Coronavírus

Ensaios clínicos com plasma de doentes recuperados da covid-19 vão arrancar em Portugal

Zoltan Balogh / EPA

Há resultados promissores em ensaios na China e em Itália, mas é uma terapêutica que não servirá para todos os doentes.

Especial Coronavírus

Ensaios clínicos com plasma de sangue de doentes recuperados da covid-19 vão arrancar este mês em 10 unidades distribuídas pelo país, revelou o Instituto Português do Sangue e da Transplantação (IPST).

Depois de a diretora-geral da Saúde, Graça Freitas, ter anunciado na semana passada a criação de uma “task force nacional” para realizar um ensaio clínico alargado para perceber se o uso de plasma humano é seguro no tratamento da infeção pelo SARS-CoV-2, o coronavírus que provoca a covid-19, o IPST já avaliou as capacidades técnicas e logísticas existentes nos serviços de imuno-hemoterapia para a colheita por aférese, um procedimento que permite separar os diferentes componentes do sangue.

“Não só os três Centros de Sangue e Transplantação do IPST - Lisboa, Porto e Coimbra - realizarão esta colheita, como também três serviços de imuno-hemoterapia na região Norte, um na região Centro e três na região Sul”, afirmou a presidente do Conselho Diretivo do IPST, Maria Antónia Escoval, em resposta enviada à Lusa.

Além da identificação destes 10 serviços, o IPST garantiu já ter definido um procedimento e “as diretrizes para a seleção de dadores, colheita, análise, processamento, armazenamento e distribuição de plasma convalescente” aos serviços dos hospitais, onde os médicos e as equipas prescritoras vão ter a responsabilidade da realização dos ensaios.

Enfermeira de hospital em Barcelona mostra o plasma doado para um ensaio clínico em Espanha.

Enfermeira de hospital em Barcelona mostra o plasma doado para um ensaio clínico em Espanha.

ENRIC FONTCUBERTA / EPA

“Durante o mês de maio proceder-se-á ao recrutamento voluntário de doentes convalescentes e à sensibilização dos mesmos através dos médicos assistentes”, esclareceu Maria Antónia Escoval, acrescentando que “em simultâneo, um grupo de trabalho, no âmbito do Ministério da Saúde, definirá os critérios mínimos de inclusão e exclusão dos doentes para entrarem em ensaios clínicos”.

Resultados promissores nos ensaios em Itália e na China

Ensaios com plasma humano para tratar doentes com covid-19 já tiveram lugar na China e em Itália, denotando resultados promissores, apesar do âmbito restrito dos mesmos.

Em Portugal, o arranque do ensaio vai ser feito através de um apelo aos doentes recuperados para a dádiva - embora o IPST tenha admitido que “não é a única” solução disponível –, sendo que a demonstração de vontade de participação poderá ser feita pela internet.

Benefícios parecem superar os riscos

Questionada sobre a existência de riscos associados à transfusão de plasma convalescente para doentes com covid-19, como um hipotético aumento do risco de infeção reportado em casos raros no tratamento de outras patologias, a presidente do Conselho Diretivo do IPST vincou que “os benefícios parecem superar os riscos” e que a minimização destes riscos “está associada à seleção dos dadores”.

No lançamento dos ensaios clínicos com plasma anunciados pela Direção-Geral da Saúde (DGS) estão ainda envolvidos o Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA) e o Infarmed. Questionadas pela Lusa sobre o papel a assumir neste processo, as duas entidades remeteram por agora quaisquer explicações para o IPST, ao qual foi atribuída a coordenação do ensaio.

Um "passo intermédio" até à vacina

A utilização de plasma de doentes recuperados da covid-19 em casos de pacientes com sintomas moderados ou graves é vista pelo pneumologista Filipe Froes como um "passo intermédio" até ao desenvolvimento de uma vacina.

"O que pretendemos é disponibilizar uma terapêutica promissora, enquadrada num contexto de avaliação de eficácia e de toxicidade. Neste momento, só é legítimo fazer estas terapêuticas englobadas em protocolos clínicos e investigacionais que garantam duas premissas essenciais: monitorizar a eficácia comparativamente com não fazer isto e monitorizar a segurança em termos de toxicidade e riscos", afirmou à Lusa o membro da 'task force' da Direção-Geral da Saúde (DGS).

Para Filipe Froes, um eventual tratamento com plasma convalescente na ausência de um medicamento ou vacina especificamente criados para a covid-19 surge como mais uma etapa no travão da pandemia.

"O ideal será o desenvolvimento de um fármaco específico e o futuro, provavelmente, passará pela vacina. A utilização do plasma será um passo intermédio até ao desenvolvimento desses dois grandes avanços: o fármaco específico e a vacina, que, provavelmente, será o fator decisivo e terminal da pandemia", sublinhou, enfatizando ainda a importância deste ensaio pela possibilidade de "abrir todo um campo de investigação" para o futuro.

Não é uma terapêutica para todos os doentes

Paralelamente, a diretora do Laboratório de Imunologia Clínica no Instituto de Medicina Molecular, Ana Espada de Sousa, explicou à Lusa que o recurso ao plasma de doentes recuperados "nunca será uma terapêutica para todos os doentes", por ter "objetivos muito específicos" e uma "janela de oportunidade" limitada aos casos moderados ou graves.

"Nas fases muito deterioradas, em que o processo [inflamatório] já esteja muito estabelecido, se calhar já há muitas lesões e não é tão útil. Por isso, são os doentes moderados ou graves e não os extremamente graves [a receber o tratamento com plasma] , porque nesses casos poderá já haver uma deterioração de outros processos a contribuir para a doença e que não seja tanto por ação direta do vírus", observou.

De acordo com a médica imunologista, a recolha de mais dados neste ensaio alargado é essencial para determinar que se trata de "uma terapêutica segura e eficiente", acautelando eventuais complicações e estabelecendo parâmetros numa relação risco-benefício para os doentes.

"Em alguns casos raros está descrito que os próprios anticorpos possam agravar o processo inflamatório. Embora seja muito raro, é uma questão que tem de se ter presente. Os doentes que têm insuficiência respiratória e em que o quadro clínico da covid-19 é mais grave associam-se, muitas vezes, processos inflamatórios exagerados e é esse o risco que pode existir", alertou.


Mais 16 mortes e 540 casos de Covid-19 em Portugal

A Direção-Geral da Saúde (DGS) anunciou esta quinta-feira a existência de 989 mortes e 25.045 casos de Covid-19 em Portugal.

O número de óbitos subiu, de quarta para quinta-feira, de 973 para 989, mais 16 - uma subida de 1,6% -, enquanto o número de infetados aumentou de 24.505 para 25.045, mais 540, o que representa um aumento de 2,2%.

O número de casos recuperados subiu de 1.470 para 1.519.

230.309 mortos e mais de 3,2 milhões de infetados em todo o mundo

A pandemia do novo coronavírus já matou 230.309 pessoas e infetou 3.218.410 em 195 países e territórios, segundo um balanço da agência AFP.

Entre esses casos, pelo menos 922.900 são hoje considerados curados.

Desde a contagem realizada às 19:00 TMG de quarta-feira, 5.867 novas mortes e 79.155 novos casos ocorreram em todo o mundo.

Os países com mais óbitos são os Estados Unidos, com 2.271 novas mortes, o Reino Unido (614) e o Brasil (449).

Os Estados Unidos, que tiveram a sua primeira morte ligada ao coronavírus no início de fevereiro, são o país mais afetado em termos de número de mortes e de casos, com 61.717 mortes e 1.054.261 casos.

Pelo menos 124.979 pessoas foram declaradas curadas pelas autoridades norte-americanas.

Depois dos Estados Unidos, os países mais afetados são a Itália, com 27.967 óbitos e 205.463 casos, o Reino Unido, com 26.711 mortes (171.253 casos), a Espanha, com 24.543 mortes (213.435 casos) e a França, com 24.376 mortos (167.178 casos).

Entre os países mais atingidos, a Bélgica é o que apresenta maior número de óbitos em comparação com a sua população, com 66 mortes por cada 100.000 habitantes, seguida pela Espanha (52), Itália (46), Reino Unido (39) e França (37).

A China (excluindo os territórios de Hong Kong e Macau), onde a epidemia começou no final de dezembro, contabilizou oficialmente um total de 82.862 casos (quatro novos casos entre quarta-feira e hoje), incluindo 4.633 mortes (0 novas) e 77.610 curas.

Desde quarta-feira, às 19:00 TMG, as Maldivas e o Iémen anunciaram as primeiras mortes relacionadas a vírus, enquanto Comores e Tajiquistão anunciaram o diagnóstico dos primeiros casos.

A Europa totalizava às 19:00 TMG de hoje 137.714 mortes e 1.468.718 casos, os Estados Unidos e o Canadá 64.960 mortes (1.107.276 casos), a América Latina e Caraíbas 10.642 mortes (203.429 casos), a Ásia 8.557 mortes (221.273 casos), o Médio Oriente 6.705 mortes (172.294 casos), África 1.614 mortes (37.354 casos) e a Oceânia 117 mortes (8.071 casos).