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As diferentes reações ao ataque em Nice: da união contra o ódio ao "direito de matar franceses"

YOAN VALAT

Vários países, incluindo Portugal, já reagiram ao ataque que resultou na morte de três pessoas.

O Governo português manifestou esta quinta-feira "profunda consternação" pelo ataque em Nice, sudeste de França, reiterando a sua "condenação veemente" da violência e compromisso na luta contra extremismos. A Arábia Saudita também "condenou veementemente" o ataque, mas o ex-primeiro-ministro da Malásia diz que muçulmanos "têm o direito de matar franceses".

Evocando a "amizade fraterna que une os dois povos", o Governo português expressa "as suas mais sentidas condolências às famílias das vítimas" e "reafirma a sua solidariedade para com o Governo de França".

Marcelo transmitiu a Macron condolências e solidariedade de Portugal

Na mensagem enviada a Emmanuel Macron, divulgada no portal da Presidência da República na Internet, Marcelo Rebelo de Sousa afirma que recebeu com "profunda consternação" a notícia do ataque.

"Neste momento difícil, em que a França é novamente confrontada com um vil atentado aos valores que a caracterizam e que nos unem, que condeno nos termos mais veementes, apresento a vossa excelência, em nome do povo português e no meu próprio, a expressão da mais sentida solidariedade e sincero pesar", lê-se na mensagem.

O Presidente da República despediu-se de Emmanuel Macron expressando "a mais elevada consideração e estima pessoal" e reafirmando "a profunda fraternidade para com a França e o povo francês e a firme condenação deste ataque".

Em declarações aos jornalistas, no Palácio de Belém, em Lisboa, Marcelo Rebelo de Sousa reiterou "a solidariedade do povo português e do Presidente da República Portuguesa" transmitida na mensagem enviada a Macron, "num momento em que a França sofre mais um atentado".

"Não são apenas aqueles que foram visados os que sofrem, é a França, é a liberdade, é a democracia, é o diálogo, é a tolerância, é a liberdade religiosa, é a liberdade em geral. E nisso, naturalmente, todos os democratas estão ao lado dos demais democratas e lutadores pela liberdade, pela paz, pela convivência pacífica e pela tolerância, para além das divergências que possa haver de posições políticas, religiosas, confessionais ou ideológicas", considerou.

António Costa reagiu no Twitter: "Europa unida contra o ódio"

O primeiro-ministro já tinha reagido ao ataque através do Twitter, onde manifestou solidariedade com França e considerou que o ocorrido reforça a determinação numa Europa unida contra o ódio.

"Estamos solidários com a França. O terrível ataque na Catedral de Nice reforça a nossa determinação em manter a Europa unida contra o ódio, na defesa da liberdade e da tolerância", escreveu António Costa na sua conta pessoal na rede social Twitter.

Arábia Saudita condena "veementemente" ataque em Nice

"Condenamos e denunciamos veementemente o ataque terrorista que deixou pessoas mortas e feridas em Nice, França. Reiteramos a rejeição categórica do reino (saudita) de tais atos extremistas que são contrários a todas as religiões, credos e bom senso", publicou o Ministério dos Negócios Estrangeiros saudita no Twitter.

O documento apela também à "rejeição de práticas que conduzam ao ódio, violência e extremismo".

O ataque em Nice ocorreu no mesmo dia em que um segurança do consulado francês na cidade saudita de Jeddah, no oeste, foi atacado também com uma faca. Nem a embaixada nem as autoridades sauditas especificaram o motivo do ataque, que ocorreu numa altura de protestos no Médio Oriente contra o Presidente francês, Emmanuel Macron.

Nos últimos dias têm-se multiplicado reações do mundo muçulmano contra a França e o seu Presidente, depois de Emmanuel Macron ter declarado que continuaria a defender a liberdade de expressão, incluindo a publicação de caricaturas, durante uma homenagem nacional a um professor, decapitado na região parisiense depois de ter mostrado caricaturas de Maomé numa aula sobre liberdade de expressão.

Ex-PM da Malásia diz que muçulmanos "têm o direito de matar franceses"

O ex-primeiro-ministro da Malásia Mahathir Mohamad declarou esta quinta-feira que os muçulmanos "têm o direito de matar milhões de franceses", pouco depois do atentado em Nice, ao qual contudo não fez referência.

Mahathir Mohamad, que chefiou o Executivo da Malásia, país muçulmano, até fevereiro passado, escreveu uma série de mensagens, em inglês, na sua conta na rede social Twitter, partindo do assassínio, a 16 de outubro, de um professor francês que tinha mostrado caricaturas de Maomé aos alunos e criticando o Presidente francês, Emmanuel Macron.

Ao referir-se à decapitação do professor, Mahathir afirma não aprovar o atentado, mas defende que a liberdade de expressão "não inclui insultar outras pessoas".

"Independentemente da religião em causa, as pessoas zangadas matam", escreve o ex-primeiro-ministro, de 95 anos, que no passado fez várias declarações polémicas sobre judeus e homossexuais.

"Os franceses, ao longo da sua história, mataram milhões de pessoas. Muitas eram muçulmanos", continua, acrescentando que "os muçulmanos têm o direito de estar zangados e de matar milhões de franceses pelos massacres do passado".

Mahathir afirma nas mensagens que Emmanuel Macron "não mostra estar a ser civilizado" e "é muito primitivo quando culpa a religião islâmica e os muçulmanos pelo assassínio" do professor.

"Os franceses devem ensinar aos seus cidadãos o respeito pelos sentimentos dos outros. Quando acusamos todos os muçulmanos e a religião dos muçulmanos pelo que uma pessoa zangada fez, os muçulmanos têm o direito de castigar os franceses", escreve.

"O boicote não pode compensar as injustiças cometidas pelos franceses durante todos estes anos", acrescenta.

Secretário-geral da ONU reafirma solidariedade com França

O secretário-geral da ONU, António Guterres manifestou solidariedade com França e condenou o "ataque hediondo". O porta-voz Stéphane Dujarric disse esta quinta-feira em conferência de imprensa que Guterres "reafirma a solidariedade das Nações Unidas com a população e o Governo da França".

Num comunicado, o alto funcionário das Nações Unidas para a Aliança das Civilizações, Miguel Angel Moratinos, também condenou o "ataque bárbaro" em Nice, lembrando ter pedido na véspera o "respeito mútuo por todas as religiões e crenças".

Três pessoas morreram no ataque

Três pessoas morreram, uma delas degolada, no interior da basílica de Nossa Senhora de Nice, num ataque perpetrado por um homem armado com uma arma branca.

O suposto autor do ataque foi rapidamente detido pela polícia, tendo sido ferido a tiro e transportado para o hospital. Segundo fonte próxima do inquérito citada pela agência France-Presse, disse chamar-se "Brahim" e ter "25 anos".

França em nível de alerta máximo

O ataque está a ser tratado como um ataque terrorista pela polícia e levou o Governo francês a elevar para o máximo o nível de alerta de segurança no país.

Ocorre duas semanas depois da decapitação de um professor na região parisiense, assassinado depois de ter mostrado caricaturas de Maomé numa aula sobre liberdade de expressão.

Macron denuncia "ataque terrorista islâmico" e reforça segurança

O Presidente francês, Emmanuel Macron, qualificou como "um ataque terrorista islâmico" o atentado ocorrido esta quinta-feira e anunciou um aumento do dispositivo militar para proteger o país.

"Não cederemos mais", afirmou Macron, numa declaração no local do atentado, em que anunciou também que o dispositivo militar de segurança passará de 3.000 para 7.000 soldados no país.

O aumento da presença militar no país "permitirá proteger os locais de culto" durante as festividades do Dia de Todos os Santos, celebrado com feriado (01 de novembro), e as escolas, na sequência do regresso às aulas após as férias de outono, que ocorrerá a partir da próxima semana, acrescentou o Presidente francês.

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