Jacob Blake foi atingido por sete tiros à queima-roupa, nas costas, por um polícia em Kenosha, Wisconsin, a 23 de agosto de 2020.
Quase cinco meses depois é conhecido que nenhum dos polícias envolvidos no tiroteio, que deixou Blake paraplégico, será acusado.
O procurador de Wisconsin, Michael Graveley, concluiu que não poderia refutar a alegação do polícia que baleou Jacob de que tinha agido em legítima defesa, porque temia que Blake o esfaqueasse.
O sindicato da polícia de Kenosha disse que Blake estava armado com uma faca e que o oficial Sheskey, que o baleou, pediu que a largasse várias vezes, o que alegadamente não foi acatado.
Michael Graveley revelou também que a investigação concluiu que Blake tinha uma faca no momento em que a polícia o abordou, depois de uma denúncia de que estava a tentar roubar um carro. O oficial Rusten Sheskey disse mesmo que “temia que Jacob Blake fosse apunhalá-lo com a faca” enquanto tentava impedi-lo de fugir do local.
Dentro do carro estavam três dos filhos de Blake. O momento do tiroteio foi captado em vídeo por Raysean White que, em declarações à CNN, diz que antes de estar a filmar, viu a polícia com Jacob Blake, e foi aí que decidiu começar a gravar.
O vídeo mostra, no momento em que Jacob abre a porta do carro, e se inclina para o interior, um polícia a abrir fogo contra ele. Ouvem-se sete tiros e gritos de pessoas que estavam por perto. Raysean White confirma ter ouvido polícias a pedir que Blake largasse uma faca, mas ele próprio não viu nenhuma faca nas mãos dele.
Os polícias envolvidos não estavam equipados com câmeras corporais.
A decisão, que recebeu desde logo críticas de defensores dos direitos civis e alguns funcionários públicos, ameaçou reacender os protestos que abalaram a cidade após o tiroteio de 23 de agosto.
O governador Tony Evers, um democrata, considerou que a decisão é "mais uma prova de que nosso trabalho não está feito" e pediu que as pessoas trabalhassem juntas pela igualdade.
A família de Blake também já reagiu e expressou raiva sobre a decisão de acusação.
“Isso vai impactar esta cidade, este estado e esta nação por muitos anos”, disse Justin Blake, um tio de Jacob. “A menos que as pessoas se levantem e façam o que devem fazer. Este é um Governo para o povo e pelo povo, correto? (...) Estão a permitir que os polícias façam chover terror sobre as nossas comunidades. É injusto.”
Ben Crump, advogado da família de Blake, disse em comunicado que a decisão "destrói ainda mais a confiança no sistema de justiça" e disse que iria prosseguir com o processo.
Segundo a Associated Press, uma investigação federal de direitos civis sobre o caso de Blake ainda está a decorrer. Matthew Krueger, o advogado dos EUA para o Distrito Leste de Wisconsin, disse que o Departamento de Justiça tomará sua própria decisão sobre o caso.
Onda protestos instala-se em Kenosha depois de Blake ser baleado
Depois do caso Jacob Blake as tensões agravaram-se e uma onda de protestos instalou-se nas ruas de Kenosha. Mais de 250 pessoas foram presas durante os protestos nos dias que se seguiram.
Logo na segunda noite de protestos duas pessoas morreram e uma ficou gravemente ferida num ataque feito alegadamente por um homem branco, que foi filmado por um telemóvel a abrir fogo no meio da uma estrada com uma espingarda semiautomática.
Trata-se de Kyle Rittenhouse, agora com 18 anos, que negou o homícido de Joseph Rosenbaum e Anthony Huber, e também ter ferido um terceiro homem, durante os distúrbios nas ruas. Ele estava entre muitos civis armados que invadiram a cidade em resposta à chamada de milícias de direita depois de Jacob Blake ter sido baleado.
Rittenhouse alega que os três homens o atacaram e ele agiu em legítima defesa. A seleção do júri para o julgamento começa no final de março.
O caso de violência policial contra Jacob Blake ocorreu cerca de três meses depois da morte do também afro-americano George Floyd, sufocado por um polícia caucasiano a 25 de maio, em Minneapolis.
