Extremos

Quem és tu, César?

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Pedro Coelho

Pedro Coelho

Jornalista Grande Reportagem SIC

Quando a investigação da SIC percebeu que a vida publicada de César do Paço poderia ser fruto da imaginação do protagonista, fizemos alguns esforços para conhecer a verdadeira face do empresário. O essencial dessas descobertas será revelado na Grande Reportagem "Cifrões e outros demónios, 2ª edição", último episódio da série "A Grande Ilusão", mas o detalhe dos dois doutoramentos revelamo-lo já aqui.

A 25 de abril de 2014, seis meses antes de ser nomeado Cônsul Honorário de Portugal em Palm Coast, na Florida, César do Paço era apresentado ao mundo, num artigo do suplemento de economia do semanário Expresso.

Na fotografia que adorna o artigo surge-nos um homem de sorriso largo, fato cinzento, camisa clara e gravata vermelha. No pulso, César exibe um distintivo relógio de ouro.

O artigo enaltecia as virtudes do empresário e destacava os seus feitos além fronteiras. Mesmo que, até essa data, poucos, em Portugal, tivessem ouvido falar deste homem "orgulhosamente açoriano", como se escrevia no artigo, certamente que, quem leu a prosa, perguntaria - como é possível que uma personalidade de tão elevado destaque tenha permanecido oculta da atenção nacional?

São célebres, afinal, as histórias de emigrantes portugueses que, por esse mundo fora, vão atingindo patamares de relevo nos países de destino. Como poderia César do Paço ter-nos escapado?

Uma mundivivência de fazer inveja a qualquer diplomata, político, empresário, financeiro, intelectual; um sucesso empresarial insuperável; uma formação académica ao alcance de quase nenhuns: dois doutoramentos.

Já Cônsul Honorário de Portugal em Palm Coast, a vida faustosa de César do Paço - rodeado de seguranças, luxo de encher o olho, dinheiro, em aparência, inesgotável – surpreendia diplomatas portugueses que visitavam as instalações do consulado, cuja renda e despesas eram integralmente suportadas pelo representante honorário da República.

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Os dois doutoramentos eram exibidos com orgulho e o título figurava no cartão de visita do empresário. Dois antigos funcionários asseguram-nos que César do Paço costumava dizer-lhes que obtivera os títulos em Oxford e em Harvard, duas das mais prestigiadas universidades do mundo.

Quando a investigação da SIC percebeu que a vida publicada de César do Paço poderia ser fruto da imaginação do protagonista, fizemos alguns esforços para conhecer a verdadeira face do empresário. O essencial dessas descobertas será revelado na Grande Reportagem "Cifrões e outros demónios, 2ª edição", último episódio da série "A Grande Ilusão", mas o detalhe dos dois doutoramentos revelamo-lo já aqui.

Entrámos em contacto com a Universidade norte-americana de Harvard a quem perguntámos se César do Paço tinha, de facto, obtido o grau de Doutor na prestigiada escola internacional. A resposta demorou alguns dias, mas não nos deixou quaisquer dúvidas: "Confirmamos que não temos qualquer registo que um estudante com esse nome (César Manuel Cardoso Matos do Paço) tenha obtido um diploma em qualquer uma das escolas de Harvard". A revista Sábado fizera a mesma pergunta à igualmente prestigiada Universidade de Oxford, tendo obtido a mesma resposta: "não encontramos qualquer registo".

Interpelámos o advogado de César do Paço em Portugal, o antigo dirigente do CDS, Rui Barreira, mas o causídico nem sequer nos deu resposta.

Os dois doutoramentos são apenas um detalhe. A verdadeira história de César do Paço é argumento de filme. No último episódio da "Grande Ilusão" instalamo-nos no passado do empresário para percebermos que a imaginação deveria ser travada quando confrontada com a realidade.

Homem com ligações a movimentos sociais e políticos associados à extrema-direita, amigo das forças de segurança, César do Paço ficou famoso depois de se aproximar muito de André Ventura e do Chega.

Por que resolveu César, de repente, dar tanto nas vistas?

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É um projeto patrocinado pela Fundação Calouste Gulbenkian que terá uma expressão multimédia e que incluirá um conjunto de grandes reportagens que a SIC emitirá em fevereiro de 2021. O projeto resulta de uma parceria estabelecida entre a SIC e a NOVA FCSH e pretende mergulhar no difícil tópico do “populismo radical que alimenta a direita nacionalista e antissistema europeia” - título que esconderá derivas em direção aos extremos; em direção ao quadro que molda a extrema direita.

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