Guerra Rússia-Ucrânia

Compreender o conflito: nove meses de crime russo na Ucrânia

Compreender o conflito: nove meses de crime russo na Ucrânia
Efrem Lukatsky
Artigo de Germano Almeida, comentador SIC.

1 – SETENTA POR CENTO DE KIEV SEM ELETRICIDADE

Zelensky denuncia à ONU "crime contra a humanidade": presidente da Ucrânia denunciou à ONU o ataque da Rússia à infraestrutura energética do país, o que classificou como um "crime contra a humanidade". "Com temperaturas abaixo de zero, vários milhões de pessoas sem abastecimento de energia, sem aquecimento e sem água, trata-se, obviamente, de um crime contra a humanidade", afirmou Zelensky.

Os novos ataques russos na Ucrânia fizeram pelo menos quatro mortos e 30 feridos civis, e deixaram hoje milhões de pessoas sem eletricidade, acesso a água e aquecimento, quando se registam já temperaturas negativas nalgumas regiões, segundo as Nações Unidas.

Os ataques deixaram completamente sem eletricidade regiões como Lviv, no oeste, Zaporijia e Odessa, no sul, e Chernihiv, no norte. A ONU alerta para risco de "inverno catastrófico" após novos ataques russos: "Enquanto os ucranianos procuravam desesperadamente abrigo dos bombardeamentos, eles também tiveram que lidar com temperaturas congelantes. De facto, esses últimos ataques renovam o medo de que este inverno seja catastrófico para milhões de ucranianos, que enfrentam a perspetiva de meses de frio sem aquecimento, eletricidade, água ou outros serviços básicos".

Emmanuel Macron diz que vai mobilizar o apoio internacional para ajudar a Ucrânia "a manter-se resistente e a garantir o seu acesso à energia", no dia em que vários infraestruturas críticas do país foram atingidas. O governador de Mykolaiv apela à poupança de energia e pede que se apaguem "luzes desnecessárias". A presidente da Moldova culpa a Rússia pela falta de eletricidade.

2 - OPÇÃO TOTAL EM VEZ DE INCURSÃO LIMITADA NO DONBASS

O que terá levado Putin a cair num erro colossal destes? Acreditar que podia em poucos dias invadir um país da dimensão da Ucrânia? Excesso de confiança? Má informação? Falta de discernimento por poder desmesurado e ninguém ter a coragem de lhe fazer ver em perspetiva? Sobrevalorização do declínio americano e das divisões europeias?

3 - KHERSON CAI PARA OS RUSSOS, UCRÂNIA SEGURA KIEV E KHARKIV

A única vitória militar de relevo para Moscovo, logo no princípio de março e provavelmente devido a uma traição interna nos serviços de informação ucranianos na região; mas Zelensky resistiu, recusou a boleia americana, segurou Kiev e depois Kharkiv, as duas maiores cidades; os russos nem se atreveram a tentar Odessa, a terceira maior; ficaram-se pela quarta maior, Kherson.

4 - CRIMES DE GUERRA EM BUCHA (E IRPIN E BORODYANKA E DEPOIS MARIUPOL E DEPOIS KHARKIV E AGORA KHERSON…)

No início de abril, um momento de viragem na condenação internacional à Rússia: na retirada dos arredores de Kiev, o horror de Bucha e também Irpin e Borodyanka; mais horrores seriam descobertos em Mariupol e nas retiradas russas de Kharkiv e Kherson, num padrão de grande destruição física, infraestruturas civis e mortes civis.

5 - A QUEDA DE MARIUPOL

Depois de meses de bombardeamentos, o cerco a Mariupol fez lembrar Aleppo na Síria: vitória russa à custa de destruição total e de privação de luz, água e até comida à população cercada; o último reduto de Azovstal cairia semanas depois, com os últimos soldados do regimento Azov e civis a saírem em operação com intervenção da ONU. Mariupol foi o segundo triunfo russo, segurando a ligação ao mar da Azov e dando novas perspetivas para o corredor sul.

6 - A BATALHA DO DONBASS

À custa de muitas centenas de baixas por dia, e depois de semanas de batalhas intensas, a Rússia tomou Severodonetsk e Lysychansk, quase fechou a província de Lugansk, mas no Donetsk tudo ficou em aberto. A última grande conquista russa no Donbass foi Lysychansk, a 3 de julho. Nos últimos meses, uma certa estabilização global no Donbass: a Rússia a avançar muito pouco em Bakhmut e Avdiivka, a Ucrânia a avançar ligeiramente em Svatova e Kremina.

7 - A CONTRAOFENSIVA UCRANIANA

A ajuda militar dos países da NATO começou finalmente a ter efeitos, com a Ucrânia a somar vitórias a partir de final de agosto/início de setembro; estratégia muito bem-sucedida na retomada de Kharkiv (dando a entender que iria primeiro tentar Kherson, a sul), reequilíbrio de posições em Donetsk, com a reconquista de Izium e Kupiansk a abrir perspetivas ucranianas para reconquistar parte do Donbass.

8 - MOBILIZAÇÃO, REFERENDOS E ANEXAÇÃO: A RÚSSIA DESESPERA

Sinais de algum desespero do Kremlin, com mobilização de 300 mil reservistas a provocar perturbação interna na sociedade russa (muitos deles, hoje, já terão morrido em combate, ou estarão incapacitados, atendendo ao elevado número de baixas/dia e à impreparação com que foram atirados para a frente de combate); os referendos em quatro regiões ucranianas, absolutamente ilegais, levaram a declarações de anexações sem validade em Kherson, Zaporíjia, Donetsk e Lugansk, no final de setembro.

9 - A RÚSSIA ATACA DE NOVO E FOCA-SE NAS INFRAESTRUTURAS CRÍTICAS

Cada vez mais frágil, limitada e incompetente no plano militar e no campo de batalha, a Rússia ataca de novo pelo ar – seis barragens de mísseis desde 10 de outubro, quatro delas em quatro segundas-feiras e a principal a 15 de novembro (com mais de cem mísseis e drones enviados para 16 pontos em toda a Ucrânia); a intenção é clara: desmoralizar os civis ucranianos, tornar a vida do dia a dia impossível na Ucrânia, agora que vem aí o frio – sem eletricidade, nalguns casos sem água, sem aquecimento.

10 - A RETIRADA RUSSA DE KHERSON E O QUE PODE ACONTECER NA CRIMEIA


Num processo longo e por vezes misterioso, os russos levaram semanas a passar da margem direita para a esquerda do rio Dnipro, primeiro retirando civis e funcionários, depois os militares e seu equipamento. Os civis ucranianos, enquanto isso, terão sido forçados a servir de escudos militares; a festa no regresso ucraniano a Kherson entra para as imagens mais marcantes e emotivas destes mais de 270 dias de guerra e provou como o resultado do referendo foi enganador; mas o facto dos russos terem deixado a cidade em água e eletricidade fez com que a euforia fosse curta.

A questão é: terão mesmo os ucranianos uma via verde, por Kherson, para reconquistar a Crimeia? Vão receber armas do Ocidente para consumarem essa reconquista de algo pré-24 de fevereiro?

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