Coronavírus

Covid-19. Novas restrições serão a nível territorial e mais circunscritas

Rafael Marchante

Imposição de recolher obrigatório está para já descartada

Especial Coronavírus

O secretário de Estado Adjunto e da Saúde defendeu esta quinta-feira que as novas restrições para combater a pandemia de covid-19 no país serão a nível territorial e mais circunscritas, num modelo que ainda terá que ser estabilizado.

A dois dias de se realizar um Conselho de Ministros extraordinário (sábado) para definir as medidas de controle da pandemia, o governante afirmou que "todos os países vão começar a adotar medidas de restrições ao nível territorial, mais circunscrito".

RODRIGO ANTUNES

"E essas restrições serão com certeza ao nível mais dos territórios, para que outros territórios que não estão tanto sobre pressão possam respirar do ponto de vista económico e social", admitiu António Lacerda Sales numa entrevista ao 'podcast' Política com Palavra do Partido Socialista.

Questionado se o Governo optará por ações localizadas ou se admite restrições nacionais como um novo confinamento geral, Lacerda Sales disse que "todos os países da Europa estão neste momento a tentar estabilizar num determinado modelo que pode comportar muitas variáveis".

Enumerando que essas variáveis são a incidência de casos nos últimos 14 dias, os novos casos confirmados por 100 mil habitantes, as faixas etárias mais atingidas ou a pressão sobre os hospitais, defendeu que o que é preciso é "estabilizar num determinado modelo e obviamente que quanto mais uniforme conseguir ser esse modelo (...) maior segurança e maior confiança será dada às populações".

Confrontado se esse modelo será de base concelhia ou distrital, o secretário de Estado disse apenas que deve ter "o consenso da grande maioria dos intervenientes" das áreas da saúde, proteção civil, das autarquias ou segurança social.

Imposição de recolher obrigatório está para já descartada

Ao que a SIC apurou, a imposição de recolher obrigatório está para já descartada, mas o Executivo quer avançar com os chamados mapas de risco em todo o país. Uma medida que pode determinar a necessidade de confinamentos parciais, sempre que o nível de risco justifique.

A ideia é aplicar um sistema idêntico ao que regulou o acesso às praias durante o verão. Uma espécie de “mapa de risco” que vai dividir o país e determinar medidas adequadas a cada patamar. Ao que a SIC apurou, os níveis de risco serão definidos em função do número de novos infetados com covid-19 dos últimos 14 dias e do número de internamentos em enfermaria e em cuidados intensivos.

"Não se façam sobreavaliações de determinadas situações e por outro lado subavaliações noutras situações"

Na quarta-feira, o presidente da Área Metropolitana do Porto pediu ao Governo que decrete o Estado de Emergência, generalizando as medidas a todo o país e o presidente da Comissão Distrital da Proteção Civil do Porto propôs o recolher obrigatório no distrito.

Confrontado com estes pedidos, Lacerda Sales reiterou a necessidade de "estabilizar o modelo e uniformizar o modelo para que não haja grandes discrepâncias, quer entre concelhos quer entre distritos".

Pediu, no entanto, que "não se façam sobreavaliações de determinadas situações e por outro lado subavaliações noutras situações".

"Penso que as medidas têm que se adaptar aquilo que é em cada região a própria evolução e os próprios dados epidemiológicos", resumiu.

CONSELHO DE MINISTROS DECIDE NO SÁBADO

Além do Conselho de Ministros extraordinário de sábado, o primeiro-ministro marcou para sexta-feira reuniões com os partidos.

No final do dia de quarta-feira, uma nota do gabinete da ministra de Estado e da Presidência adiantava que Mariana Vieira da Silva e a ministra da Saúde, Marta Temido, iriam realizar uma audiência com os peritos habitualmente auscultados nas chamadas "reuniões do Infarmed" seguida de uma reunião com médicos especialistas em infecciologia e medicina intensiva.

Fonte do Governo tinha anteriormente adiantado à agência Lusa que, perante a evolução da pandemia em Portugal nas últimas semanas, a ministra da Saúde, Marta Temido, e a ministra de Estado e da Presidência, Mariana Vieira da Silva, estavam já a ouvir um conjunto de epidemiologistas.

O ministro de Estado da Economia e Transição Digital, Pedro Siza Vieira, esteve a ouvir parceiros sociais.

Ainda no âmbito do combate à covid-19, o primeiro-ministro participará hoje num Conselho Europeu extraordinário, por videoconferência.

Atingido novo máximo diário de infeções em Portugal

Na quarta-feira, foi atingido um novo máximo diário de casos de infeção em Portugal - 3.960 - e o número de pessoas hospitalizadas continua a subir há mais de uma semana, sendo agora 1.794 pessoas, mais 47 do que na terça-feira, e destas 262 (mais nove) estão em Unidades de Cuidados Intensivos.

De acordo com o último boletim epidemiológico da Direção-Geral de Saúde, Portugal já contabilizou 128.392 casos confirmados de infeção pelo novo coronavírus e 2.395 óbitos.

"Se não começarmos já a ter cautelas, situação será muito complicada para a semana"

A pneumologista Raquel Duarte alertou que é necessário um "travão muito sério na pandemia", prevendo um cenário complicado se isso não acontecer. Por isso, apelou a medidas restritivas no comportamento social e familiar.

"Se pretendermos pôr um travão no crescimento desta curva, a única forma é nós cortarmos a nossa cadeia de transmissão, a forma como socializamos com os nossos amigos, no local de trabalho, com os nossos colegas de trabalho, com os nossos familiares", disse a pneumologista.

Raquel Duarte lembrou ainda que nas últimas semanas surgiram surtos em casamentos, batizados e festas, onde as pessoas "de forma errada" associam a família distante "à bolha social que devia ser pequena, de 4 ou 5 pessoas". "Se não começarmos já a ter cautelas necessárias, vamos ter uma situaçao muito complicada para a semana", afirmou.