Em plena frente ribeirinha em Alfama, esconde-se um segredo quase à vista de todos: num pequeno troço de cerca de 250 metros, entre o Chafariz del Rey e o largo do Chafariz de Dentro, multiplicam-se as fontes e nascentes de água -- algumas com temperaturas superiores a 30º C – que ao longo dos séculos ganharam a fama de milagrosas.
As referências históricas às nascentes de Alfama são antigas: no século X, na literatura árabe, tornaram-se célebres os banhos junto à “Bāb al-Hamma” (Porta de Alfama); no século XVI autores como Damião de Gois e João Brandão de Buarcos destacavam as “muitíssimas fontes vindas por canais subterrâneos” nas quais "a população se abastece[ia] de água”. Houve contendas de água e a procura era tanta, no Chafariz del Rey, que foi necessário estabelecer um regime de precedência, consoante a natureza e estatuto dos utilizadores: homens, mulheres, escravos, livres, mouros, judeus ou cristãos, cada grupo detinha a sua bica de água.
A popularidade de algumas nascentes, às quais a crença popular atribuiu virtudes terapêuticas, provocou verdadeiras romarias às águas de Alfama. A chamada Fonte das Ratas atraía milhares de pessoas ao atual largo das Alcaçarias, multidões munidas de garrafões que se acotovelavam, noite e dia, na expectativa de aproveitar os benefícios do preciso líquido. Quando, em 1963, as autoridades de saúde encerraram a fonte, por contaminação das águas, as populações protestaram veementemente.
Para além dos lavadouros públicos, a abundância de águas permitiu a fixação de variadas atividades económicas. Uma das atividades mais surpreendentes foi a dos banhos e balneários, chamados de “alcaçarias”. Ao longo dos séculos tiveram nomes como Banhos da D. Clara, do Doutor Fernando ou Alcaçarias do Baptista, do Conde ou do Duque, estas últimas encerradas oficialmente em data tão tardia como 1978.
Neste episódio de ‘Histórias de Lisboa’, o jornalista Miguel Franco de Andrade conversa com a investigadora Elsa Cristina Ramalho sobre as águas milagrosas de Alfama.
Histórias de Lisboa é um podcast semanal do jornalista da SIC Miguel Franco de Andrade com sonoplastia de Salomé Rita e genérico de Nuno Rosa e Maria Antónia Mendes. A capa é de Tiago Pereira Santos em azulejo da cozinha do Museu da Cidade - Palácio Pimenta.
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