Francisco Pinto Balsemão, antigo primeiro-ministro e fundador do grupo Impresa, foi protagonista de um percurso marcante que atravessa mais de meio século de história do país. Morreu esta terça-feira, aos 88 anos.
Da elite lisboeta à formação de um homem multifacetado
Francisco José Pereira Pinto Balsemão nasceu a 1 de setembro de 1937, na Casa de Saúde das Amoreiras, e foi registado na freguesia de Santa Isabel, em Lisboa.
Filho de Henrique Patrício Pinto de Balsemão, empresário, e de Maria Adelaide Van Zeller Castro Pereira, descendente de D. Pedro IV, cresce no seio de uma família da alta burguesia com raízes na Guarda, onde o avô paterno, também Francisco Pinto Balsemão, desempenhou, entre o final do século XIX e o início do século XX, um papel central na chegada da eletricidade à cidade, assim como na instalação da primeira rede de telefones.
A infância foi passada essencialmente no bairro da Lapa, na casa de família onde vivia e onde viria a completar o ensino primário. Filho único num ambiente marcado por tradição e disciplina, foi educado com o intuito de dar continuidade à obra da família.
“Os meus pais sempre puxaram muito por mim e meteram-me na cabeça que, pelo facto de ter nascido numa família sem problemas materiais, me dava mais obrigações”, recordou, numa entrevista ao Expresso. em 2011.
Estudou perto de casa, no Liceu Pedro Nunes, onde integrou quase sempre o quadro de honra. Concluiu a licenciatura em Direito na Universidade de Lisboa, apesar de reconhecer que a vocação estava mais direcionada para as letras.
A ligação ao jornalismo tem a sua génese ainda durante a licenciatura, quando, depois de ser colocado na Força Aérea para cumprir o serviço militar, assume funções de chefe de redação da Mais Alto, uma revista do ramo.
Entre a resistência ao regime e a luta pela liberdade de imprensa
Aos 25 anos assume um cargo de liderança - até então inexistente - no Diário Popular, um vespertino lisboeta detido pelo tio e pelo pai. Nas funções de secretário de direção, recusa quaisquer privilégios familiares e destaca-se rapidamente pela forma destemida como introduz um conjunto de inovações no jornal, da separação de secções temáticas ao uso da nova tecnologia da época.
“A conquista da redação foi talvez o objetivo mais difícil, mas também o mais apaixonante, e esteve na origem da minha atração, até hoje, pelo jornalismo”, conta, nas suas 'Memórias'.
A experiência no jornalismo reforçou a consciência política, sobretudo através do contacto com jornalistas de diferentes quadrantes ideológicos e do confronto diário com a censura. A entrada nesse campo deveu-se, em parte, à convicção de que era possível reformar o regime a partir de dentro, numa altura em que Marcello Caetano procurava rodear-se de personalidades independentes.
Balsemão, eleito pela Guarda nas legislativas de 1969, juntou-se, na Assembleia, a Sá Carneiro e outros deputados, no grupo que ficou conhecido como Ala Liberal, uma aliança política que levou, anos depois, à criação do Partido Popular Democrático (PPD).
Francisco Pinto Balsemão, Francisco Sá Carneiro e Joaquim Magalhães Mota fundaram o PPD onze dias depois do 25 de Abril.
No mesmo período, após a saída do Diário Popular (a publicação foi vendida pelo tio em 1971), Balsemão lança o projeto que marcaria o jornalismo português nas décadas seguintes: o semanário Expresso, fundado em janeiro de 1973.
À semelhança do que fizera no Diário Popular, implementa práticas pioneiras na conceção jornalística.
Agenda reformista no antes e depois de Camarate
Após o 25 de Abril, Balsemão colaborou na elaboração da Lei de Imprensa e manteve-se ligado ao Expresso, ao mesmo tempo que ocupava lugares de destaque no novo quadro político-partidário, sempre com uma perspetiva crítica e independente.
Em entrevista à RTP apenas cinco dias depois da Revolução, sublinhou: “Portugal ainda não está livre, principiou a dar os passos rumo à liberdade na sua plenitude (...) O 25 de Abril veio dar-nos poderes que nunca tivemos, mas não podemos esquecer as obrigações que em contrapartida daí advêm.”
O envolvimento partidário intensifica-se com a vitória de Sá Carneiro e da Aliança Democrática (coligação formada por PPD/PSD, CDS e PPM) nas eleições de 1979.
Balsemão é chamado a integrar o Governo na qualidade de ministro Adjunto antes de chefiar, entre 1981 e 1983, os VII e VIII Governos Constitucionais, na sequência da trágica morte do amigo e líder partidário no acidente de Camarate. Assume a liderança do Governo numa conjuntura marcada por dificuldades políticas e económicas, enfrentando tensões partidárias e o início das negociações para a adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia (CEE).
Durante os quase três anos como primeiro-ministro, Francisco Pinto Balsemão destaca-se pelo empenho decisivo na revisão constitucional de 1982, alvo de diversos olhares críticos, incluindo o do Presidente da República, Ramalho Eanes, com quem Balsemão admitiu, mais tarde, não ter sido "fácil trabalhar". As alterações à Constituição viriam a revelar-se fundamentais para a adequação de Portugal às práticas europeias.
Sob a liderança de Balsemão, sobressaem também outras medidas estruturantes para o país, como a diminuição do monopólio do Estado no sistema financeiro ou a forte política social, impulsionadora de aumentos anuais e generalizados de benefícios como pensões e abonos.
Liberdade no ecrã: a reinvenção do jornalismo em Portugal
Após a saída do Governo e da liderança do partido, em 1983, regressa ao jornalismo e à comunicação social para preparar o lançamento de um projeto precursor em Portugal: em 1992 nasce a Sociedade Independente de Comunicação (SIC), a primeira televisão privada portuguesa.
Uma nova conquista que consolida o papel pioneiro de Balsemão nos media em Portugal, ampliado mais tarde com a criação do grupo Impresa, que inclui, à data, diversos títulos, revistas e canais televisivos, com destaque para a SIC Notícias, o primeiro canal de informação do país, fundado em 2001.
Ao longo de décadas, Balsemão acumulou funções em organismos nacionais e internacionais ligados à imprensa, à televisão e à cultura, entre os quais a presidência do European Publishers Council e do European Institute for the Media, assim como a extensa participação no Steering Committee dos encontros de Bilderberg, onde representou Portugal durante 33 anos.
Em simultâneo, recebeu numerosas condecorações nacionais e internacionais, foi distinguido com diversos prémios e ainda agraciado com o título de Doutor Honoris Causa por várias universidades portuguesas. Além disso, foi responsável pela criação do prestigiado Prémio Pessoa, a mais importante distinção na área da cultura destinada a portugueses que se destacaram no domínio das artes, das ciências ou da literatura.
No plano pessoal, Francisco Pinto Balsemão era casado com Mercedes Balsemão desde 1975, com quem teve dois filhos: Joana Pinto Balsemão e Francisco Pedro Balsemão. De relações anteriores teve outros três filhos: Mónica Balsemão e Henrique Balsemão, ambos ao lado de Isabel Costa Lobo; e Francisco Maria Balsemão, filho de Isabel Supico Pinto.
Herança de palavra, liberdade e compromisso
Sempre sem medo de inovar, em janeiro de 2025 voltou a fazer história no panorama do universo audiovisual português, ao tornar-se o primeiro autor a divulgar em podcast o livro de memórias que havia lançado quatro anos antes.
A sua voz foi clonada através de Inteligência Artificial para narrar, em 24 episódios, o percurso pessoal e profissional do antigo primeiro-ministro, militante número 1 do PSD e líder do grupo Impresa.
A vida de Francisco Pinto Balsemão confunde-se com a história recente da democracia e dos media em Portugal. Entre os vários papéis que desempenhou, manteve-se, até ao fim, fiel à sua paixão pela comunicação social e à convicção de que a liberdade, para ser efetiva, exige responsabilidade, exigência e compromisso.
“A democracia não se prepara num laboratório, a democracia pratica-se”, advertiu, cinco dias depois de Abril. Foi esse princípio que orientou toda a sua intervenção pública.

