Opinião

Feridas pandémicas em tempo de Páscoa

Darrin Zammit Lupi

O abandono, neste tempo que apela à cidadania, é o comportamento irresponsável, seja pela incúria de quem não segue as recomendações das autoridades de saúde, seja pela atitude obtusa de quem, podendo ajudar, ignora a necessidade de ajuda.

Cegos por critérios e prioridades que nos desviam do essencial, ignoramos, por vezes e sem percebermos, os que, ali ao lado, mais precisam da interdependência. Preferimos a distância, o conforto, deixando vingar argumentos que tranquilizam a consciência. Somos, afinal, e sem darmos conta, formados e formatados para ações pragmáticas.

Ocorre esta constatação, arriscadamente generalizada, no contexto da tradição religiosa que marca o calendário.

A Pessach judaica celebra-se nestes mesmos dias, trazendo à memória, num tempo de limitada liberdade de movimentos, a sublime procura humana de uma libertação, que se compreende com o azimute da esperança. O êxodo bíblico escreve-se num doloroso caminho de conquista, sempre tendo como base a confiança, no caso, a confiança num Deus, que é sendo no tempo kairológico da oportunidade.

No isolamento forçado, fazem eco as palavras de Qohélet – Livro de Eclesiastes no Antigo Testamento bíblico. A fadiga também é “ilusão”. Para tudo há um tempo “debaixo do céu” (Ecl, 3). O resto é “vacuidade e demanda do vento”, numa tradução de Frederico Lourenço1. Há um “tempo para dar à luz e um tempo para morrer”. Há um “tempo para estar de luto e um tempo para dançar”. Há um “tempo para calar e um tempo para falar”. Há um “tempo para abraçar e um tempo para estar longe de um abraço”.

Yara Nardi

Temos um tempo para discernir e um tempo para agir. Dando um salto na Biblioteca, seguiremos as narrativas de uma “paixão”, que, na origem etimológica, molda um conceito místico de sofrimento.

Jesus é apresentado pelos autores dos textos evangélicos como alguém que viveu encurtando distâncias, em solidariedade com os não convidados da circunstância social, política e religiosa.

Prevalece a ideia de um Deus homem, entre homens e mulheres reais, que não se limita a vaguear ou a pairar sobre as águas. É uma presença que se revela no gerúndio. É, sendo em corpo, emoção e relação, contrariando o tempo da inação, testemunhando a ética do cuidado, porque nela vê a concretização da fé que o move.

Confrontado com o estabelecido, o tirano poder ocupante e uma administração religiosa tão cautelosa que não hesita em segregar, vê-se abandonado até pelos seus, amedrontados com tamanha ousadia. Abandonado, segue o caminho inevitável da morte.

Temos de reconhecer que não é a melhor forma de iniciar um movimento religioso. Esta fé transporta assim uma ferida aguda que a faz buscar a redenção. “Cada ferida real e genuína arranca o homem do remanso (quase sempre implícito e refletido) na confiança do sentido do mundo e da vida, ao qual todos, em certa medida, vamos buscar a força para viver e sobreviver”2.

O mais paradoxal, mas também o mais cativante na incoerência dos seguidores do seu mestre, tentando interpretar os evangelhos, é que a feridas abertas num abandono, motivado pelo medo e pela frustração, “atiçam perguntas”3. E as respostas, ou a ausência delas, “podem enterrar, para sempre, a confiança originária”.

A hermenêutica desta literatura é pandémica. Vai muito além dos mistérios e vicissitudes da fé cristã. É de e para todos. No recurso exegético a uma morte anunciada e, por isso, estrategicamente dramatizada pelos autores dos textos com a intenção de corresponderem a uma espera messiânica – não podemos esquecer-nos que os textos evangélicos foram escritos da frente para trás, construindo narrativas intencionais –, vê-se também todo um enciclopédico retrato de (des)humanidade que somos chamados a (não) ser.

O abandono, neste tempo que apela à cidadania, é o comportamento irresponsável, seja pela incúria de quem não segue as recomendações das autoridades de saúde, seja pela atitude obtusa de quem, podendo ajudar, ignora a necessidade de ajuda.

Estar e ser com, qualquer que seja a consequência, implica também a atitude proativa e criativa de quem, mesmo correndo riscos, sabe que ninguém se salva sozinho. Os(as) que se mantém no ativo, muito para lá da obrigação profissional (na saúde, no apoio aos mais velhos, na segurança, no fornecimento de bens essenciais…), dão já testemunho, esperando a correspondência de todos(as).

Uma ferida aberta pela irresponsabilidade ou pela indiferença, como as feridas daquele mestre abandonado, há-de “atiçar perguntas” para as quais só encontraremos resposta no egoísmo e no medo.

1. Bíblia - Os livros Sapienciais – Tomo I. (2018). Tradução de Frederico Lourenço. Lisboa: Quetzal.

2. Halík, Tomás. (2015). O meu Deus é um Deus ferido. (p.125). Loures: Paulinas.

3. Idem (p. 126)