Mariana Mortágua e Pedro Nuno Santos estiveram frente a frente esta sexta-feira na RTP, onde, entre críticas à maioria absoluta, ambos conseguiram concordar no que é preciso "salvar" no país, nomeadamente no SNS. Já a respeito das privatizações e da habitação, existe uma distinção de prioridades. Paira no ar a dúvida sobre um acordo escrito pós-eleitoral.
O debate começou com o "elefante na sala": a potencial existência de um acordo entre dois líderes que, antes, conseguiram estar em parceria durante quatro anos para quais olham com alguma saudade.
O Bloco de Esquerda já exigiu um acordo escrito, caso aconteça, mas o Partido Socialista ainda não equaciona essa possibilidade, estando em busca do "melhor resultado possível".
"Se fosse para fazer acordo pré-eleitoral teríamos feito coligação. Cada partido está a defender o seu programa, mas quero mobilizar os portugueses para o PS ter uma vitória no dia 10 de março", assumiu Pedro Nuno Santos.
A respeito do apelo ao voto útil que já fez, no debate com o Livre, o secretário-geral do Partido Socialista negou essa interpretação.
"Fiz um apelo ao voto no PS, quero que o PS tenha o melhor resultado possível. Entre Bloco de Esquerda e Partido Socialista, prefiro que votem no PS. Neste momento, trabalhar em conjunto com o BE não seria novidade, os quatro anos são de boas memórias para os portugueses e fizemos grandes avanços, quando alguém olha para mim sabe que há disposição para construir uma solução de Governo que não exclua o BE", esclareceu.
Para Mariana Mortágua existe uma responsabilidade conjunta dos dois líderes em apresentarem uma solução aos eleitores a dia 10 de março, com que possam contar, sendo a maioria absoluta uma inviabilidade.
"Eu e o Pedro Nuno Santos temos uma responsabilidade: apresentar ao país uma solução de estabilidade, para virar página da maioria absoluta. Tem de haver a certeza de que há soluções para as grandes preocupações das pessoas que mobiliza para o voto. Os acordos são escritos é assim que funciona a democracia. Há um problema no SNS e quero resolve-lo com propostas concretas", respondeu a coordenadora do Bloco de Esquerda.
Tendo isto em conta, Pedro Nuno Santos acrescentou que “sempre” defendeu acordos escritos.
Justiça
Mais uma vez, o debate foi também ditado pela atualidade, sendo que o país se encontra no meio de várias investigações que já derrubaram dois governos: o da República e o da Madeira.
Esta sexta-feira, a Procuradora Geral da República emitiu um comunicado a explicar a libertação dos três arguidos que estiveram 21 dias detidos.
Para Pedro Nuno Santos, essa ação foi positiva.
“Desde logo foi positivo que a PGR tivesse dado explicações sobre um caso que teve grande atenção mediática e que suscitou dúvidas. Acho importante que a PGR perceba que tenha de dar esclarecimentos ao público, ao país, pois caíram em pouco espaço de tempo dois governos”, relembrou o líder socialista.
Mariana Mortágua também respondeu que mantém a sua confiança na Justiça e reconheceu a importância das explicações dadas pela PGR. No entanto…
“É incompreensível haver uma detenção de 21 dias sem resposta do Tribunal, tal como em Portugal 20% são prisões preventivas. Há questões de morosidade da Justiça com meios, investigação, condições de trabalho, mas há também que garantir o acesso, não pode haver Justiça para ricos e pobres”, considerou.
Pedro Nuno Santos concordou com a visão, afirmando que “é sempre tempo de fazer uma reforma de qualquer área, incluindo a Justiça”.
Privatizações/Nacionalizações
Este tema já não foi novidade num debate com a presença do Bloco de Esquerda, que pretende reverter muitas das que foram feitas pelo impacto que consideram que tiveram no país.
“As privatizações em Portugal foram um desastre, perdemos a Portugal Telecom e foi entregue à Altice, cujo CEO foi detido. Não há soberania estratégica sem capacidade do Estado para ter empresas que são centrais para a capacidade de criar polos tecnológicos. A prioridade do BE centra-se na REN, porque é quem gere a estrutura elétrica nacional. Não faz sentido que a estrutura elétrica pertença ao Estado Chinês. Controlo nos CTT, o serviço é mau não faz nenhum sentido. EDP e Galp não são uma prioridade para esta legislatura”, referiu a líder bloquista.
E é aqui onde as diferenças começaram a aparecer, mas sempre sem grandes discórdias evidentes.
“Fui sempre grande crítico das privatizações, mas o que vai lá atrás, lá vai. Nós precisamos capacidade de financeira e isso, para nós, não é uma prioridade, nem está no horizonte reverter as privatizações, não podemos estar a desconstruir e andar para trás, temos de olhar para a frente”, realçou Pedro Nuno Santos.
Caso este ponto seja uma “linha vermelha” para uma eventual negociação com o Bloco de Esquerda, Pedro Nuno Santos disse que se parte sempre para negociações com abertura.
Saúde
O calcanhar de aquiles do Partido Socialista é mais uma vez evidenciado num debate, e Mariana Mortágua aproveitou para o realçar enquanto consequência de uma maioria absoluta.
“O problema é que os privados estão a drenar os fundos do SNS que deviam ser para reforçar o SNS. A estratégia da maioria absoluta falhou, escolheu não recrutar novos profissionais e criar condições para os manter e por isso tem um SNS dependente de horas extras ilegais. É preciso encontrar soluções para reter, manter e encontrar profissionais”, expôs.
Pedro Nuno Santos, por sua vez, tentou encontrar uma ponte entre os dois partidos neste tema.
“Nós temos uma preocupação comum e não tenho a menor dúvida que o BE e o PS querem investir no SNS", disse.
Mas, depois, o líder socialista evidenciou como as propostas do BE para o SNS e valorização das carreiras foram aprovadas pelo Executivo nos últimos anos.
Habitação
Mais um tema estrutural que foi colocado em cima da mesa, para o qual o BE tem algumas medidas que são pouco comuns aos outros partidos.
O Bloco de Esquerda gostaria de ter a Caixa Geral de Depósitos a baixar as taxas de juro para as pessoas.
"A questão da Habitação tornou-se a maior crise em Portugal, mais uma área em que a maioria absoluta não conseguiu resolver, é preciso tetos às rendas, diminuir a pressão do excesso de AL nos centros da cidades", referiu.
A medida da Caixa Geral de Depósitos criou uma grande cisão entre os dois líderes
“Não, não pode. A medida não é possível e é regressiva, porque os mil milhões de euros de lucro são de todos os portugueses e dividendos que o Estado pode utilizar para habitação, para todos os portugueses. Isso não quer dizer que não haja um problema. Um acionista público ou privado não pode dar orientações sobre o modelo de risco dos Bancos, não pode dizer ”baixa o spread", pode dizer que deseja que haja uma política de crédito generosa", explicou o líder socialista.
Para Pedro Nuno Santos, o “Bloco de Esquerda diagnostica o problema, mas não apresenta boas soluções”.
“Nós temos posições mais equilibradas que o BE, queremos atuar do lado da oferta a investir no parque público de habitação e que o privado também o faça, na procura queremos criar um teto, a porta 65, com uma forma de atualização das rendas com atualização salarial e não só com a inflação”, enumerou o líder do PS.
Defesa
Ainda com tempo para mais um tema, ambos os chefes de cada partido defenderam a importância da pasta da Defesa, Pedro Nuno Santos na perspetiva do compromisso “importante” que Portugal tem com a NATO e que deve cumprir e Mariana Mortágua a nível da melhor cooperação dos países europeus para ganhar autonomia.
"Queria louvar Navalny pela coragem de defender as suas convicções", acrescentou Pedro Nuno Santos.
Tendo a última palavra, Mariana Mortágua deixou um aviso.
“Não vai haver uma maioria absoluta e a única opção é haver entendimento com a esquerda para virar a página da maioria absoluta nos temas da Saúde, nos Salários e é só essa força que pode mobilizar o voto”, concluiu.