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"Cultura de ocultação" poderá ser a causa dos acidentes com os Boeing 737 MAX

Karen Ducey

Relação excessivamente próxima entre a Boeing e o regulador pode ter comprometido o processo de obtenção da certificação de segurança do avião.

O Congresso dos Estados Unidos já terminou o relatório sobre o 737 MAX. Nas quase 250 páginas são identificadas uma série de falhas no projeto do avião e uma relação excessivamente próxima entre a Boeing e o regulador, que pode ter comprometido o processo de obtenção da certificação de segurança, como explica a BBC.

O relatório conclui que os acidentes com o Boeing 737 Max foram em parte culpa da empresa por não querer partilhar detalhes técnicos, falam mesmo em "cultura de ocultação" na Boeing, mas também são apontadas falhas ao regulador, a Federal Aviation Administration (FAA).

"A Boeing falhou no projeto e desenvolvimento do Max e a FAA falhou na supervisão da Boeing e na certificação do avião", concluiu a investigação de 18 meses.

Antes de acontecerem os dois acidentes com o 737 Max, já os engenheiros da Boeing tinham descredibilizado o processo de certificação do modelo.

Ao Congresso foram disponibilizadas mensagens dos funcionários da Boeing. Os pilotos davam conta de falhas nos simuladores do aparelho: "Este avião é desenhado por palhaços, que por sua vez são supervisionados por macacos", constava numa mensagem de 2017.

Noutra mensagem, um funcionário admitia a um colega que não deixaria a família voar numa aeronave 737 Max.

"Falta de transparência" e supervisão "grosseiramente insuficiente"

O reltório acusa assim a Boeing de "falta de transparência" e a supervisão de ter sido "grosseiramente insuficiente". Acrescentando que foi também a "redução de custos que pôs em risco a segurança do voo".

Mais concretamente o relatório, segundo a BBC, diz que o regulador estava nas mãos da Boeing e que a administração da FAA "rejeitou" as avaliações dos próprios especialistas e técnicos de segurança "a mando da Boeing".

Outro dos pontos que o relatório inclui é a ocultação dos pilotos de um sistema de segurança chamado MCAS, projetado para conter automaticamente a tendência do 737 Max de se inclinar para cima. Este sistema não constava nos manuais da tripulação e a Boeing tentou convencer os reguladores a não exigir o treino em simuladores aos pilotos daqueles aviões, o que incorreria em mais custos.

Este sistema, o MCAS foi apontado como a causa dos dois acidentes que aconteceram com meses de intervalo.

Um dos maiores escândalos de segurança

O 737 Max está parado desde março de 2019, a Boeing admite os erros cometidos e quer agora concentrar-se em colocar o avião novamente no ar.

Os reguladores na Europa e nos EUA estão relativamente perto de recertificar o 737 Max.

Ainda existem investigações pendentes, incluindo uma ação judicial por parte dos familiares das pessoas que morreram no segundo acidente, na Etiópia.

Na sequência destes desastres, a Boeing garante que fez "mudanças fundamentais" na empresa. Este é um dos maiores escândalos de segurança que uma empresa privada enfrenta nos tempos modernos.

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