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Mecanismo Europeu: Governo não vai sobrepor-se ao "juízo técnico" da Proteção Civil, diz Rangel

A ativação do Mecanismo Europeu de Proteção Civil, após a passagem da depressão Kristin, "depende de regras técnicas e de avaliação técnica da proteção civil", salienta o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros.

Mecanismo Europeu: Governo não vai sobrepor-se ao "juízo técnico" da Proteção Civil, diz Rangel
ANTONIO PEDRO SANTOS/Lusa

O chefe da diplomacia portuguesa, Paulo Rangel, afirmou esta terça-feira à Lusa que o Governo não vai sobrepor-se às avaliações da Proteção Civil, apelando ao respeito pelo "juízo técnico" na resposta ao mau tempo, enquanto criticou o "oportunismo político".

A ativação do Mecanismo Europeu de Proteção Civil "depende de regras técnicas e de avaliação técnica da proteção civil", salientou o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, em declarações à Lusa por telefone no final de uma visita oficial à Argélia.

"Com certeza o Governo não vai sobrepor-se ao juízo técnico de quem conhece as matérias e está no terreno e faz avaliações constantes e sistemáticas", sublinhou, enquanto deixou um apelo.

"Eu apelava a que todos os atores políticos, no momento em que ainda temos, infelizmente, desafios que nem sequer se verificaram do ponto de vista meteorológico para enfrentar, que respeitassem os juízos técnicos de quem tem essas responsabilidades", comentou Rangel, acrescentando: "Senão, o que estamos aqui a fazer é oportunismo político e isso eu acho que é inaceitável num momento destes".

Rangel sublinhou que "toda a gente dá opiniões, mas isto não é matéria de opinião, é uma matéria muito séria e que tem que ser lidada com esse cuidado".

"Se a proteção civil nos disser, agora é o momento ou em face dos novos desenvolvimentos da situação climática ou da situação meteorológica, é necessário pedir mais isto ou pedir isto, evidentemente que isso é imediatamente ativado", garantiu.

PS pede ao Governo para ativar mecanismo, Rangel responde

O secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, que teve a pasta da Administração Interna num governo de António Costa, instou na segunda-feira o Governo a ativar o Mecanismo Europeu de Proteção Civil para responder às consequências da depressão Kristin e reiterou a sua disponibilidade para colaborar, apesar de não ter sido contactado pelo executivo de Luís Montenegro (PSD/CDS-PP).

"Eu gostava de saber se o PS critica a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, se é isso que faz, porque se for isso, então que diga", comentou Rangel, insistindo que "não pode o juízo político apenas por questões de eventualmente agradar a este ou àquele sobrepor-se ao juízo técnico".

"Parece-me que às vezes as pessoas confundem as coisas porque querem fazer números políticos ignorando as questões técnicas", afirmou.

Mecanismo poderia disponibilizar "grande variedade de apoios"

Rangel garantiu estar em "contacto estreito" com Bruxelas desde quinta-feira.

A Comissão Europeia afirmou esta terça-feira que o Mecanismo de Proteção Civil da União Europeia poderia disponibilizar "uma grande variedade de apoios" face ao impacto da tempestade em Portugal, como desumidificadores e geradores, mas ainda não foi solicitado pelo país.

Proteção Civil considera que "não se justifica"

Ainda na segunda-feira, o presidente da Proteção Civil disse que "não se justifica" pedir ajuda ao mecanismo europeu de Proteção Civil, sustentando que tem regras e não serve "para pedir telhas nem lonas".

José Manuel Moura considerou que "não se justifica, de todo", ativar o Mecanismo Europeu de Proteção Civil, uma vez que "Portugal ainda não esgotou a sua capacidade" de resposta à tempestade Kristin.

Dez pessoas morreram desde a semana passada na sequência da depressão Kristin, algumas diretamente associadas à passagem da tempestade Kristin, outras durante trabalhos de reparação ou intoxicação com origem num gerador.

A destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, quedas de árvores e de estruturas, cortes ou condicionamentos de estradas e serviços de transporte, em especial linhas ferroviárias, o fecho de escolas e cortes de energia, água e comunicações são as principais consequências materiais do temporal, que provocou algumas centenas de feridos e desalojados.

Leiria, Coimbra e Santarém são os distritos com mais estragos.

O Governo decretou situação de calamidade até ao próximo domingo para 68 concelhos e anunciou um pacote de medidas de apoio até 2,5 mil milhões de euros.