Esquecidos

“A vida aqui é trágica"

Abdul Majeed Al Qareh

Com a chegada do inverno ao Noroeste da Síria, as já muito duras condições de vida para dois milhões de pessoas deslocadas estão a tornar-se ainda mais difíceis. Viver nos campos nesta região significa enfrentar as muito altas probabilidades de as tendas ficarem alagadas, as ruas estarem cobertas de lama e as temperaturas baixarem a um frio de gelo.

Abdul Majeed Al Qareh

Para muitas destas pessoas, este não é o primeiro inverno vivido em tais condições. Ao longo dos últimos anos, o Noroeste da Síria viu múltiplas vagas de deslocamentos populacionais, o mais recente no início de 2020, quando os combates na região forçaram quase um milhão de pessoas a fugir em busca de áreas mais seguras.

“Olhem em volta. Onde é que eu vou arranjar lenha?"

Nasr Al-Jaddouh fugiu da zona rural de Hama por causa dos bombardeamentos e dos raides aéreos. Tem dois filhos e o pai está doente. Sabe que a situação em que vivem é terrível, mas admite que não tem opção.

“Tenho dois filhos e neste tempo frio não temos aquecimento. É mesmo muito mau. Chove durante alguns dias e depois para. Não nos podemos sentar em lado nenhum, a água entra pela nossa tenda”, conta Nasr Al-Jaddouh.

Também Imad Al-Hamdi vive com a família no campo de Idlib numa situação idêntica.

“A água entrou na minha tenda já por duas vezes. Os meus filhos estavam dentro da tenda tive de os levar para a tenda dos meus vizinhos. É muito duro. Nem sequer tenho plásticos, nem cobertores. “Olhem em volta. Onde é que eu vou arranjar lenha? Onde vou arranjar combustível?, pergunta Imad Al-Hamdi.

As ruas transformam-se em rios de lama

“A vida aqui é trágica, especialmente no inverno – as tendas não nos abrigam do frio e da água”, lamenta Chahine Ziadeh, residente no campo Fan al-Shemali, no governorado de Idlib. Este sírio fugiu da cidade natal em 2016 devido aos bombardeamentos intensos. Desde então, viveu já em vários campos para deslocados internos no Noroeste do país, até ter chegado há dois anos a Fan al-Shemali.

Sempre que chove, as ruas no campo transformam-se em rios de lama, sendo muito difícil para as pessoas saírem das tendas, a pé ou de moto, para comprar alimentos, ir trabalhar ou procurar assistência médica. As estradas enlameadas e alagadas fazem também com que se torne mais árduo para os trabalhadores humanitários chegarem ao campo.

Abdul Majeed Al Qareh

"Nestes últimos dois anos, vimos cheias muito assustadoras nos campos”

Equipas da Médicos Sem Fronteiras (MSF) começaram a distribuir kits de inverno compostos por roupas quentes, lonas, colchões e cobertores para cerca de 14 500 famílias que vivem em mais de 70 campos de deslocados internos por toda a região, de forma a melhorar as condições para enfrentarem o novo inverno.

“Estamos a distribuir estes artigos de ajuda para que as famílias possam proteger-se melhor das chuvas intensas, uma vez que muitas tendas já têm as coberturas muito desgastadas”, explica Abdulrahman Saleh, que integra a equipa de logística da MSF.

“E estamos preocupados com a chegada do inverno também porque, nestes últimos dois anos, vimos muitas cheias muito assustadoras nos campos”, avança.

Abdul Majeed Al Qareh

Abdul Majeed Al Qareh

Abdul Majeed Al Qareh

A MSF deu também já arranque ao trabalho de reabilitação de 2 275 tendas em seis campos localizados a oeste de Idlib. Isto envolve a instalação de revestimento dos pisos dentro e em volta das tendas, para melhorar o isolamento térmico dos abrigos, e a construção de barreiras de tijolo para proteção das inundações.

Além da melhoria nas condições gerais de vida nestes campos, as equipas da MSF esperam também que a reabilitação das tendas contribua para prevenir um aumento de casos de doenças sazonais.

“Apesar de esta ação não ser de natureza puramente médica, é difícil traçar uma linha entre o que é médico e o que não o é num contexto de conflito prolongado e de deslocamentos populacionais como o que existe na Síria”, explica a coordenadora de atividades médicas da MSF no Noroeste da Síria, Chen Lim. “E simplesmente não podemos ignorar as condições de vida e o impacto que estas têm na saúde da população”, remata.

Aumento de doenças no inverno

Todos os invernos, as equipas médicas da organização humanitária a trabaharem nestes campos sobrelotados testemunham o aumento de casos de doenças respiratórias, de problemas relacionados com a inalação de fumo, de queimaduras, de doenças transmitidas pela água e de queimaduras causadas pelo frio.

Com o propósito de reforçar as atividades de prevenção, a MSF mobilizou equipas de promoção de saúde para campos de pessoas deslocadas, de forma a passar mensagens de consciencialização sobre as doenças de inverno mais comuns e também para avaliar as necessidades da população e os desafios que enfrentam diariamente e, ainda, prestar informação sobre os serviços que são disponibilizados nas clínicas móveis da organização.

Abdul Majeed Al Qareh

Uma avaliação recentemente conduzida por uma equipa MSF de promoção de saúde em vários campos mostrou que para quase 70% das 166 pessoas ouvidas, este novo inverno não é o primeiro que passam num campo de deslocados internos. E praticamente todos os entrevistados expressaram temer que familiares, principalmente as crianças, adoeçam na época invernosa.

O receio da Covid-19

Este ano há ainda mais uma preocupação para as pessoas no Noroeste da Síria: a pandemia da COVID-19, que continua a ter significativo impacto na região. Até agora, já foram registados mais de 17 000 casos confirmados da doença e teme-se que o número de contágios aumente substancialmente durante o inverno.

“Neste inverno, vai ficar também mais difícil para os profissionais de saúde distinguirem entre as pessoas com sintomas de uma constipação das pessoas com sintomas de COVID-19”, frisa a médica Chen Lim. “E nesse sentido, o inverno vai trazer desafios adicionais para todas as pessoas que estão nesta já muito crítica situação no Noroeste da Síria.”

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Esquecidos é um projeto da SIC Notícias e da Médicos Sem Fronteiras que dá espaço aos que vivem situações de vulnerabilidade. Histórias de quem fica marcado por conflitos armados, catástrofes, migrações ou falta de acesso a cuidados de saúde. Testemunhos de quem é quase sempre silenciado. Muitas vezes esquecido.