As presidenciais deste domingo deverão ser as primeiras em 40 anos a exigir a realização de uma segunda volta eleitoral. Todas as sondagens, estimativas e análises políticas indicam que a 18 de janeiro nenhum dos candidatos terá maioria absoluta. A 26 de janeiro de 1986, Portugal ia às urnas para escolher o primeiro Presidente civil. Esta foi a última vez em que a corrida a Belém obrigou a um segundo escrutínio. O que aconteceu, quem eram os candidatos e como se disputavam as eleições nessa altura? O que mudou desde então e o que permanece quando Portugal é novamente chamado a escolher o Presidente da República?
Foi um processo eleitoral que marcou a História da democracia portuguesa. O país acabava de entrar na então CEE, Comunidade Económica Europeia, antecessora da atual União Europeia. Portugal vivia um tempo de mudança. Tinha passado pouco mais de uma década do 25 de Abril, o contexto político era ainda muito marcado pela Revolução dos Cravos e a economia recuperava lentamente de quase 50 anos de ditadura e estava à beira do impulso dado pelos fundos europeus.
Quem foram os candidatos em 1986?
Na corrida a Belém de 1986 houve apenas quatro candidatos, muito longe dos atuais onze. Disputaram a eleição Mário Soares, Diogo Freitas do Amaral, Francisco Salgado Zenha e Maria de Lourdes Pintasilgo.
Ângelo Veloso, apoiado pelo PCP, retirou a candidatura pouco antes da eleição para apoiar Salgado Zenha. Contudo, o boletim de voto incluía o seu nome. Também nas atuais presidenciais, o boletim de voto das Presidenciais tem mais nomes para além dos 11 que estão efetivamente na corrida eleitoral.
Francisco Salgado Zenha, jurista e histórico da oposição democrática ao Estado Novo. Ministro da Justiça nos primeiros governos pós-25 de Abril, foi fundador, militante, dirigente e deputado do PS até 1985, ano em que anunciou a candidatura à presidência da República.
Após sair do PS por divergências com Mário Soares, Salgado Zenha candidatou-se a Belém. Apesar de independente, contou com o apoio de alguns setores do PCP e do Partido Renovador Democrático (PRD), ligado ao general Ramalho Eanes, primeiro Presidente democraticamente eleito após a revolução, que exerceu dois mandatos de 1976 a 1986.
Zenha tinha sido colaborador e amigo de Mário Soares desde a Faculdade de Direito, mas a rutura aconteceu antes das presidenciais. Manteve sempre uma relação próxima com o general Eanes.
Maria de Lourdes Pintasilgo foi a primeira e única mulher a chefiar um governo em Portugal, deixou um legado pioneiro na política portuguesa. Nas presidenciais de 1986 foi apoiada por uma coligação de independentes, socialistas e outras forças de esquerda. Não teve o apoio de nenhum partido, aliás nunca teve nenhuma filiação partidária, embora o posicionamento ideológico de centro-esquerda tenha sido evidente nas suas prioridades naquele que ficou conhecido por "Governo de Salvação Nacional", que liderou entre 1979 e 1980.
Pintasilgo foi nomeada pelo Presidente da República, Ramalho Eanes, para chefiar um Executivo de gestão destinado a preparar as legislativas de outubro de 1980. Estas eleições foram ganhas pela Aliança Democrática (AD), uma coligação de centro-direita liderada por Francisco Sá Carneiro, que viria a morrer num acidente de aviação em Camarate, em dezembro do mesmo ano.
Diogo Freitas do Amaral e Mário Soares foram os candidatos que viriam a disputar a segunda volta das Presidenciais de 1986.
Mário Soares foi uma figura central da oposição democrática à ditadura do Estado Novo. Participou ativamente nos movimentos da oposição, foi perseguido pelo regime, esteve preso e exilado em França. Regressou a Portugal após o 25 de Abril de 1974 para ocupar os cargos de ministro dos Negócios Estrangeiros e, pouco depois, de primeiro-ministro.
A candidatura de Soares a Belém em 1986 foi impulsionada pelo PS e teve o apoio crucial do PCP na segunda volta, numa aliança estratégica e de certo modo inesperada, dado que os comunistas tinham recusado terminantemente o apoio a Soares na primeira ronda eleitoral, onde o candidato socialista obteve 25,43% dos votos.
Diogo Freitas do Amaral venceu a primeira volta com 46,31%. O professor de Direito é também considerado um dos "pais fundadores" da democracia portuguesa. Apresentou-se na disputa eleitoral como figura principal do CDS-PP e teve também o apoio do PSD, uma aliança de direita que já tinha dado cartas nas Legislativas de 1980.
O candidato de união da direita, focado na sua campanha na "regeneração nacional" e no cumprimento de um "dever patriótico" esteve perto da maioria absoluta na primeira volta, mas acabaria por ser derrotado na segunda ronda, em que a esquerda se uniu para o derrotar.
Ao contrário das eleições da atualidade, esta foi uma votação muito participada. Na segunda volta das presidenciais de 1986 a abstenção foi de apenas 22,01%. Os candidatos Soares e Freitas disputaram uma eleição renhida, na qual o candidato socialista venceu por uma estreita margem de 138.692 votos. Os resultados finais da votação de 16 de fevereiro de 1986 deram 51,18% para Soares de 48,82% para Freitas.
Coabitação política com Cavaco e a entrada na CEE
Quando Mário Soares chegou à Presidência em 1986, Portugal vivia uma democracia consolidada após um período de instabilidade política e governativa que se seguiu ao 25 de Abril. O Executivo era liderado pelo social-democrata Aníbal Cavaco Silva, que tinha sido eleito em 1985.
A eleição de Soares marcou o início de um longo período de coabitação política com Cavaco, que duraria cerca de uma década. Um dos grandes acontecimentos dessa época e que viria a ser determinante na evolução do país foi a entrada na CEE, um objetivo central para Mário Soares e pelo qual batalhou enquanto primeiro-ministro, cargo que exerceu em três períodos distintos antes de ser Presidente da República.
Campanha de 1986 trouxe inovação à comunicação política
Estas presidenciais, que foram as primeiras a exigir uma segunda volta e a eleger um Presidente civil, foram também pioneiras em inovações durante a intensa e competitiva campanha eleitoral. O investimento nesta área foi evidente, numa época em que o envolvimento e o entusiasmo da população eram muito significativos.
Hinos de campanha, slogans fortes e toda uma parafernália de artigos de marketing eleitoral que iam dos autocolantes às canetas, passando pelas bandeiras e até chapéus de palhinha, que ficaram célebres na campanha de Freitas do Amaral. Estas foram novidades numa campanha eleitoral que arrastava multidões de Norte a Sul do país.
As ações de campanha mobilizavam muitos jovens e também crianças, desejosas de angariar esferográficas coloridas e mais autocolantes para a coleção. Nas festas e comícios não faltava música e artistas conhecidos. Os hinos de campanha ficaram na memória de muitos, assim como uma campanha eleitoral muito inspirada no que se fazia na política norte-americana.

