Opinião

Uma pergunta à prática religiosa: quanto do que estamos a viver se tornará definitivo?

Alessandro Garofalo

O potencial digital estava já à disposição. Renovou-se numa prática forçada pelas circunstâncias. Em muitas situações, terá sido mesmo uma descoberta.

Todos os grandes momentos de revolução tecnológica se fizeram e fazem quando a ambição se conjuga com a necessidade. As ferramentas estavam prontas. Faltava a necessidade para generalizar a utilização. E a necessidade, conjugada, por sua vez, com a utilização, aperfeiçoa as próprias ferramentas.

É um pouco como o tríptico de Marshall McLuhan – meio, mensagem e o mensageiro. A certa altura, o meio é já a mensagem e o mensageiro passa quase a um plano secundário. O filósofo e teórico da comunicação previa, já em meados do século passado, uma “aldeia global” com meios de comunicação massificados como extensões do ser humano.

1. Um smartphone não é apenas um smartphone, mas o prolongamento do utilizador na inevitabilidade da comunicação. Embora indivíduos irrepetíveis e únicos, dizemo-nos socialmente. Esponja e ecrã, como esferas de um pêndulo, revelamo-nos comunicando, num vai e vem de informação, não tendo a noção do impacto deste movimento na formação e formatação do pensamento e do agir, condicionando até o discernimento.

Na era digital, somos também dados, presença real e presença virtual. Compensamos, e até substituímos, o afastamento físico com o alívio de uma ligação à distância, transpondo a relação presencial para uma ferramenta que, desta forma, é muito mais do que um meio, lembrando McLuhan.

Depois de passarmos pela experiência de um distanciamento físico compensado pela proximidade virtual, muito deste mundo digital acaba por preencher – no trabalho, na família, nas comunidades… – a necessidade de comunicação e relação. Afinal, quanto do que estamos a viver provisória ou transitoriamente se tornará definitivo?

Podemos estender a pergunta também à prática religiosa. Quanto deste provisório tecnológico, (re)descoberto pela necessidade de manter a vivência comunitária de fé, se fará «doutrina»?

2. Não falta teoria e estudo comportamental sobre a prática religiosa. Podemos dizê-la, num exercício arriscadamente sintetizado, em três dimensões:

- Vertical, na presença simbólica da realidade suprema, mono ou politeísta, legitimada na literatura do sagrado e no rito, agregada à sacralização de um espaço arquitetónico específico;

- Horizontal, enquanto experiência social e solidária, porque a crença se diz com relações quentes e emotivas – é o caso dos grupos de encontro e conforto espiritual ou dos lugares de peregrinação, com a experiência do «ombro a ombro», proporcionando uma ideia de caminho, de uma natureza comum e de superação;

- Interior, por via de uma vivência espiritual mais individual e racional, construindo uma alteridade mais humana.

Não são dimensões fechadas, como gavetas de um móvel. As três sobrepõem-se. A experiência religiosa concretiza-se nesta interação, devocional e percecionada, em relação, moldando uma ética e desenhando a tranquilidade perante as (in)certezas da existência e do destino, vivida na intermediação de um lugar, que pode ser um espaço/tempo de culto e de pertença ou a pessoa enquanto lugar de (re)ligação. Mas não há um rito perene e compensador sem um corpo efémero e presente.

NUNO VEIGA

3. A introdução da variável digital na experiência religiosa lança um debate sobre a prática religiosa, pelo papel carismático da presença e do testemunho (no qual se enquadra muita prática), pela relevância do afeto em comunidade (pelo qual se criam redes de solidariedade e partilha), pelo valor simbólico do encontro comunitário (no caso católico, a eucaristia tem o caráter místico de fazendo do pão e do vinho o “corpo e o sangue” de Cristo, transubstanciação assegurada exclusivamente pelo presbítero), ou, recuperando a intuição de McLuhan, pela possível reinterpretação dos valores constitutivos de cada contexto religioso, por via das ferramentas comunicacionais (o meio influencia e refaz a mensagem).

É, reconhece José Brissos-Lino, pastor protestante, doutorado em psicologia da religião, “uma situação nova, inesperada, inimaginável e de difícil gestão”1.

4. Entre católicos, vai passando nestes dias a ideia de que a sintonia no tempo, com celebrações eucarísticas pela internet, tem semelhante valor ao do encontro na igreja. Numa tentativa de manter um momento identitário, multiplicam-se as missas online. Assegurando o rito da comunhão substancial, o ministro de culto promove uma comunhão espiritual. A missa dominical é vista na mão ou no computador pessoal, com uma “assembleia” virtual que pode interagir enviando curtas mensagens escritas. Há um sentimento de pertença, de unidade na proximidade, que explica esta explosão de missas a celebrações online. O próximo é transposto para o digital, mas este digital pode esconder uma fragilidade das comunidades: a incapacidade de se dizerem de outra forma.

Há muito que se verifica a discrepância entre o número de fiéis nas missas dominicais e os que participam ativamente na restante vida comunitária, seja em grupos de reflexão mais espiritual seja nas estruturas socio-caritativas, quando existem. Se os segundos, com afinidades, reinventam facilmente caminhos alternativos para manterem rotinas de contacto, os primeiros, uma anónima maioria que se limita à assiduidade dominical, estarão a experimentar uma solidão espiritual, compensada por estas missas remotas. Um grupo de teólogos e académicos católicos, entre eles, Andrea Grillo, fala no “risco” das missas remotas, que podem tornar a eucaristia como a única característica da fé partilhada pelos católicos, esquecendo que esta representa “um encontro com Cristo”, celebrado “numa comunidade, e não o ato em si”. Num documento tornado público2, dão prioridade, na circunstância do confinamento, à “luz da Palavra” pela leitura da Bíblia.

A reforma do Segundo Concílio do Vaticano deslocou o centro celebrativo do sacerdote para a assembleia do “povo sacerdotal”. É um momento de e para comunidades reais, presentes, pequenas ou grandes.

E se, em vez ou apesar desta centralização ritual no “ato em si”, com o presbítero como ponte e gestor, senhor do templo distante e do tempo digital, afirmando a igreja clerical, a necessidade tivesse, a título extraordinário, desenvolvido a comunhão familiar, ampliando este mistério sacramental como alimento de vida e para a vida doméstica dos crentes?

5. Não se afigura como expectável um abandono acentuado das comunidades religiosas. A necessidade estimulou a criatividade digital, mas confrontou-se também com a infoexclusão dos anciãos. No regresso à sociabilização, mesmo com o prolongamento de algumas medidas cautelares, como o uso de máscara ou o distanciamento profilático, os crentes reencontrarão o tempo do templo e da comunidade. Se isso não acontecer, será dramático até para a sustentabilidade destes espaços religiosos.

O pós-pandemia vai, por outro lado, exigir reaproximações no drama de uma crise duradoura, reforçando as redes de solidariedade e entreajuda que caracterizam as comunidades religiosas.

Mas há uma nova realidade a ter em conta na prática religiosa. Chegando também a multidões de “não-praticantes”, temos assistido a inúmeras alternativas, no campo digital, das comunidades e de cada indivíduo para colmatarem a distância. E, embora seja ainda cedo para quantificar e qualificar, sabemos já que o aumento desta oferta digital no campo religioso promoveu, consequentemente, adesões novas e diferentes.

Só o retorno à normalidade clarificará se são apenas transitórias plataformas num momento pastoral extraordinário, ou se vão fixar-se como novas redes de pertença, reinventando a experiência religiosa, complementando ou até concorrendo com o convencional encontro comunitário presencial.

1 https://setemargens.com/um-tempo-duas-vezes-suspenso/

2 http://www.settimananews.it/teologia/insieme-sulla-stessa-barca/