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Profissionais de saúde exaustos e doentes à espera durante horas: quando devo ir às urgências?

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Profissionais de saúde exaustos e doentes à espera durante horas: quando devo ir às urgências?
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A SIC Notícias ajuda-o a perceber quando deve ir às urgências e quando não o deve fazer, assim como as consequências de um hospital sobrelotado para os doentes que precisam de um profissional de saúde e não o têm.

Médicos, enfermeiros, técnicos e auxiliares "exaustos", muitos com esgotamentos. Turnos "exigentes" de 12 horas e até mesmo de 24. Urgências sobrelotadas. Doentes à espera durante oito, 10, 12 horas. Há milhares de vidas nas mãos de equipas que querem "dar mais e não conseguem". Portugal teve, nos últimos seis meses, o maior número de sempre de doentes nas urgências.

"2019 já tinha sido o ano com maior número de episódios desde que temos registo. Mas desde junho deste ano, todos os meses, temos tido mais episódios de urgência do que tivemos em 2019", adiantou, em entrevista à SIC Notícias, Nelson Pereira, médico e diretor da UAG da Urgência e Medicina Intensiva do Hospital de São João, no Porto.

Cerca de seis milhões de pessoas recorreram ao serviço de urgência, em 2019. Nos últimos seis meses, houve mais 5% de afluência. Os números variam no país. No entanto, entre 35% a 50% dos doentes que vão às urgências não precisavam de ter ido. Estes doentes tiveram, por exemplo, pulseira azul (não urgente) ou verde (pouco urgente) da Triagem de Manchester, o método que estabelece a prioridade do doente.

De acordo com o Serviço Nacional de Saúde, só em outubro houve 534.001 atendimentos nas urgências nos hospitais portugueses. Foi o mês com maior afluência às urgências. Em Portugal continental, a região de Lisboa foi a que registou o maior número de atendimentos (190.829), seguida do Norte (189.250), do Centro (93.349), do Algarve (30.528) e do Alentejo (30.045).

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O médico do Hospital de São João adianta que, neste momento, não está a internar mais doentes do que internava em 2019, o que significa que "o que está a aumentar é o número de doentes com episódios não urgentes, que não deviam ir às urgências".

"Isto significa uma carga para os serviços. Prejudica o tratamento dos doentes que têm situações de urgência, provoca um desgaste brutal dos profissionais de saúde, que estão numa situação difícil quer do ponto de vista pessoal, em termos de 'Burnout', quer do ponto de vista da organização do serviço", explicou o médico.

Já Carla Araújo, médica internista do Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, reconhece: "estamos todos cansados. A afluência é muita, os turnos são complicados. Imagine um turno de 12 ou até 24 horas no serviço de urgência. A exigência é muito grande. Gosto muito, desafia-me bastante, mas a sobrecarga é grande e a exigência física é elevada".

"Temos a vida dos nossos doentes nas mãos. Sentimos sempre que devíamos ser mais e não somos", desabafa.

"O que nos sobrecarrega não é receber um doente com enfarte e tratá-lo. É receber um doente com dor nas costas há dois meses e ainda não foi ao médico. O que nos cansa é receber um volume inaceitável de pessoas composto, em grande parte, por doentes que não deviam ir ao serviço de urgência", salienta o diretor da UAG da Urgência e Medicina Intensiva do Hospital de São João.

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Quando é que se deve ir às urgências?

Nem sempre é fácil perceber se, perante determinado sintoma, a pessoa deve ou não ir às urgências. No entanto, há situações que não deixam dúvidas.

As pessoas devem ir ao serviço de urgência quando a vida está em risco ou quando têm "uma situação suficientemente grave que põe em risco algum dos seus órgãos", explica Nelson Pereira.

O responsável do Hospital de São João refere "situações que ninguém tem dúvidas": um traumatismo significativo, quando houve um acidente de viação, uma perna partida, quando há uma ferida a sangrar, falta de ar, défice de força muscular, a boca ao lado, dificuldade em falar, dor forte no peito e no braço esquerdo, acompanhada, por exemplo, de náuseas e suores frios.

Já a internista do Hospital Beatriz Ângelo lembra, por exemplo, "sinais neurológicos súbitos", cansaço extremo, febre e mau estar há três dias.

Nestes casos urgentes, as pessoas devem ligar para o 112, "em vez de se meterem no próprio carro a caminho do hospital", salienta o médico.

"Muitas vezes, o hospital mais próximo não é o mais indicado para o tratamento. Os doentes podem beneficiar do envio de uma equipa médica para uma ajuda mais precoce".

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Quando é que não se deve ir às urgências?

As idas às urgências sem necessidade acontecem "com muita frequência". Quando há dúvidas sobre o que se passa, o doente deve contactar uma entidade capaz de ajudar a perceber se é uma situação urgente ou não. É o caso dos médicos de família, durante o dia e durante a semana, e a linha SNS 24, a qualquer hora do dia.

"Ninguém deve ir por sua iniciativa, pelo seu próprio pé a um serviço de urgência", diz o médico Nelson Pereira.

Questionada sobre sintomas que não justificam uma ida à urgência, a internista Carla Araújo exemplifica: indisposição, o chamado "pingo no nariz", dor de garganta recente sem sinais de dificuldade respiratória e unhas encravadas.

O médico do Hospital de São João acrescenta que a febre sem sintomas, uma infeção urinária simples, "dor no joelho com uma semana ou dor de costas há três meses" também não justificam uma ida ao serviço de urgências.

"Este tipo de situações têm um local para serem tratadas, que não é o serviço de urgência. Em princípio, será nos cuidados de saúde primários. Ninguém tira a ideia de que as pessoas estão preocupadas e precisam de um encaminhamento e de orientação clínica. Mas tem de ser feita no sítio certo e no tempo certo", afirma o diretor da UAG da Urgência e Medicina Intensiva do Hospital de São João.

"Pode ser o caminho mais óbvio e rápido, mas não é o melhor do ponto de vista organizacional"

Tanto o médico Nelson Pereira como Carla Araújo, internista, reconhecem que as pessoas se habituaram a ir às urgências porque "acham que é o caminho certo".

"Pode parecer o mais simples, o mais óbvio e o mais rápido, mas não é, claramente, o melhor do ponto de vista organizacional", diz Nelson Pereira.

Segundo o mesmo médico, o São João, no Porto, é o hospital do país que recebe mais doentes nas urgências. Em média, são 550 adultos por dia, mas o ideal seria 380. No entanto, a situação está a piorar:

"Por dia, no último mês, nas três urgências juntas - adultos, pediatria e ginecologia/obstetrícia -, andamos nos 780 a 800 doentes por dia. Nos piores dias, chegamos a ultrapassar os 900".

"As pessoas ficam muito cansadas, não conseguem recuperar de um turno para o outro, até do ponto de vista mental", conta o responsável.

Segundo a médica Carla Araújo, o problema da afluência acima da capacidade de resposta é "bastante complexo". O modelo de urgência já é discutido há muitos anos, refere.

"Portugal é o campeão da Europa na procura de serviço de urgência para todo o tipo de atendimento, seja uma queixa grave, aguda, que ponha em risco a vida da pessoa ou uma dor lombar com vários meses. Este acesso aos cuidados de saúde tem de ser reorganizado", defende a internista.

A médica apela à criação de portas de entrada alternativas, como unidades de diagnóstico rápido, para o caso das doenças crónicas:

"Portugal é um país muito envelhecido, os nossos doentes são complexos. Muitos devem ter quatro, cinco, seis doenças crónicas em simultâneo que às vezes descompensam e recorrem ao serviço de urgência".

"Se uma pessoa não tiver médico de família, não tiver acesso a consultas e tiver algum sintoma que o incomoda, vai procurar a urgência. Não melhorando a acessibilidade dos cuidados de saúde, os doentes vão continuar a recorrer à única porta de entrada", diz.

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Criação da especialidade de medicina de urgência

Em entrevista à SIC Notícias, diretor da UAG da Urgência e Medicina Intensiva do Hospital de São João salienta a importância da criação da especialidade de medicina de urgência "para a sustentabilidade do serviço nos próximos anos":

muito difícil recrutar pessoas para esta tarefa".

Devido à dificuldade em fixar profissionais, a maioria dos hospitais recorre a prestadores de serviços, conta o especialista, e acrescenta:

"Do ponto de vista de organização e gestão, não faz sentido montar um serviço tão importante com pessoas que não são do hospital e vêm apenas fazer algumas horas quando têm disponibilidade".

"Sem a criação da especialidade haverá, certamente, muitas crises nos próximos tempos", refere.

xavierarnau

Há pressão de doentes com covid-19?

Questionado sobre a pandemia, o médico Nelson Pereira reconhece que tem havido mais doentes na área respiratória. No entanto, diz que, para já, o Hospital de São João, no Porto, não está com pressão nos internamentos:

"A situação, neste momento, é tranquila do ponto de vista covid".

Já Carla Araújo, médica do Hospital Beatriz Ângelo, salienta o sucesso da vacinação contra a covid-19:

"O aumento de casos diários mostra que a vacinação é um sucesso. Há infetados, nas há poucos a ter doença grave".

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