("jet stream", em inglês) fortes e correntes oceânicas quentes contribui para a sua formação.

Este fenómeno provoca alterações significativas na pressão atmosférica, que podem originar ventos fortes, precipitação intensa ou mesmo cheias, dependendo das condições de temperatura.

Este tipo de fenómenos tem-se tornado cada vez mais frequente e tende a ser mais intenso, como explicou Filipe Duarte Santos, investigador na área das alterações climáticas, em entrevista à SIC Notícias. Por outro lado, as "ciclogéneses explosivas" são difíceis de prever devido à rapidez com que se intensificam.

Por que razão Portugal está na rota destas tempestades?

Portugal é afetado por estes fenómenos porque se encontra na rota de depressões atlânticas intensas, que se aprofundam rapidamente no Atlântico Norte e provocam a queda brusca da pressão atmosférica típica da "ciclogénese explosiva".

"Nós não temos ciclones tropicais, aí os ventos já são brutais, mas ventos de 150 km/h já são muito fortes, significando que há uma depressão muito cavada", acrescenta Filipe Duarte Santos.

Em território nacional, a rajada de vento com maior intensidade associada à depressão Kristin registada pelo IPMA foi de 149 quilómetros por hora no Cabo Carvoeiro, em Peniche.

Como vai evoluir o estado do tempo nas próximas horas?

O climatologista Mário Marques, em entrevista à SIC Notícias, alertou que, apesar de o pior da depressão já ter passado, ainda se registam ventos fortes com rajadas de até 100 km/h entre a Figueira da Foz e Sines, no “olho” do sistema.

O especialista destacou também o risco de agitação marítima, com ondas que podem atingir entre 8 e 8,5 metros na região de Lisboa, descendo para seis metros no final do dia, afetando igualmente a Costa Vicentina.

A depressão trouxe ainda neve e há risco de degelo rápido, com subida das temperaturas mínimas, o que aumenta o perigo de inundações nos rios durante a madrugada seguinte.

E nos próximos dias?

Prevê-se um desagravamento gradual do tempo em grande parte do país, com melhoria progressiva e períodos de céu mais limpo, apesar de alguns aguaceiros no sábado.

O climatologista Mário Marques ressalvou que, embora haja três dias de relativa trégua, sobretudo nas regiões do sul e centro, o início da próxima semana poderá trazer novo agravamento meteorológico devido à entrada de novas depressões.