Eleições no Brasil

Analfabetismo, canibalismo, aborto e diabo marcam campanha no Brasil

Analfabetismo, canibalismo, aborto e diabo marcam campanha no Brasil
Andressa Anholete

Um resumo da semana de campanha para a segunda volta das eleições brasileiras.

A primeira semana da campanha da segunda volta das presidenciais brasileiras ficou marcada por acusações de canibalismo, defesa da vida contra o aborto, ligações de analfabetismo com voto e até a denúncias de pactos com o diabo.

No primeiro vídeo de campanha desta semana de Lula da Silva, divulgado hoje, o ex-presidente negou ser a favor do aborto e relembrou que foi no seu Governo que foi instaurada a lei da liberdade religiosa, numa tentativa de agregar o voto mais conservador e evangélico e contrapor as constantes acusações da campanha de Jair Bolsonaro que o acusa de querer fechar igrejas, de ser contra a família, de defender o aborto e de querer liberalizar drogas.

"Não só eu sou contra o aborto como as mulheres com quem eu casei são contra o aborto. Eu acho que quase todo mundo é contra o aborto. Não só porque nós somos defensores da vida, mas porque deve ser uma coisa muito desagradável e dolorosa alguém fazer um aborto", disse Lula da Silva.

Jair Bolsonaro foi rápido a responder e reagiu na rede social Twitter:

"Lula agora tenta dizer que é contra o aborto, enquanto é apoiado por quem defende, que é cristão, enquanto é apoiado por quem odeia igreja, que é contra as drogas, enquanto é apoiado por quem é a favor".

A campanha de Lula da Silva tem-se tornado mais agressiva nas redes sociais, campo que costumava ser predominantemente para os apoiantes do Presidente brasileiro, que assim conseguiam dominar este segmento importante de uma campanha.

Uma entrevista datada de 2016, ao New York Times, começou a ser partilhada em força pelos progressistas em que Jair Bolsonaro relata a sua ida ao estado mais a norte do Brasil, Roraima, mais famoso por integrar parte da floresta amazónica.

Nesta entrevista, Bolsonaro, na altura deputado federal, afirmou que "comeria um índio sem problema nenhum".

"É para comer. Cozinha por dois ou três dias e come com banana. Eu queria ver o índio sendo cozinhado. Daí o cara: 'se for, tem que comer'. Eu como! Aí a comitiva, ninguém quis ir. Eu comeria um índio sem problema nenhum", declarou, referindo-se à visita que fez ao estado "há uns oito, nove anos".

Neste vídeo é ainda possível ouvir Bolsonaro a dizer que viu mulheres a oferecerem sexo "sem higiene nenhuma".

Estes trechos do vídeo, juntamente com imagens do Presidente brasileiro a usar um tripé de uma Cameira para simular uma metralhadora, uma discussão com uma deputada federal e ainda a rir-se da covid-19, foram utilizados pela campanha de Lula.

Na quinta-feira, foi a vez do analfabetismo. A região do nordeste brasileiro, que votou de forma massiva em Lula da Silva na primeira volta das eleições no domingo, foi numa primeira fase atacada pelos apoiantes de Bolsonaro, como recordou à Lusa, no início da semana, o professor permanente do programa de pós-graduação em ciência política e do programa de pós-graduação em comunicação da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Emerson Urizzi Cervi.

"Registei um comportamento de 'bolsonoristas' muito negativo em relação ao nordeste, inclusive um comportamento bastante xenofóbico e preconceituoso", disse.

Apesar do comportamento ter mudado ao longo da semana por parte da campanha de Bolsonaro, que vê o estado da Bahia como fundamental para vencer as eleições, com operações de charme aos nordestinos, Lula da Silva atacou Bolsonaro por associar o analfabetismo com o voto para as forças de esquerda.

O antigo presidente referiu-se a uma declaração de Bolsonaro, na qual salientou que o seu adversário político era o candidato mais votado em "nove dos 10 estados com a maior taxa de analfabetismo", todos no nordeste do país.

"Ontem a genocida fez uma declaração [dizendo] que as pessoas do nordeste votam em mim porque as pessoas do nordeste são analfabetas", disse Lula da Silva.

Por fim, esta semana ficou ainda marcada pela chegada do diabo ao jogo político: "Lula não tem pacto nem jamais conversou com o diabo" e "Lula acredita em Deus e é cristão", foram algumas das mensagens partilhadas nas redes sociais do ex-presidente brasileiro, na sequência de notícias falsas lançadas por grupos pró-Bolsonaro.

O candidato que recebeu mais votos no domingo passado na primeira volta das eleições foi assim "obrigado" a negar falsas denúncias acusando-o de ter "um pacto com o diabo".

Bolsonaro foi também associado ao diabo: no centro de uma enorme agitação social entre os "bolsonaristas", com um vídeo antigo, aparentemente de 2018, no qual aparece a discursar num templo maçónico.

No altar onde Bolsonaro fala, há imagens e símbolos da Maçonaria, que os católicos e os evangélicos associam frequentemente a Satanás.

Lula da Silva ganhou a primeira volta das eleições com 48,4% dos votos, enquanto Bolsonaro ficou por 43,2%.Ambos competirão pela presidência numa segunda ronda em 30 de outubro

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