A precipitação persistente ao longo da semana, aliada à possibilidade de queda de neve nas terras altas, aumento das temperaturas e degelo agravarão o risco de cheias em vários rios do país, sobretudo nas regiões Centro e Norte, alerta o climatologista Mário Marques.
O especialista sublinha que este é um inverno particularmente rigoroso, mas afasta, para já, a repetição de fenómenos extremos como a ciclogénese explosiva da semana passada.
“Teremos este período, pelo menos até ao dia 9 ou 10, com chuva constante, embora com um ou outro dia mais seco. É um tempo de inverno durante os próximos 10 dias”.
O vento deixa de ser, nesta fase, o principal fator de risco, mas sim a acumulação de chuva ao longo dos próximos dias.
“Os riscos continuam a ser muito semelhantes, mas esta semana o vento não será o fator de maior preocupação. Aqui, o principal risco é a precipitação durante toda a semana. Uns dias será mais intensa, noutros menos, mas as quantidades acumuladas ao longo da semana poderão ser muito significativas".
A situação poderá agravar-se com a queda de neve prevista para as cotas mais elevadas.
“Existe probabilidade de queda de neve acima dos 900 metros durante a noite de hoje e madrugada de terça-feira”.
Este fator aumenta a preocupação com as cheias, uma vez que "a temperatura irá subir nos dias 4 e 5, com a chegada de uma nova frente ativa, praticamente estacionária, e poderá chover até ao dia 6, com persistência. Essa neve acumulada irá derreter”.
Com os solos já saturados há várias semanas, o risco aumenta de forma significativa.
“A minha principal preocupação será nesses dias, nomeadamente no Mondego, no Zêzere, no Tâmega e noutros rios, como o Águeda e o Cávado”.
Ciclogénese explosiva não deverá repetir-se
Apesar do cenário de instabilidade, Mário Marques afasta a repetição do fenómeno extremo da semana passada.
A ciclogénese explosiva que afetou o Centro do país, nomeadamente o Oeste e o distrito de Leiria, é uma situação excecional. Não acontece todos os anos e atingir o território de forma tão centralizada é ainda menos frequente. Não há qualquer cenário de repetição deste evento nos próximos tempos”.
Possível abrandamento na segunda quinzena de fevereiro
Há, no entanto, sinais de mudança no padrão meteorológico. A partir do dia 10 ou 11 começa a haver alguma tendência para abrandamento”, aponta.
"Espero uma segunda quinzena de fevereiro mais solheira, isto é, não com tanto regime de precipitação, já com bons períodos de sol, eventualmente, de uma outra passagem de frente fria, ou superfície frontal associada à depressão, mas não com este regime de tão intenso".
Um “rio atmosférico” a alimentar a chuva
O climatologista explica que o padrão atual resulta de um fenómeno que "é típico de um rio atmosférico, com dias consecutivos de frentes quase geostacionárias, alimentadas por vapor de água vindo de regiões subtropicais”.
“As imagens de satélite mostram um rio contínuo de alimentação de vapor de água que alimenta a corrente de jato”.
Fenómenos mais violentos, mas não necessariamente mais frequentes
Apesar da perceção pública, Mário Marques considera que estes fenómenos não estão a ocorrer mais vezes, mas com maior intensidade.
“Eventualmente não estão a acontecer com mais frequência, mas com mais violência, porque existe um maior desequilíbrio no comportamento atmosférico.
A atmosfera e os oceanos mais quentes contribuem para esse cenário. “Há muito mais energia disponível e muitos desequilíbrios”.
“A falta de capacidade de absorção e impermeabilização dos solos agudiza a vulnerabilidade face a fenómenos que podem ser mais intensos, porque há mais energia associada”.
