Cimeira do Clima COP26

COP26: a sombra da China nas negociações sobre o clima

Cidade de Urumqi na China.

Ng Han Guan / AP

A China é o maior produtor mundial de carvão e o maior poluidor do mundo.

A China é o maior produtor mundial de carvão e o maior poluidor do mundo - é responsável por mais de um quarto das emissões globais de gases com efeito de estufa, de acordo com o Global Carbon Atlas.

É o país que sozinho constrói mais fábricas que utilizam este combustível fóssil mas também é o que mais investe em energias alternativas.

Garantiu que irá reduzir as emissões de gases com efeito de estufa antes de 2030 e alcançar a neutralidade carbónica em 2060, mas não anunciou nenhum plano para atingir essa meta.

Prometeu legislação mais rígida contra as empresas poluidores mas entretanto as centrais a carvão multiplicam-se.

A China está a cumprir o prometido?

O Presidente Xi Jinping prometeu que a China começaria "proressivamente a reduzir" a utilização da energia a carvão a partir de 2026, mas os últimos relatórios dão conta de um aumento da produção diária de carvão com a recente autorização para as minas aumentarem a capacidade de extração.

Em comunicado a 19 de outubro de 2021, a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reformas (NDRC) anunciou que a China atingiu "recentemente" um recorde diário de 11,5 milhões de toneladas de carvão.

Mais de 150 minas foram autorizadas em setembro de 2021 a aumentar a capacidade de produção em 220 milhões de toneladas por ano. Em comparação com a produção total da China em 2020 (3,84 mil milhões de toneladas), este é um aumento de 5,7%.

Porque a China não abandona o carvão?

Com milhares de milhões de habitantes, a China é completamente dependente deste combustível fóssil poluente. A crise energética só vem agravar esta dependência.

  • Segurança energética:

Cerca de 60% da eletricidade na China é produzida a partir do carvão.

Em 2020, a China tinha centrais termoelétricas a carvão que podiam produzir 38,4 gigawatts (GW) de eletricidade. O triplo da capacidade instalada nesta área naquele ano no resto do mundo. Um gigawatt é a potência de um reator nuclear.

Estes são dados da organização americana Global Energy Monitor (GEM), que estuda todos os projetos de energia a partir de combustíveis fósseis.

  • Postos de trabalho

Dos seis milhões de mineiros de carvão da China, mais de um terço perdeu o emprego com o encerramento de minas.

O medo do desemprego em massa e o risco de agitação social forçaram Pequim a suspender as suas metas de redução de emissões.

  • Desequilíbrio da oferta

A maior parte das energias "limpas" (eólica, solar e hidroelétrica) é produzida no extremo oeste da China. As regiões mais dinâmicas para a economia e, portanto, as que mais precisam de energia, estão localizadas no leste.

E o grande problema da China é que não tem linhas de alta tensão para transportar a eletricidade verde de um lado do país ao outro.

  • Mercado do carbono

Pequim lanço em julho deste ano o seu primeiro mercado de carbono - a primeira vez que são estabelecidos limites de poluição às empresas na China.

Caso as empresas não conseguirem cumprir as quotas, têm de comprar o "direito de poluir" a outras empresas com menor pegada de carbono..

Para muitos observadores internacionais, o preço desta quota na China é muito baixo (6€) em comparação com o da União Europeia (cerca de 30€) ou da Califórnia (cerca de 14€).

  • Sistema de quotas energéticas

No sistema em vigor na China, há quotas energéticas que obrigam a que as empresas estatais comprem eletricidade produzida por carvão, mesmo que as energias renováveis ​​sejam agora mais baratas

Sob pressão da indústria, os esforços para modificar ou abolir e este sistema e a legislação para endurecer as regras para os setores mais poluentes, como o aço e o cimento estão paralisados ​​há quase dez anos.

Como a China pode cumprir o prometido

Para que a China possa respeitar os objetivos assumidos, 90% da sua produção energética terá de vir do nuclear ou das renováveis até 2050, segundo especialistas da Universidade Tsinghua em Pequim. Atualmente, esse valor está em 15%.

O país tem mais de um terço dos parques eólicos e solares do mundo e a produção de energia renovável custa agora menos do que o carvão. Mas o lóbi do carvão continua forte e os fornecedores de energia continuam hesitantes sobre a ideia de aumentar a parcela de energia verde.

Pequim comprometeu-se a investir em redes inteligentes e no armazenamento de energia nos próximos cinco anos e permitir a instalação de centrais solares e eólicas nas áreas remotas do oeste para alimentar as fábricas da costa leste.

  • Veículos elétricos

Um quarto das emissões de gases com efeito de estufa da China vem dos transportes.

Pequim tem investido na promoção de alternativas mais limpas e, atualmente, 5% dos carros vendidos na China são elétricos ou híbridos e a maioria das cidades tem milhares de estações de recarga.

Os transportes públicos também têm vindo a mudar com o investimento em estradas eletrificadas para veículos inteligentes que estão a ser onstruídos.

  • Energia nuclear

O investimento em energia nuclear também está a aumentar: nos próximos 15 anos, a China quer instalar pelo menos 200 GW de produção nuclear, ou seja, mais do que a capacidade existente em França e nos Estados Unidos, os dois países com maior potência nuclear do mundo.

No decénio 2011-2020, a China concentrava 25 dos 57 reatores em construção oficialmente registados no mundo.

  • Reflorestação

Nos últimos 30 anos foram plantadas na China mais de 40 mil milhões de árvores, criando sumidouros de carbono que podem absorver parte das emissões de gases poluentes. Atualmente, mais de 22% do território chinês está agora coberto por florestas, contra 12% em 1978.

No entanto, está a ser plantada uma única espécie, tornando as florestas mais frágeis em caso de seca ou pragas.

Cheias no centro da China - julho de 2021

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